Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

A força para enfrentar inimigos

Esse cenário é “novo”. Polícia, políticos, povo e a “grande mídia” parecem ainda não saber onde pisar. Para onde ir. Acho burrice desperdiçar este momento com análises superficiais da cobertura da mídia e apoiar – de forma irracional – anarquismo e vandalismo. Pela primeira vez vi a mídia anunciar manifestações, entrar ao vivo – por horas – e mostrar lindas manifestações e conflitos. Isso é resultado, justamente, da força da internet e dos novos canais de comunicação que a sociedade tem.

Estou longe do Brasil e consigo acompanhar, por vários sites de TV, portais e jornais, a cobertura de tudo, em todo o país. Vi policial batendo, gente de bem querendo mudança, outros falando bobagens, policiais sendo feridos e brasileiro cantando o hino (como aí em JP). Mas tenho medo da anarquia, do discurso fascista, da extrema-direita e da desinformação.

A imprensa brasileira (empresas privadas) se rendeu a esse poder. Se o povo souber aproveitar isso, fortaleceremos a democracia. O fato é que a mídia – responsável – não vai fazer uma cobertura para estimular o conflito. Os europeus veem essa “revolução” como algo natural. Estão acostumados com os “levantes” e tem um olhar mais maduro da atuação política. Talvez seja isso que precisamos: amadurecer. Mas isso só vai acontecer quando deixarmos a preguiça de lado para nos informarmos sobre o nosso papel de cidadão. A imprensa brasileira (repito, empresas privadas/com concessões públicas) cometem erros, mas a sua pluralidade tem sem dúvida, contribuído, com essa mudança.

Não cresceremos com o acaso

PEC 37 (cura gay), Feliciano, Renan, falta de infraestrutura do país, eleição, papel do cidadão, corrupção, problemas na saúde, na educação, desvalorização de professores, regalias de juízes, desvio de verbas, gastos de Assembleias e Câmaras de Vereadores, corrupção policial: esses assuntos sempre pautaram a mídia. Mas o povo – esse mesmo que acordou (eu espero) – nunca soube usar a informação para fazer a chamada “revolução”. Estou há mais de quatro horas assistindo, ao vivo, pela internet às manifestações e os conflitos (Rio, São Paulo, Brasília e Campinas). Repito: tenho medo da anarquia e a TV, repórter ou jornal que estimular isso é tão “irresponsável” quanto os “radicais” (nome usado para separar a parte podre).

Feliz em ver as mobilizações em cidades pequenas e grandes. Triste em ver a internet sendo usada para estimular a violência e enfraquecer a nossa democracia. Estou longe e posso ver tudo – inclusive apresentar meu ponto de vista e receber o contraditório. Mas espero mais que mobilização. O fogo acaba, a energia de ir às ruas também. O recado está sendo dado, chegou de maneira “imponderável”. Mas não cresceremos com o acaso. É com conhecimento e inteligência que teremos a “real” força para enfrentar “reais” inimigos e problemas reais.

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Laerte Cerqueira é jornalista e professor, Dublin, Irlanda