Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Ganhou a extrema-direita reacionária evangélica

(Foto: Jeso Carneiro/Flickr)

A primeira e mais grave constatação que posso fazer diante dos resultados obtidos por Lula e Bolsonaro neste primeiro turno, é a da grave miopia da nossa esquerda diante do avanço dos evangélicos, hoje um movimento populista religioso de extrema-direita alimentado pela extrema-direita norte-americana, ao qual se agregou politicamente boa parte do protestantismo histórico, que chegou ao Brasil em meados do século XIX.

O PT, mal orientado quanto às relações a seguir com o populismo evangélico e preocupado em desfazer a imagem negativa propagada por certos pastores, cometeu diversos erros como o de facilitar a implantação, expansão, liberação de impostos e alvarás para igrejas e centros de reunião neopentecostais, esperando um retorno que afinal não houve. Exemplo mais gritante foi a presença da presidente Dilma, na inauguração em São Paulo do Templo de Salomão da Igreja Universal do chamado bispo Edir Macedo, que já havia implantado sua igreja em países africanos de língua portuguesa. 

Apesar de terem mantido boa convivência com os anos do governo petista, os principais e mais conhecidos líderes evangélicos passaram a uma franca oposição ao PT, logo após à queda de Dilma e participaram ativamente da campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018, do qual receberam numerosos cargos e apoios logo depois da eleição. Embora antes de ser candidato e depois de presidente eleito, Bolsonaro tivesse adotado posturas e feito declarações nada cristãs como defesa da tortura, dos generais ditadores e do uso de armas, esses mesmos líderes não fizeram e continuam não fazendo nenhuma contestação. 

Durante a atual campanha eleitoral, o grupo evangélico, hoje considerado como um terço da população, manteve em todas as sondagens seu apoio integral à candidatura Bolsonaro, revelando-se o mais fiel seguidor e apoiador do presidente.

Mas, afinal, como se poderia definir esse movimento evangélico, cujas igrejas acolhiam praticamente todo domingo, durante a celebração do chamado culto, em cidades diferentes, o presidente Bolsonaro acompanhado de sua esposa Michele?

A rigor, o evangelismo brasileiro, esse movimento religioso derivado do protestantismo, se transformou nos dias de hoje na grande base de apoio político ao presidente. Ainda recentemente, nos anos 1980, não chegavam nem a 10% da população, todas as tendências incluídas, mas se expandiram para 30-35% de membros ativos e formam o terço de base conservador e reacionário do governo Bolsonaro.

Talvez não seja excessivo se dizer que além de um movimento religioso, os evangélicos estão assumindo feições de um movimento político extremamente conservador, de origem estrangeira, cuja força principal é a de desmobilizar as classes pobres e populares, suas reivindicações e lutas sociais.

Por isso, embora exista ainda um segundo turno eleitoral, se possa dizer que, no primeiro turno, ganhou o extremismo reacionário, ganhou a extrema-direita reacionária evangélica.

Nossa esquerda, acostumada com as lutas contra o poder político da Igreja Católica, que exercia seu poder sobre o povo desde a colonização, com o controle da terra e implantação do escravagismo, não perdendo o controle nem com a Abolição, se desmobilizou nessa área diante da  transformação operada dentro da Igreja Católica e sua abertura conceitual para um socialismo cristianizado, para uma nova teologia libertária.

Uma tendência que se cristalizou e marcou o movimento social no Brasil a partir dos anos 60, construída sobre as cinzas das ideias sociais libertárias marxistas comunistas reprimidas pelo varguismo, toleradas alguns anos depois da vitória contra o nazifascismo, para serem de novo reprimidas.

Do fim da Segunda Guerra ao golpe de 1964, não houve muito espaço de liberdade para se fazer grandes reformas sociais. Mas foram lançadas as bases para as principais leis sociais, algumas já vindas do varguismo, que salvaram o Brasil de revoluções regionais e de uma fragmentação.

As artes tiveram também um grande papel na não fragmentação do Brasil – a música, teatro, cinema, a literatura ajudaram a manterem unidos os brasileiros na fase da industrialização.

Entretanto, enquanto o petismo, herdeiro dos movimentos sociais brasileiros, procedia a transformações sociais indolores, revalorizando os trabalhadores, procedendo a reformas sociais sem atritos, alguma coisa se preparava na surdina.

Nestes últimos anos, retornou com força o neocoronelismo do controle das terras pela posse das riquezas naturais do Brasil, alimentado pelo projeto gigantesco do agronegócio de se apropriar das ricas terras nativas ainda não exploradas para a exploração agrícola intensiva de produtos básicos destinados à exportação, num retorno modernizado e atualizado à ideologia e economia da época colonial.

Mas isso não seria possível num Brasil que ganhava espaço no mundo internacional, na ONU, na diplomacia. Era preciso urgente encontrar um agente desagregador que infectasse o país e restabelecesse o mesmo clima de domínio colonial.

Como? Que tipo de veneno poderia ser inoculado na pujante nação brasileira que já se destacava no cenário mundial? Uma droga capaz de ser consumida discretamente pelas camadas populares, torná-las dóceis, passíveis e controláveis.

Feitas as adaptações necessárias, os laboratórios sociais neocapitalistas norteamericanos produziram um novo veneno, o da Teologia da Dominação, baseada num releitura da Bíblia, uma mistura espúria e bem dosada de velho e novo Testamento, capaz de impedir os surtos de lutas por conquistas sociais na população pobre. Veneno sem cor e sem cheiro, ministrado semanalmente e discretamente nas escolas dominicais e lançado dos púlpitos das igrejas sobre os fiéis.

Em outros textos já declarei que não sou e nem pretendo ser um Cícero contra Catilina, mas o Brasil não será mais o mesmo se não for encontrado um antídoto contra esse veneno do evangelismo neocapitalista da extrema-direita norte americana,  inoculado pelo novos agentes do imperialismo em nosso país.

Será tarde demais? Talvez, mas é preciso reagir rápido, senão, além de nossa secessão e fim da nossa unidade política e territorial, será o fim de toda nossa cultura, de todo nosso acervo cultural e da nossa filosofia brasileira de vida.

Parem um instante, reanalisem os fatores determinantes da eclosão dos novos paradigmas sociais lançados pela extrema-direita bolsonarista evangélica. Onde estão as fontes e as bases desse movimento extremamente reacionário e desmobilizador?

Nosso tempo é curto, se você concorda, em todo ou em parte, repasse e alerte seus amigos. O perigo disso que chamo de  Teologia da Dominação é crescente. Implantado discretamente como embrião durante a ditadura militar, esse perigo está atingindo hoje sua maturidade, aliado ao neoliberalismo e à extrema-direita internacional.

Se não reagirmos, ele levará ao fim o Brasil que hoje conhecemos!

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro sujo da corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A rebelião romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.