Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Mais uma “baixa” entre os “soldados da informação”

(“Revisitando” os artigos “Gelson Domingos – mais um tombado entre os ‘soldados da informação do Brasil’”e “Como prevenir mortes entre ‘soldados da informação’”)

“Como jornalista, é muito fácil ficar endurecido ao ver tantas histórias perturbadoras. Algumas vezes, entretanto, apenas o mecanismo de sobrevivência faz com que seja possível endurecer-se” (Linda Vester, âncora da Rede NBC, tradução livre com adaptações)

2011 é um ano que vai ficar marcado pela morte do cinegrafista Gelson Domingos. Ele passou a ser uma “baixa” em um dos fronts da “guerra da segurança pública” do Rio de Janeiro, desta vez em Antares, Zona Oeste da capital fluminense. Isso é ainda mais deplorável considerando a divulgação, meses antes, de alguns dos instrumentos para prevenção de mortes entre “soldados da informação”. Eles seguiram morrendo… Gelson tombou pelo habitual destemor dos cinegrafistas em capturar as melhores imagens, mesmo com o risco da própria vida. Tombou na faixa limite de um “fogo cruzado” entre forças públicas e bandos de narcotraficantes de Antares. Já agora, próximo ao final do ano da tragédia, talvez seja tempo de honrar a lembrança de Gelson Domingos, revisitando algumas das questões sobre prevenção dos riscos corridos por jornalistas.

Um guia prático

“Ao fazer reportagem em áreas de risco (por exemplo, favelas dominadas pelo tráfico), repórter e fotógrafo têm de manter contato regular com a chefia e tomar todas as precauções que seus chefes considerarem necessárias” (Manual da redação: Folha de S.Paulo, p.49).

Tal qual refere Linda Vester, “endurecer-se” é algo inerente ao jornalista. Mas é a mesma jornalista/âncora que também aponta que o “mecanismo de sobrevivência” antecede o de endurecimento. Ou seja, ainda que seja necessário endurecer-se, isso não é suficiente. É preciso que o jornalista “fique vivo” – é preciso que sobreviva – para poder, então, endurecer-se. E é nessa perspectiva que precisam ser explorados e aplicados todos os meios de prevenção, como deveria ter acontecido (e, deploravelmente, não aconteceu) em Antares. Se é necessário a sociedade estar informada, é não menos necessário que seus jornalistas estejam protegidos.

Entre alguns dos instrumentos criados para proteção de jornalistas em situações de risco, é auto-explicativa, pelo próprio título, a natureza da publicação Um Guia de Sobrevivência para Jornalistas (A Survival Guide for Journalists). Ele foi elaborado em 2003 pela Federação Internacional de Jornalistas (International Federation of Journalists – IFJ), com sede em Bruxelas, Bélgica. Peter McIntyre, autor do guia, aponta a finalidade da publicação. Ela vai aqui traduzida, adaptada e resumida:

“A publicação foi criada como um guia prático em lugar de um trabalho teórico. Deve ser lida por jornalistas que vivem e trabalham em condições perigosas e por aqueles que podem ser eventualmente designados para áreas de risco. (…) Algumas das melhores informações e conselhos da publicação derivam de fontes/jornalistas que retornaram de missões de risco, com eles refletindo depois sobre tais missões, bem como sobre o que fez com que estivessem  seguros”.

A “vestimenta de proteção”

Para melhor compreender o escopo do manual, é conveniente saber algo da própria IFJ, como seus objetivos: prover apoio e programas de assistência em regiões de conflito; estimular acordos coletivos nas áreas de saúde e segurança, valendo-se de associações e sindicatos de jornalistas em sua relação com as empresas do setor; difundir informações, veiculando-as em diferentes tipos de mídia; promover as “melhores práticas” em treinamento; pesquisar, desenvolver e promover serviços de segurança; promover iniciativas pré-existentes, incluindo códigos e diretrizes; estabelecer uma rede global voltada para a redução de riscos no exercício da profissão e; patrocinar iniciativas de conscientização, quando da realização de conferências e outros eventos nacionais, regionais ou internacionais.

O Guia de Sobrevivência para Jornalistas da IFJ está dividido em quatro partes:

** “A Preparação” – incluindo diferentes medidas prévias à realização de missões jornalísticas de risco (aspectos psicológicos e emocionais, entre outros), incluindo logística e equipamentos tipicamente necessários;

** “Zona de Perigo” – abrangendo a análise e prática de redução de riscos em regiões de conflito armado (identificação de aspectos bélicos/armamento e determinação de “quem é quem”), incluindo informações sobre os equívocos mais comuns;

** “A Zona de Recuperação” – incluindo questões relativas a cuidados médicos, primeiros socorros, etc.;

** “A Zona de Campanha” – abrangendo também a articulação das organizações jornalísticas internacionais na organização de cursos e campanhas em prol da segurança de jornalistas em tais regiões.

