Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Governo reforça campanha contra Grupo Clarín

A Argentina poderá ser declarada “país autoritário” pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) caso se confirmem os boatos de que o governo utilizará a lei de mercados de capitais para tomar o controle do Grupo Clarín por 180 dias. De acordo com o vice-presidente regional da SIP, Daniel Dessein, dono do jornal La Gaceta, de Tucumán, a entidade considera a intervenção o cenário mais provável depois de a Comissão Nacional de Valores (CNV) enviar nos últimos dias 13 pedidos de informação ao conglomerado de mídia. “Essa poderá ser a resposta da SIP caso se confirme o cenário extremo, como forma de aumentar a repercussão internacional ao cerco que a imprensa sofre”, disse.

Por uma lei sancionada no ano passado, a CNV (a CVM argentina) pode intervir em uma sociedade anônima a pedido de um sócio minoritário, sem aval judicial. Por meio da Anses, autarquia que controla os fundos de pensão, o governo da presidente Cristina Kirchner detém 9% do capital do grupo. A tomada de controle é apenas uma das opções de intervenção que a CNV poderá adotar. O órgão pode se limitar a apenas a nomear auditores para o grupo, como passo inicial para uma medida mais radical. Ontem, em evento fechado com empresários do setor financeiro, o diretor da CNV, Alejandro Vanoli, disse que o órgão irá agir “com prudência e dentro do marco legal”, de acordo com relato do próprio Clarín em sua página na internet.

Segundo Dessein, a hipótese de uma intervenção radical é provável em razão de outros fatores, como a apresentação por parte de parlamentares governistas de um projeto que expropria parte do capital da empresa Papel Prensa, que monopoliza a produção e importação de papel jornal no país. Atualmente o governo detém 27% do capital, e a empresa é controlada pelo Clarín e pelo La Nación, que somam 71%.

Dinheiro de origem obscura

Dessein citou também o boicote de publicidade de supermercados, e varejistas de eletrodomésticos a jornais, organizado desde fevereiro. “Há três meses, o Clarín saía com 264 páginas de publicidade aos domingos. Hoje sai com 61.” Só há atualmente três grupos de mídia que fazem oposição a Cristina: além do Clarín, que também controla a segunda TV de maior audiência no país, a principal rádio e a maior empresa de TV a cabo, também fazem parte do diminuto núcleo o La Nación e o semanário Perfil, que publicou em sua página na internet que a tomada de controle vai acontecer hoje à noite, durante o jogo entre Corinthians e Boca Juniors pela Libertadores.

“Um ato desses poderá ter repercussões ruins para o governo às vésperas da eleição parlamentar. Vitimiza o Clarín e coloca a corrupção no centro do debate”, comentou o ex-ministro-chefe de gabinete de Cristina (responsável pela coordenação política), Alberto Fernández, hoje na oposição. Há três semanas, o principal jornalista do grupo, Jorge Lanata, veicula em um programa de televisão domingo à noite, com 33 pontos de audiência – denúncias de que Cristina movimentaria grandes quantias de dinheiro de origem obscura, supostamente mantendo um cofre em sua casa em Río Gallegos com capacidade de armazenar € 3 bilhões. Não houve resposta até agora por parte da presidente.

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César Felício é correspondente do Valor Econômico em Buenos Aires