
(Foto: Last Stop Okinawa/Pexels)
Quando alguém deposita suas economias numa conta de poupança, num fundo de aposentadoria ou faz alguma aplicação financeira, está, na verdade, colocando o dinheiro numa “caixa preta”, onde a falta de informações pode expor o poupador à mesma situação de quem acabou tendo o seu dinheiro administrado pelo banqueiro Daniel Vorcaro. O escândalo do Banco Master mostrou como todos nós podemos ser vítimas de apostas financeiras milionárias feitas num mercado sem transparência onde os apostadores ganham e quem perde é quem resolveu economizar.
Quando alguém deposita na poupança ou aplica em algum outro título como CDB, LCI, Tesouro Direto ou fundo de ações, o dinheiro não fica no lugar onde foi depositado. O banco ou agente financeiro junta o valor recebido com o de outros pequenos e médios investidores, cria um fundo, que por sua vez reaplica em fundos maiores, criando uma sequência de negociações onde os lucros se multiplicam graças a taxas de juros que crescem à medida que o volume investido aumenta. Acontece que, com a digitalização e automação das negociações financeiras, o fluxo de dinheiro é cada vez mais rápido, o que implica raciocínios cada vez mais instantâneos por parte de operadores do mercado. Algumas operações já são até realizadas por algoritmos, ou seja, robotizadas.
A ciranda do dinheiro entre os diferentes fundos e gestores do dinheiro alheio forma o chamado mercado financeiro, uma entidade impessoal que é considerada pelas elites políticas, governamentais e empresariais como uma espécie de oráculo da economia. A imprensa, salvo raras exceções, é fortemente influenciada pelos humores do mercado, cujos pronunciamentos estão diretamente ligados aos interesses monetários dos operadores e não aos dos poupadores. Mas este não é o principal pecado dos grandes conglomerados midiáticos no que se refere ao jogo financeiro.
Mais grave é a omissão da imprensa em fornecer notícias e informações sobre os enigmáticos caminhos percorridos pelo dinheiro de quem poupa dentro do sistema financeiro nacional e internacional. Hoje, a administração do dinheiro se tornou algo economicamente tão ou mais importante do que a indústria, a agricultura e os serviços. Só que pouquíssimas pessoas sabem o que acontece dentro deste sistema, cuja importância para as pessoas comuns ficou agora brutalmente clara quando os funcionários públicos aposentados em vários estados brasileiros descobriram que podem perder o que pouparam.
E a imprensa, onde fica?
A função da imprensa e do jornalismo é fornecer informações para que possamos tomar decisões de acordo com nossos interesses e necessidades. A gestão da poupança popular é, portanto, algo que interessa diretamente às pessoas e inevitavelmente atrairia a atenção de milhões de brasileiros. Quem resolver perguntar onde está sua poupança ou fundo de aposentadoria não terá uma resposta clara, só explicações genéricas. Dados concretos, por exemplo, só quando os quase quatro mil aposentados e pensionistas da AMPREV, do Amapá, descobriram que suas poupanças viraram fumaça no fechamento do Banco Master. Idem para os 241 mil aposentados e pensionistas, civis e militares, da RioPrevidência.
O escândalo bilionário do banqueiro Daniel Vorcaro abalou seriamente a confiança de todos nós no sistema bancário brasileiro porque descobrimos que nossas economias podem acabar nas mãos de aventureiros, especuladores e até de criminosos. E que a recuperação da credibilidade financeira exigirá fluxos de notícias capazes de acabar com a “caixa preta” do sistema financeiro, tarefa que passa a ser uma das prioridades do jornalismo na era digital. Quem entende minimamente o funcionamento da economia atual sabe que a busca da transparência bancária é um desafio imenso dada a complexidade dos fluxos de dinheiro e da espantosa diversificação das formas de multiplicar o capital financeiro, especialmente agora, com as moedas digitais (bitcoins).
Fala-se muito em estimular a educação financeira, mas o problema é bem maior do que criar cursos presenciais ou online. O desafio está no fato de a gestão do dinheiro ter ficado muito mais complicada do que a maioria das pessoas imagina. Não se trata apenas de decidir entre colocar ou não na caderneta de poupança. A escolha envolve dezenas de possibilidades que variam de banco para banco, cada uma com vantagens e desvantagens. Além disso, o interessado é bombardeado diariamente pela publicidade de empresas que se multiplicaram de forma avassaladora desde que a digitalização tomou conta do mercado financeiro. Hoje temos entre 1.700 a 2.000 fintechs no país, um tipo de empresa financeira quase totalmente virtual com um crescimento de 77% desde 2020. A facilidade de instalação e de operação permitiu que aventureiros e até organizações criminosas aderissem ao fenômeno fintech, o que aumenta a necessidade de o investidor ter informações para não aplicar seu dinheiro em organizações inidôneas.
Jornalismo investigativo no mercado financeiro
A velocidade e complexidade das operações inevitavelmente criam o risco de algo dar errado e, quando isto acontece, quem perde é o poupador lá da ponta de caderneta de poupança ou o investidor em aplicações simples como CDBs. Os operadores já tiraram o ganho deles por meio de comissões em cada transação entre fundos. Foi o que aconteceu com as pessoas cujas economias acabaram caindo em fundos administrados pelo banco Master. Por isso, o poupador ou o investidor precisa estar atento para saber onde seu dinheiro está circulando, exigindo também do seu gerente de conta ou agente financeiro toda a transparência possível sobre o estado de sua poupança ou aplicações.
A alta demanda por dados e fatos capazes de permitir que as pessoas administrem seu dinheiro exigirá do jornalismo e da imprensa uma série de novas competências e habilidades. Os procedimentos atuais na cobertura do setor financeiro devem ser reajustados para atender aos interesses de poupadores de menor poder aquisitivo. A confiança do público nos repórteres e editores encarregados da produção de notícias financeiras é um pré-requisito fundamental. Além disso, os jornalistas precisam saber distinguir os bons investimentos da picaretagem especulativa tipo banco Master ou pirâmides criadas por influenciadores digitais, objetivo que exige uma permanente preocupação com a pesquisa de dados, fatos e eventos. Também vai implicar um patrulhamento constante da ciranda do dinheiro entre um fundo e outro para detectar fraudes e golpes antes que seja tarde demais.
A cobertura financeira começa a se transformar num item obrigatório na agenda informativa da imprensa e dos jornalistas. Abre espaço para o surgimento de profissionais especializados na busca, análise e curadoria de informações para um público enorme que até agora foi mantido à margem do fechado círculo de operadores da “caixa preta” financeira. É um público que a imprensa e o jornalismo estão perdendo para influenciadores inescrupulosos.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
