Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

O premiê e a guerra contra as mídias sociais

Há 11 anos ocupando o cargo de primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan sempre foi avesso à imprensa. Até aí, nada de novo. A roupagem do político de tom moderado e bem longe de qualquer tendência radical era a imagem a ser vendida para a mídia nos primeiros anos de governo – afinal, desde 2004, a Turquia se encontra num estágio humilhante de candidato a candidato paraentrar para a União Europeia (EU), mas o chefe do Partido (muçulmano conservador) para Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco) não fez o trabalho de casa. Os protestos no parque Gezi, em Istambul, em junho no ano passado, e a reação brutal do governo contra os manifestantes tratou de entornar o resto do caldo para a parte ocidental da Europa. Na época, os editoriais da imprensa alemã enfatizavam exaustivamente a incompatibilidade da Turquia com valores estipulados pela EU: eleições livres e diretas, combate à corrupção, entre outros tantos.

Atropelado pelos fatos

O possível envolvimento de Bilal (filho de Erdogan) em casos de corrupção no setor imobiliário, as eleições regionais de domingo (30/3) e a intenção de se candidatar à presidência em setembro próximo é a mistura de pólvora que, agora, o fizeram arriscar tudo de uma só vez. A carcaça de um político pseudomoderado esfarelou. Erdogan finalmente mostrou a verdadeira face de “Erdowahn” (Erdoganlouco), apelido que ganhou nas mídias sociais alemães.

Num voo político cego, não sobrou “somente” para os promotores incumbidos da investigação de corrupção envolvendo o alto escalão do governo, além da família do próprio Erdogan. Os promotores foram transferidos, enviados para os quatro cantos do país, medida que enfraqueceu consideravelmente a promotoria. Sobrou também para as redes sociais. Num período de duas semanas, Erdogan bloqueou o microblog Twitter, do qual segundo pesquisas os turcos são campeões do mundo em uso, com 10 milhões de usuários. O presidente turco, por sua vez, usou sua conta no Twitter para classificar a medida do premiê como “inaceitável”. Em entrevista à TV, um membro do partido republicano, adversário de Erdogan, se mostrou “envergonhado” com a medida do bloqueio.

Democracia Blitz

# twitterisblockedinturkey foi hashtag mais usado em todo no microblog durante o bloqueio. Num momento de consciência política, o tabloide Bild divulgou um vídeo no qual um jornalista alemão e uma jornalista turca explicavam como tecnicamente “driblar o bloqueio”, operativamente possível através de mensagens de texto diretamente enviadas ao provedor de telefone (ver aqui e aqui).

Depois do microblog foi a vez do YouTube, ferramenta responsável pelo “vazar” do conteúdo de um telefonema, supostamente entre Erdogan e seu filho Bilal, este acusado pela polícia federal de estar envolvido em corrupção no setor imobiliário. Segundo o áudio meticulosamente protocolado, o premiê orienta o filho para “zerar todo o dinheiro” em espécie que constasse em sua casa (ver aqui).

Na quinta-feira (27/3) foi sacramentado o bloqueio em toda a Turquia, tarefa tecnicamente fácil, já que a Telecom turca é totalmente subordinada ao governo (ver aqui).

Eleições municipais

Em (permanente) campanha eleitoral para as eleições municipais de domingo (30/3), mas também para as eleições presidenciais, o premiê se dizendo “difamado pelas novas mídias”, faz um discurso polêmico, ameaçador e sem caminho de volta: “Vamos extingui-las(!) e não me importa em nada o que o ocidente possa pensar disso!” (ver aqui e aqui).

Oásis do jornalismo investigativo

No contexto das denúncias sobre corrupção, a promotoria teve o suporte de Mehmet Baransu, jornalista investigativo e atuante no jornal diário Taraf (Lado). Seu site, Yeni Dönem (Nova etapa), é acessível somente por um servidor proxy (um computador intermediário situado entre o computador do usuário e a internet) e estava no ar uma semana antes de estourar na mídia a notícia da investigação da promotoria.

Em 17 de dezembro de 2013, Barauana divulgou fotos e áudios que ratificavam o comprometimento de ex-ministros das pastas de Energia, Economia e Assuntos Europeus. Orgulhoso, ele declara ao portal alemão Jungle-World: “Em bem pouco tempo, o meu site quebrou o recorde de 3,5 milhões de cliques”. O sucesso temporário não impediu que o jornalista sentisse na pele o que reflete a situação da imprensa na Turquia, dividida em dois polos, os pró e os contra Erdogan: “Depois da publicação dos dados bancários do Zafer Ça?layan (ex-ministro da Economia) e um áudio que comprova ele aceitando propina, meu site foi atacado e, na sequência, bloqueado. Eu reclamei com o órgão responsável pela telecomunicação (TIB, na sigla em turco), logo depois o site estava novamente no ar, mas no final da noite o site foi bloqueado definitivamente”, concluiu.

Clara vitória para Erdogan

De acordo com os resultados das eleições municipais divulgados na mídia (30/3), o AKP saiu vitorioso e se firma como a bancada mais forte. A edição digital da revista Spiegel anuncia: “Caos nas eleições na Turquia”, e acrescenta que, enquanto Erdogan já se proclama vencedor, a oposição se declara vitoriosa nas metrópoles Ankara e Istambul. Segundo analistas políticos, o resultado desta eleição é o termômetro que vai determinar “não somente” as trilhas para candidatura à presidência, mas o futuro político de Erdogan.

Nem mesmo os bloqueios do Twitter e do YouTube parecem ter tido impacto sobre os 52 milhões de eleitores convocados às urnas. A frase do filósofo Joseense Marie de Maistre é procedente e mais atual do que nunca. Aquele que se autodeclarava “construtor de pontes” (Brückenbauer) entre a Ásia e a Europa, revelou-se um sapo e, como o seu colega russo Wladimir Putin, um político imprevisível, além de responsável pelo retorno ao patamar de Ground Zero do relacionamento entre Turquia e EU. Os 36 km do estreito do Bósforo não poderiam ser melhor metáfora.

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Fátima Lacerda é jornalista freelance, formada em Letras, RJ, e gestão cultural em Berlim, onde está radicada desde 1988; autora do blog “Todos os caminhos levam a Berlim”, no Estadão.com