Saturday, 18 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

O laboratório dos sonhos do Google

Num laboratório ultrassecreto em local não revelado da região de Bay Area, em San Francisco, onde robôs operam livremente, o futuro está sendo imaginado. Esse é um lugar onde sua geladeira pode ser conectada à internet para que possa encomendar mantimentos quando seus estoques estiverem baixos. Seu prato de jantar poderia postar numa rede social o que você está comendo. Seu robô poderia ir ao escritório enquanto você permanece em casa de pijama. E você poderia, quem sabe, tomar um elevador para o espaço exterior.

Esses são alguns dos sonhos que estão sendo perseguidos no Google X, o laboratório clandestino onde o Google está mexendo com uma lista de cem ideias mirabolantes. Em entrevistas, uma dezena de pessoas discutiu a lista; algumas trabalham no laboratório ou em outras partes do Google, e algumas foram informadas sobre o projeto. Mas nenhuma quis falar do assunto, por que o Google é tão reservado sobre o esforço que muitos empregados nem sequer sabem da existência do laboratório.

Embora a maioria das ideias da lista esteja em estágio conceitual, bem longe da concretização, duas pessoas com informações sobre o projeto disseram que um produto seria lançado até o fim deste ano, mas não quiseram dizer qual. “Eles estão muito à frente neste momento”, afirma Rodney Brooks, um professor emérito no Laboratório de Inteligência Artificial e Ciência da Computação do MIT e fundador da Heartland Robotics. “Mas o Google não é uma empresa comum, de modo que quase nada se aplica a ele”, diz.

Projetos excêntricos

Na maioria das empresas do Vale do Silício, inovação significa desenvolver aplicativos ou anúncios online. Mas o Google se vê de um jeito diferente. Apesar de ter se tornado uma grande corporação e empresas de internet iniciantes estarem mordendo seus calcanhares, o laboratório do Google reflete a ambição da empresa de ser um lugar onde pesquisa e desenvolvimento inovadores estão ocorrendo, nos moldes tradicionais do Xerox Parc, que desenvolveu o computador pessoal moderno nos anos 70.

Uma porta-voz do Google, Jill Hazelbaker, não quis comentar sobre o laboratório secreto da empresa, mas afirmou que investir em projetos especulativos era uma parte importante do DNA do Google. “Embora as possibilidades sejam incrivelmente empolgantes, por favor, tenham em mente que as quantias envolvidas são muito pequenas em comparação com os investimentos que fazemos em nossos negócios principais”, disse ela.

No Google, que utiliza técnicas de inteligência artificial e aprendizado de máquinas em seu algoritmo de busca, parte dos projetos excêntricos pode não ser tão disparatada quanto inicialmente parecia, apesar de desafiar as fronteiras do próprio negócio principal de buscas na internet da empresa. Por exemplo, elevadores espaciais, uma antiga fantasia de fundadores do Google e de empresários do Vale do Silício, poderiam coletar informações do espaço ou içar coisas para lá. Em teoria, eles envolvem uma viagem espacial sem foguetes, por meio de um cabo ancorado na Terra. “O Google está coletando os dados do mundo e com isso poderia estar coletando dados do sistema solar”, disse Brooks.

Robôs que substituem humanos

Sergey Brin, cofundador do Google, está profundamente envolvido no laboratório, segundo várias pessoas informadas sobre o fato. Ele produziu uma lista de ideias junto com Larry Page, outro fundador do Google – que trabalhou no Google X antes de se tornar presidente executivo, em abril –, Eric E. Schmidt, o presidente do conselho de administração da empresa, e outros executivos do alto escalão. “Gastei tempo em projetos avançados que poderão ser negócios importantes no futuro”, disse Brin recentemente, sem mencionar o Google X.

O Google pode transformar uma das ideias – os carros sem motorista que ele lançou em estradas da Califórnia no ano passado – em um novo negócio. Pouco empolgado com o espírito inovador dos fabricantes automotivos de Detroit, o Google está estudando a fabricação deles nos Estados Unidos, segundo uma pessoa próxima à iniciativa. O Google poderia vender tecnologia de navegação ou de informação para carros, e teoricamente poderia mostrar anúncios locais para passageiros no momento em que estes passam rapidamente por empresas da região, enquanto jogam Angry Birds no assento do motorista.

Os robôs figuram com destaque em muitas ideias. Há muito que eles capturaram a imaginação de engenheiros do Google, incluindo Brin, que já participou de uma conferência por intermédio de um robô, sem a sua presença física. Frotas de robôs poderiam ajudar o Google a coletar informações, substituindo os seres humanos que fotografam ruas para o Google Maps, dizem pessoas próximas aos projetos do Google X. Robôs criados no laboratório poderiam ser destinados a casas e escritórios onde poderiam ajudar em tarefas corriqueiras ou permitir que pessoas trabalhem remotamente, dizem eles.

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Google X: grandes negócios ou fiascos de tecnologia

Um engenheiro do Google familiarizado com o Google X disse que ele era gerido tão misteriosamente quanto a CIA – com dois escritórios, um indistinto para logística, no terreno da empresa na cidade de Mountain View, na Califórnia, e um para robôs, num local secreto. Embora os engenheiros de software trabalhem em outros locais do Google, o laboratório está cheio de engenheiros de robótica e elétricos. Eles foram contratados da Microsoft, Nokia Labs, Stanford, MIT, Carnegie Mellon e Universidade de Nova York.

Um líder no Google X é Sebastian Thrun, um dos maiores especialistas mundiais em robótica e inteligência artificial, que leciona Ciência da Computação em Stanford e inventou o primeiro carro sem motorista do mundo. Também no laboratório está Andrew Ng, outro professor de Stanford que se especializou na aplicação da neurociência à inteligência artificial para criar robôs e máquinas que operam como pessoas.

Johnny Chung Lee, um especialista em interação entre ser humano e computador, veio da Microsoft para o Google X neste ano, após ajudar a desenvolver o Kinect, da Microsoft, o dispositivo para videogame que responde a movimentos e voz humanos. No Google X, onde está trabalhando na “Web de coisas”, segundo pessoas familiarizadas com sua função, ele recebeu o título misterioso de “avaliador rápido”.

Projetos malucos

Como o Google X é um viveiro de apostas grandiosas, que poderiam se revelar fiascos colossais ou o próximo grande negócio do Google – e muitos anos poderiam transcorrer até se definir qual das alternativas –, a própria ideia desses experimentos apavora alguns acionistas e analistas. “Esses projetos mirabolantes são coisa típica do Google”, disse Colin W. Gillis, um analista da BGC Partners. “As pessoas não precisam amá-los, mas os toleram porque o negócio principal das buscas está empolgante.”

Larry Page tentou acalmar os analistas dizendo que os projetos malucos eram uma proporção mínima do trabalho do Google. “Há alguns projetos pequenos, especulativos, ocorrendo aqui e ali, mas somos gestores muito cuidadosos do dinheiro dos acionistas”, disse ele a analistas em julho. “Não estamos apostando tudo neles.”

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[Claire Cain Miller e Nick Bilton são do New York Times]