Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

A Universal, a repórter e as situações obscuras

O movimento evangélico ganha força e se expande no país há aproximadamente 30 anos. Em princípio, aventurando-se nas periferias das nossas cidades e sociedade e avançando até os grandes centros, alcançando uma clientela mais culta e sofisticada. Nesse movimento, que ouso dizer histórico, a Igreja Universal do Reino de Deus ganhou destaque e seu bispo, um ícone a ser seguido ou perseguido, conforme os interesses de cada um.

Assim como o país, a igreja dos pastores e bispos atingiu certo grau de desenvolvimento e flexibilidade, não só pessoal como administrativa. Tendo a ousadia de ir onde nenhuma outra instituição religiosa – com cânones e dogmas mais arcaicos e tradicionais – jamais esteve ou demonstrou o devido interesse em ir. Estamos falando em termos de instituições, e não iniciativas pessoais.

Quem conhece Brasília e suas cidades satélites sabe que em quase todo quarteirão existe um templo evangélico. Nas favelas do Rio de Janeiro e nas piores prisões do país existem grupos evangélicos. E que bom que eles estejam por lá porque senão seria um Deus nos acuda. Literalmente.

Segundo informações da própria Iurd, a Universal possui 8 milhões de fiéis no Brasil, 9.600 pastores, 4.700 templos em 172 países – uma gota no oceano quando comparado aos bens do Vaticano, que tem até um Estado independente, ou aos anglicanos, que têm na rainha da Inglaterra sua maior representante.

Meios modernos e dinâmicos

Diz a jornalista Elvira Lobato, em determinado trecho de sua reportagem publicada na Folha de S.Paulo (e que suscitou a extemporânea reação da Iurd), que uma das empresas vinculadas à igreja, a Unimetro, é ligada à Cableinvest, registrada no paraíso fiscal da ilha de Jersey, no canal da Mancha. ‘O elo aparece nos registros da empresa na Junta Comercial de São Paulo. Uma hipótese é que os dízimos dos fiéis sejam esquentados em paraísos fiscais’.

Essa informação, dada em tom de denúncia, é uma verdadeira piada. A igreja do pastor Macedo possui uma empresa de ‘fachada’ legalmente registrada na Junta Comercial e existe uma hipótese, que ela não diz de quem (da Polícia Federal? Do Banco Central? Da Receita Federal?) que o dinheiro doado pelos dizimistas é ‘esquentado’.

Esquentado?! Como e por quê? Se o dinheiro é ‘esquentado’ vai para onde? Qual é a intenção da empresa registrada na Junta Comercial de São Paulo? A Iurd possui templos espalhados pelo mundo e não pode ter uma empresa para administrar suas verbas, mesmo provenientes de dizimistas?

Não é compatível que uma igreja que tenha templos espalhados pelo mundo afora também possua meios modernos e dinâmicos de remessa de ativos? Para que serve o dízimo, afinal? Não é para manutenção do movimento religioso?

O ‘império comercial’

A Iurd é acusada de ser proprietária um império de telecomunicações. Não muito, se comparada ao grupo Globo de comunicações, por exemplo. Os bispos são seus principais acionistas e a jornalista intui no leitor que eles são de fachada, assim como uma empresa legalmente registrada na Junta Comercial.

Acredito que as grandes empresas possuem em seus quadros diretores que adquirem ações. É um procedimento normal, principalmente nas multinacionais. Como também é normal quando um deles se afasta ou se mete em algum escândalo, também é pertinente que ele corte os vínculos com a empresa. O estranho, principalmente partindo de uma instituição religiosa, é que o envolvido permanecesse no cargo gozando de todos os privilégios.

Diz Elvira Lobato, na matéria, que as empresas e os bispos possuem relações obscuras – provavelmente porque não foram encontradas informações no sítio da igreja na internet, onde essa matéria parece ter se baseado. Lá está claro, para quem quiser ver as rádios, televisões e tudo mais.

O que fica, no entanto, é o ‘império comercial’, em especial de telecomunicações. Este, sim, deve incomodar tanto a Folha de S.Paulo como incomoda a Rede Globo, que não é a mesma há muito tempo, desde que a Rede Record vem abocanhando a sua audiência.

Uma instituição idônea

Coincidentemente, a Igreja Universal do Reino de Deus pretende transformar seu principal jornal, Folha Universal, num jornal diário vendido nas bancas de todo o país.

A jornalista Lobato agora posa de perseguida e procura refúgio junto ao corporativismo de seus pares. A imprensa brasileira, tão pródiga em fabricar mártires, já tem se pronunciado a seu favor usando como baluarte a liberdade de imprensa e tudo o mais que esse sentimento inspira possa incorporar.

A Igreja Universal do Reino de Deus é, a princípio, uma instituição idônea, até prova em contrário – e não suposições, estas, sim, obscuras. Cabe ainda notar que nenhum membro da igreja se manifestou na matéria e muito menos as instituições que, por dever de ofício, deveriam fiscalizar ‘situações obscuras’.

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Psicólogo, Curitiba, PR