Thursday, 19 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

Relatório da CPI da Covid não pode ser coadjuvante nas eleições presidenciais

(Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

O jornalista que não leu deve ler o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado, a CPI da Covid. Porque esse documento é único no mundo e não pode ser coadjuvante na disputa eleitoral de outubro, principalmente para presidente da República. Essas páginas mostram as digitais dos responsáveis pelas mais de 600 mil mortes de brasileiros pelo vírus. Detalha o sofrimento das vítimas mortas por asfixia devido à falta de oxigênio nos hospitais de Manaus (AM) e do interior do Pará. Não tem como varrer para debaixo do tapete um assunto de tamanha envergadura. Mas estão tentando e vão conseguir se a imprensa não fizer o seu trabalho. Vou citar um exemplo. Quem lê, ouve ou assiste aos noticiários dos dias atuais percebe que três assuntos ocupam as manchetes. As articulações entre os partidos e candidatos para a disputa eleitoral. A campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus seguidores contra a vacinação das crianças liberadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). E o relatório do médico Hélio Angotti Neto, secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, colocando dúvidas sobre a eficiência das vacinas contra a Covid e defendendo o uso do Kit Covid, composto de remédios ineficientes contra o vírus, como a cloroquina.

Dois desses assuntos já eram para estar fora da pauta dos noticiários. Mas não só continuam na pauta como demonstram fôlego para ir longe. Trata-se da questão das vacinas para as crianças e o Kit Covid. O relatório da CPI da Covid indiciou o presidente Bolsonaro e os seus três filhos parlamentares: Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador do Rio de Janeiro, e Eduardo, deputado federal por São Paulo. E o ex-ministro da Saúde e general da ativa do Exército Eduardo Pazuello, o atual ocupante do cargo, o médico Marcelo Queiroga, além de mais 74 pessoas por vários crimes, como genocídio, prevaricação, crimes contra humanidade etc. A essas alturas dos acontecimentos era para esse pessoal estar se defendendo das acusações. Mas não estão. Muito pelo contrário. Continuam praticando os mesmos crimes contra a saúde pública dos brasileiros. Por que isso está acontecendo? Por que quem deveria tocar os processos, como o procurador-geral da República, Augusto Aras, está fazendo corpo mole? Até as pedras das ruas sabiam que isso aconteceria. A única maneira de fazer esse relatório andar é a imprensa continuar batendo no assunto. Nós temos os crimes que foram praticados, como foram praticados e quem os praticou nas páginas do relatório. O que falta para torná-lo pauta diária dos noticiários? Os repórteres, editores e comentaristas políticos se convencerem que estamos frente a uma situação que jamais os brasileiros tinham vivido. A pandemia mudou tudo no país. Muitos dos mais de 600 mil mortos faleceram porque houve negligência das autoridades. A economia foi colocada de joelhos. A soma de tudo isso é um monte de motivos para tornar o assunto notícia diária.

O comportamento do governo federal na pandemia não poderá se repetir, seja lá quem for eleito. Não vou discutir aqui a questão da reeleição ou não do atual presidente. O que estou discutindo é o estabelecimento de diretrizes para os futuros presidentes do Brasil se comportarem nas emergências sanitárias. A população brasileira não pode mais ficar à mercê de autoridades negacionistas em relação à ciência. Um governante tem o direito de ser um negacionista. Mas não tem o direito de transformar a sua crença pessoal em política de governo, passando por cima das leis do país. Isso é demonstrado nas páginas do relatório da CPI da Covid. No início da nossa conversa defendi a ideia de todos os jornalistas precisarem ler esse relatório. Não é a primeira vez que defendo essa ideia. E não vai ser a última. Aprendi na lida de repórter que, numa redação de jornal, se a gente sempre repetir a mesma recomendação, ela acaba virando matéria. Lembro o seguinte aos meus colegas. Se não existisse esse relatório, nós jornalistas estaríamos presos no meio do fogo cruzado entre os negacionistas e os que acreditam na ciência. A CPI resolveu esse assunto. De maneira transparente e dentro da lei investigou e esclareceu o caso. O que vai acontecer se o relatório for apenas um coadjuvante nas eleições? Já disse e vou repetir. O Brasil está entre os três países do mundo em que o vírus mais matou gente. Lembram das covas coletivas em Manaus? Até agora o Brasil é o único país onde houve uma CPI para investigar a responsabilidade pelo que aconteceu. Tudo isso significa que no final da história alguém vai escrever um livro sobre a pandemia causada pela Covid no mundo e certamente o Brasil terá um lugar de destaque. A imprensa brasileira até agora tem prestado um relevante serviço para os brasileiros na cobertura da emergência sanitária. Tornar esse relatório pauta nos debates da campanha eleitoral é fundamental para se fechar a cobertura com chave de ouro.

Conversei sobre o que estou escrevendo com vários colegas espalhados pelo Brasil que conheci na época dos conflitos agrários. Um deles me questionou se o fato de ser ano eleitoral não acabou tirando o relatório da pauta dos noticiários para evitar de serem acusados de estarem perseguindo o presidente da República, que é o principal acusado pela negligência oficial no tratamento da pandemia. Sinceramente, não vejo a situação por esse ângulo. O fato é que muitas das pessoas que morreram poderiam estar vivas se o governo federal tivesse feito a coisa certa. Não fez. E além de não fazer ainda transformou o negacionismo em política de governo. Vejo na disputa eleitoral uma ótima oportunidade de se debater o assunto. A nossa função de repórter é informar os nossos leitores. Em quem eles vão votar é problemas deles.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, em São Paulo.