Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Não fazer a transição do governo é o último blefe de Bolsonaro?

Lula venceu as eleições e começa a organizar o seu governo. (Foto: Brasil de Fato)

Como diziam os antigos editores da editoria de política nas redações das máquinas de escrever e das nuvens de fumaça dos cigarros: “Só com o tempo saberemos o que realmente aconteceu”. A frase é a que melhor descreve a passagem de comando do atual para o futuro governo do Brasil. Embora essa transição seja prevista em lei, só saberemos com o passar do tempo se o presidente Jair Bolsonaro (PL) fará, ou não, uma transição de boa qualidade para o seu sucessor eleito no último dia 30, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A passagem de governo é muito mais do que colocar a faixa presidencial no novo ocupante do cargo.

Ela começa algumas semanas antes, com a passagem da administração federal. Geralmente essa passagem é tranquila, porque existem os funcionários públicos federais de carreira que facilitam o trabalho. No caso do governo atual há um complicador. A coordenação dos departamentos nos ministérios, em especial da Saúde e da Educação, foi ocupada por militares (ativa, reserva e reformados) de várias patentes. No total foram 6 mil militares, a maioria pessoas sem preparo técnico para o cargo que exercem. A situação foi assim resumida por um sindicalista: “Está uma bagunça.” É sobre isso que vamos conversar.

Começo a conversa lembrando os colegas que pelo conhecemos sobre a maneira de agir de Bolsonaro ele vai complicar todo o processo de passagem do governo. Por quê? Simples, para permanecer nas manchetes nos jornais. Lembro que em 26 de agosto fiz o post Cargo de presidente viciou Bolsonaro em ser manchete nos jornais? Portanto, ele vai esticar a corda até o limite. No dia seguinte à vitória de Lula dois assuntos principais dominavam os noticiários, além da eleição. O primeiro deles era que o presidente não tinha ligado para o vencedor para cumprimentá-lo.

O segundo assunto era sobre grupos de caminhoneiros bolsonaristas que estavam trancando 70 pontos em rodovias espalhadas pelo Brasil, protestando contra a vitória de Lula. Lembro também que existia a temor de que no caso da derrota do presidente poderia se repetir no Brasil o que aconteceu nos Estados Unidos, em 2020. Na ocasião, o então presidente Donald Trump, que buscava a reeleição e foi derrotado pelo democrata Joe Biden, incentivou movimentos de extrema direita a invadirem o Capitólio (Congresso americano) para evitar que o seu adversário fosse declarado vencedor da eleição – há matérias na internet. Se Bolsonaro fizesse isso, arruinaria a vida parlamentar dos seus três filhos: Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador do Rio de Janeiro, e Eduardo, deputado federal por São Paulo.

Há um fato envolvido nessa questão da transição do governo que está passando batido e sobre o qual nós jornalistas precisamos refletir. Em 2018, quando Bolsonaro resolveu concorrer a presidente, nem ele mesmo acreditava que teria chances de ser eleito. Lembro que houve uma série de fatores que o elegeram, como o atentado contra vida dele, a prisão de Lula pelo então juiz da Operação Lava Jato Sergio Moro e uma onda anti-PT que tomou conta do país. A soma de todos esses fatores elegeu o então deputado federal pelo Rio de Janeiro que durante três décadas era considerado um parlamentar do baixo clero, como a imprensa chama a turma de deputados sem expressão na Câmara. Durante todo o seu governo, Bolsonaro usou todas as vantagens que o país oferece ao ocupante do cargo de presidente. Depois de 1º de janeiro, ele não terá mais nada disso.

Nem mesmo os jornalistas batendo na sua porta em busca de informações. Como se diz nas redações: a grama começará a crescer na porta dele. Essa situação não será digerida com facilidade pelo presidente. O que ele leva da Presidência para casa? Não serão apenas lembranças dos tempos que tinha do bom e do melhor a sua disposição. Mas a consolidação de ter sido líder de uma comunidade chamada bolsonaristas, que elegeram centenas de parlamentares (deputados e senadores) e governadores na última eleição. Nos próximos meses saberemos se ele soube preservar os seus seguidores.

Para arrematar a nossa conversa. Pela primeira vez em 30 anos Bolsonaro ficará sem fórum privilegiado. O que isso significa? Que todos os seus processos em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF) devem migrar para a primeira instância, onde as coisas andam mais rápidas. Mais uma coisa. Ele não tem um partido. Sempre pulou de partido em partido. Fora do governo, está só. A pergunta que temos que fazer é o que ele tem na mão para negociar o seu futuro. A eleição foi uma das mais apertadas da história do Brasil. Lula ganhou por 1,8% dos votos válidos, ao redor de 2 milhões e poucos votos.

A disputa acirrada entre Lula e Bolsonaro não tem a ver só com a preferência política dos eleitores. Também tem a ver com os bilhões de reais que o governo federal usou para ganhar a simpatia dos eleitores, como a PEC da Bondade. Essa história ainda não foi devidamente contada aos leitores. A bem da verdade é bom dizer que para nós jornalistas o governo de Bolsonaro deixou um grande estoque de histórias mal contadas que precisam ser devidamente esclarecidas. Não se surpreendam se tivermos pela frente um período de reportagens inéditas sobre a era do atual presidente. Principalmente na questão da destruição da Floresta Amazônica. Lembramos que milhões de reais foram ganhos pelo garimpo clandestino nas áreas indígenas e no contrabando de madeiras nobres ilegalmente cortadas na floresta. Ninguém vai morrer de tédio nas redações, podem apostar.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.