Wednesday, 28 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

O ódio no Facebook e na internet

Impressiona a hiperexposição mais passional do que racional de opiniões no Facebook. Instigado por esta inquietação, comentei com meus filhos sobre como as pessoas não percebem estar em uma esfera pública que, no meu entender, exige um comportamento que classificaria como mais civilizado, menos truculento. Em resposta, meu filho mais velho disse que o comportamento por demais expositivo e/ou agressivo no Facebook deve-se à migração do mesmo jeito utilizado no Orkut. Como nunca entrei no Orkut, perguntei qual era a tônica deste e me foi dito que era um diálogo entre dois interlocutores não partilhado, como no Facebook, por uma legião, às vezes por uma multidão. Portanto, era algo mais íntimo, algo onde se permitem arroubos, excessos, liberdades que, em tese, não deveriam ocorrer em um fórum composto de amigos íntimos, amigos não tão íntimos, inimigos e desconhecidos.

En passant, meu filho mais velho, como estudante vivendo nos EUA, percebeu diferenças entre os brasileiros e os americanos. Aqui, diz ele, o foco das postagens no Facebook gira mais em torno de opiniões, juízos de valor sobre música, literatura, política, pintura, enquanto nos EUA, no geral, a ênfase é nos comentários do tipo “estive em tal lugar”, “veja que vestido bonito!”, “olhe que lindo este lugar que visitei ontem” e por aí vai. Quanto ao estilo de postagem dos republicanos, em especial o pessoal do Tea Party, penso que temos algo que se assemelha e até supera os mais virulentos dos conservadores brasileiros.

Para ser justo, no caso brasileiro o maniqueísmo, o achincalhe, a xingação, no terreno da luta ideológica, não são atribuições apenas da direita. A esquerda, ou parte dela, também usa e abusa – em menor quantidade e intensidade do que os conservadores – de discursos belicosos e grosseiros. A caricatura, a deturpação do pensamento e das atitudes do adversário ideológico – a bem da verdade, os que adotam este estilo veem o adversário ideológico como inimigo – lembram o tempo da guerra fria e mesmo os slogans dos tempos de guerra. Deparei, recentemente, com um comentário de um sujeito, supostamente progressista, sugerindo que os evangélicos fossem “eliminados como ratos”. Não se está condenando toda a caricatura, toda a crítica ao outro, ao adversário. Apenas aquelas marcadas unicamente pelo ódio explícito e pela grosseria pura.

Luta ideológica

Estamos, pois, adotando na internet e no Facebook aquilo que Jürgen Habermas chama de “agir estratégico”, que significa, segundo ele, que “na orientação para o sucesso, o indivíduo persegue os seus interesses individuais, organizando uma estratégia baseada nas consequências de suas ações. Para alcançar seus objetivos, vale influenciar outros indivíduos, por meio de armas, bens, ameaças e seduções. E em qualquer eventual cooperação, cada indivíduo só está interessado no que pode ganhar individualmente com isso. Chamaremos esse tipo de ação de ‘ação estratégica’”.

Resta defender o que Habermas chama de “agir comunicativo” que, ao contrário da ação estratégica, abre espaço para ouvir os argumentos dos outros ou, no mínimo, estabelece uma discussão em bases mais civilizadas. Lutar pela conscientização de que a esfera pública de que se constituiu o Facebook requer um discurso não necessariamente isento de emoção, mas de melhor qualidade. Aprender, como bem disse Ulysses Guimarães, que “política não se faz com o fígado”. Descobrir que, ao contrário do cenário belicoso e maniqueísta instaurado pela grande mídia, a luta politica e ideológica não é e nem depende unicamente do estilo panfletário. (Aliás, um bom tema para estudo é saber o quanto o estilo maniqueísta vigente na internet é tributário, instilado por este estilo hegemônico na grande mídia.) E, ao mesmo tempo, não abandonar a luta ideológica e política, que se faz imperativa e urgente. Preocupação que compartilho com o grande José Saramago que afirmou ser mais importante, no momento, escrever e falar sobre política do que fazer literatura.

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Jorge Alberto Benitz é engenheiro e consultor, Porto Alegre, RS