Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

O abismo entre dois Silvas

Um era jovem, bonito, alegre e começava a fazer carreira na TV. O outro também era jovem, não exibia especiais atributos físicos, era triste, tinha problemas mentais e teria vivido como um enjeitado se não tivesse sido acolhido por uma mulher que se apiedou da situação dele. Os dois eram negros e foram mortos na semana passada, quando o supostamente “pacificado” Pavão-Pavãozinho, favela em área nobre da Zona Sul carioca, explodiu num conflito que incluiu balas traçantes e interditou o trânsito de Copacabana no início da noite da terça-feira (22/4).

Foi o assassinato de Douglas Rafael da Silva, durante uma perseguição policial a traficantes, que detonou os protestos. Edilson Silva dos Santos, rebatizado de Mateus pela mãe adotiva porque ninguém sabia o nome dele na comunidade, não passou de mais um: em meio ao fogo cruzado, levou uma bala na cabeça e morreu antes de chegar ao hospital.

Dançarino no programa dominical de Regina Casé, da TV Globo, Douglas, conhecido como DG, ganhou a mídia e as ruas. Teve velório concorrido no cemitério São João Batista e homenagem de artistas globais na edição especial do Esquenta! de domingo (27/4).

No mesmo cemitério, Edilson, ou Mateus, foi velado debaixo de um toldo por meia dúzia de pessoas.

Um símbolo

O repórter Vladimir Platonow, da EBC, notou a diferença de tratamento e publicou comentário amplamente compartilhado no Facebook. Mas, a rigor, essa situação não deveria espantar. Não só pelo que o crítico de mídia Alexander Cockburn, falecido há cerca de dois anos, ironizava sobre os critérios utilizados para um fato se tornar notícia, e que estabeleciam a diferença de status entre um americano branco e um habitante anônimo da periferia do mundo. Não só por isso, mas porque Douglas, ou DG, e sua história tão dramaticamente comum, se tornou um símbolo de denúncia contra a banalidade da violência policial nas favelas. Da mesma forma que Amarildo, o servente de pedreiro desaparecido na Rocinha, no ano passado.

Resta saber que força terão, de fato, esses símbolos, se a discriminação no tratamento dispensado aos pobres não se altera. Em seu programa, Regina Casé indagou quantos ali se chamavam “Silva”. Edilson/Mateus era um deles. Quem se recordou?

Não foi por acaso que tanta gente, nas redes sociais, criticou como demagógica a homenagem televisiva a esse “Silva” tão especial em meio a seus homônimos.

Agressões à imprensa

Os protestos contra a morte de Douglas foram marcados também pelas cenas já corriqueiras de hostilização a jornalistas da chamada “grande imprensa”. Fez sucesso nas mídias sociais um pequeno vídeo em que um casal insultava uma repórter da TV Globo que se preparava para gravar. Na passeata que se seguiu ao enterro do rapaz, na quinta-feira (24), e na manifestação de seus parentes e amigos, domingo, em Copacabana, novas agressões. “Você não é gente, você é lixo, você não é bem-vinda aqui. Fora, fora, fora!”, ouviu a repórter de O Dia, depois de rechaçada pela mãe do jovem. Cercada, protegida por colegas, ela se retirou, junto com outros jornalistas igualmente insultados.

Ao pé da reportagem publicada pelo jornal, o editor executivo de O Dia, Alexandre Medeiros, condenou a atitude dos manifestantes (ver “Não aceitamos a agressão. Ela não faz parte do debate“, rolar a página).

Quantas vezes a presença da imprensa foi decisiva para conter o abuso de autoridade e defender justamente esses que agora vêm rejeitá-la?

Execrações seletivas

A rejeição à “grande mídia” – mais especificamente à Rede Globo, pelo seu poderio e seu alcance – ficou durante muito tempo restrita a episódios pontuais, embora muito significativos, como o da eleição de Leonel Brizola para o governo do Rio, em 1982. Hoje, é sistemática, e esta é talvez uma das heranças mais nefastas das manifestações de junho do ano passado, quando os autoproclamados “midialivristas” entraram em cena com força, muitos deles estimulando esse clima de hostilidade. Não é difícil perceber que o que pretendem não é exatamente uma crítica ao trabalho da grande imprensa, mas a imposição de um modelo em que apenas eles, os “midialivistras” ou os “comunicadores populares”, tenham o direito de informar. À moda deles, naturalmente.

Tampouco deveria ser difícil perceber que o discurso indignado contra a “grande mídia” não vai além disso mesmo: do discurso, pois o povo, que supostamente não é bobo, continua a dar audiência à Globo ou a suas concorrentes, entretanto integrantes do mesmo complexo de comunicações.

O discurso indignado é, além do mais, seletivo. Pois Douglas, afinal, dançava para alegrar as tardes de domingo num programa da Globo. E não há de ter passado pela cabeça de ninguém condená-lo por estar se “vendendo” ao “sistema”.

Por que apenas – ou, talvez fosse o caso de dizer, por que justamente – o jornalismo e os jornalistas deveriam ser execrados?

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Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)