O manual aponta detalhes acerca da utilização de indumentária própria para atuação em regiões de conflito – a chamada “vestimenta de proteção”. Resumidamente, são feitas as seguintes recomendações quanto a diferentes aspectos dessa “indumentária”:

** A necessidade de vestimenta de proteção, incluindo “jaqueta de combate” com proteção para pescoço, gola e virilha (com adições para os braços, no caso de cinegrafistas), possuindo encaixes para “placas de blindagem” (característica do clássico “colete à prova de bala”);

** Considerações acerca do poder de blindagem da porcelana – maior efetividade com menor peso – vis-à-vis blindagens com metal;

** Comentários sobre a “desvantagem” do uso da indumentária de proteção (inclusive para poder correr) face ao alto peso da blindagem (peito e costas) que pode chegar a doze quilogramas e;

** A questão da eventual falta de verba para a aquisição desses equipamentos, bem como seu alto custo.

Medidas para minimizar riscos

Não menos importante do que a blindagem corporal, o guia também se refere à atitude daquele que cobre um front qualquer. Afinal, não vale a pena “apostar tudo” na blindagem, sem um necessário resguardo virtual ou real contra disparos. É a já conhecida questão da “cobertura” (do “resguardo virtual” ou de como ficar fora da “visão” de atiradores) e do “abrigo” (do “resguardo real” ou de como ficar fora da “trajetória” dos disparos). A publicação faz uma necessária distinção entre esses dois conceitos, o primeiro referente a “não ser visto”, enquanto o segundo a estar efetivamente/fisicamente resguardado do alcance de disparos. Na cobertura, o documento enfatiza a necessidade do jornalista não ter a posição revelada em função da sua forma, brilho, silhueta ou movimento. Vai ao detalhe do efeito revelador da luz solar sobre lentes e demais itens refletivos do equipamento (eventualmente neutralizado até mesmo com lama). Já na questão do abrigo, aponta que um abrigo efetivo deve ser capaz de barrar a trajetória do projétil de um disparo, questionando supostos abrigos mostrados em situações ficcionais (filmes), caso de árvores, cercas ou veículos. O melhor material de abrigo, ainda segundo o manual, seria o próprio solo, com a demonstração disso sendo as ondulações, trincheiras ou obstáculos construídos com sacos de terra/areia.

No caso de cinegrafistas e fotógrafos, o guia da IFJ aponta que “lentes longas” (teleobjetivas) favorecem maior segurança para eles. Ou seja, além desses acessórios constituírem uma necessidade técnica genérica, as empresas do ramo também melhorariam a segurança de seus jornalistas ao proverem a eles “lentes longas”. Tal qual em relação a outros equipamentos, também no tocante a lentes, as pequenas empresas do setor podem ter menor capacidade de investimento e, consequentemente, de “investir em segurança”.

“Inevitavelmente irão ocorrer acidentes, independente do quanto se faça para prover proteção, com pouco podendo ser feito quando os que alvejam a mídia se utilizam de métodos cruéis e brutais para esmagar a busca jornalística. Entretanto, existem medidas que jornalistas e organizações midiáticas devem adotar para minimizar riscos” (Guia de Sobrevivência para Jornalistas, tradução livre com adaptações).

Equipamentos de blindagem

Os cuidados apontados no guia também estão referidos, de alguma forma, no Código Internacional de Práticas para Conduta Segura do Jornalismo (“International Code of Practice for the Safe Conduct of Journalism”). Informação e preparação, bem como treinamento específico, são itens básicos para qualquer prática segura do jornalismo em ambientes hostis. Adicionalmente, é preciso que os governos de regiões em conflito, bem como as empresas de comunicação que cobrem tais regiões, busquem ativamente proteger os “soldados da informação”. Os governos e suas respectivas autoridades devem facilitar e proteger os trabalhos jornalísticos em regiões conflagradas e as empresas do ramo precisam avaliar o mais criteriosamente possível o risco de seus profissionais e se é humanamente possível o exercício correspondente dentro de parâmetros mínimos necessários em termos de segurança.

No caso brasileiro, talvez seja conveniente e oportuno que as organizações federais de segurança pública contribuam para a informação e preparação dos jornalistas nacionais e estrangeiros. Uma iniciativa básica nesse sentido é prover parâmetros, caso, por exemplo, do sistema de classificação de equipamentos de blindagem corporal desenvolvido pelo órgão público norte-americano (“U.S. National Institute of Justice”) homólogo ao Ministério da Justiça e sua Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) no Brasil.

É preciso utilizar todos os recursos possíveis para evitar novas tragédias, sempre levando em conta que “não está exposto ao perigo quem, mesmo em segurança, permanece sempre em guarda” (Publilius Syrus, autor romano, século I AC).

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[George Felipe de Lima Dantas é professor, Brasília, DF]