Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1376

Bolsonaro usará o bom momento de Flávio para ressuscitar a pauta da anistia?

(Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)

Há uma espécie de “bolsa de apostas” entre os velhos repórteres estradeiros sobre qual será o tema que irá crescer nos debates das eleições presidenciais entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, candidato à reeleição, e o seu até agora principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Flávio substitui o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos por ter comandado uma organização criminosa que tentou dar um golpe de estado. Ocupa uma cela na “Papudinha”, uma unidade prisional que fica no 19º Batalhão de Polícia Militar, dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (DF). A minha aposta é que os debates começarão pelas articulações para a derrubada do veto integral de Lula ao projeto da dosimetria, aprovado no ano passado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. O PL da Dosimetria, como é conhecido, reduz as penas aplicadas aos golpistas e é uma alternativa ao PL da Anistia, que concedia perdão aos participantes dos atos de 8 de janeiro de 2023. Mas não resolve o problema do ex-presidente, que não busca a redução de pena, mas a derrubada da sua condenação através de uma anistia ampla, geral e irrestrita que o torne elegível novamente. Para que isso aconteça é preciso eleger o filho Flávio presidente da República e ter maioria na Câmara e no Senado. O primeiro turno das eleições acontecerá no dia 4 de outubro. O segundo turno será no dia 25 de outubro.

Lembro o seguinte. Bolsonaro aceitou o PL da Dosimetria porque não tinha nenhum trunfo na mão. Condenado a 27 anos e com uma fila de processos em andamento na Justiça por outros crimes que cometeu contra a democracia e a saúde pública durante a pandemia de Covid, ele só tinha a seu favor o prestígio político que, nas eleições de 2018 e 2022, elegeu dezenas de deputados, senadores e governadores. Entre os que disputavam o apoio do ex-presidente estavam vários governadores, entre eles o de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, que foi seu ministro e tem o maior orgulho de ser seu afilhado político. O ex-presidente foi pressionado a escolher o governador paulista como seu candidato à Presidência pelos aliados do Centrão inseridos nas fileiras dos “bolsonaristas raiz”. Apostavam que Tarcísio tinha melhores condições de vencer Lula. Contrariando a todos, Bolsonaro indicou como seu substituto o senador Flávio. No dia seguinte, começou a articulação entre os seguidores do ex-presidente para trocar Flávio por Tarcísio usando como argumento os resultados das pesquisas eleitorais, que todos acreditavam que seriam desfavoráveis ao senador. Não foram. Elas consagraram a decisão de Bolsonaro de indicar o seu filho. E colocaram o ex-presidente de volta à disputa política. Agora é o seguinte. Ao ressuscitar a pauta da anistia ampla, geral e irrestrita, Bolsonaro corre o risco de detonar a candidatura de Flávio. Por quê? Primeiro, porque 64% dos brasileiros, segundo pesquisas de opinião, são contra a anistia. Segundo, porque, ao priorizar uma única pauta, facilitará a vida do governo, que terá todo o espaço do mundo para vender os seus feitos.

Também facilitaria o trabalho dos que lutam contra a polarização entre Lula e Flávio e pregam um candidato de centro. Como é o caso do presidente do PSD, Gilberto Kassab, 65 anos, que fez um arranjo político com a intenção de romper essa polarização. O arranjo consiste em lançar o nome de três governadores, que são bem avaliados pelo seu desempenho, para disputar a indicação do partido como candidato a presidente da República. São eles: Eduardo Leite, 40 anos, do Rio Grande do Sul, Ratinho Jr., 44 anos, do Paraná, e Ronaldo Caiado, 76 anos, de Goiás. Ganha quem estiver melhor nas pesquisas de voto. E o vencedor será apoiado pelos outros dois. Tenho dito que não considero Bolsonaro um gênio da articulação política, muito menos em estratégias de campanha. Mas é dono de uma imensa capacidade de agir por “intuição” e acabar virando o jogo. Lembro que, durante o seu governo (2019 – 2022), ele conseguiu sobreviver a todas as armadilhas postas no seu caminho por aliados e adversários. E não foram poucas. No final, demitiu todo mundo, incluindo generais que ocupavam postos de ministro, e conduziu o governo ao seu modo. O modo Bolsonaro de governar era usar as bravatas como uma espécie de “balão de ensaio”. Esperava a repercussão na imprensa para agir. Por conta disso, eu me perfilava entre os que não acreditavam que tentaria dar um golpe de estado porque tinha muito a perder. Toda a história da tentativa de golpe é contada nas 884 páginas do relatório final da Polícia Federal (PF). Aqui há uma questão à qual precisamos ficar atentos. O senador Flávio concordará em transformar a sua campanha a presidente em uma espécie de plebiscito sobre a anistia do seu pai? Se isso acontecer, quem dará a palavra final será outro filho do ex-presidente, o ex-deputado Eduardo, 41 anos (PL-SP), que se exilou nos Estados Unidos. Foi dele a ideia de que o pai passasse o seu prestígio político para Flávio, com o objetivo de mantê-lo na família. Na ocasião, Eduardo disse que “mesmo perdendo as eleições, a família sairia vencedora porque preservaria o legado político do pai”.

Para arrematar a conversa. No tempo em que o Brasil era um país rural era comum que algumas famílias dominassem a política municipal, estadual e nacional. Na década de 80, quando andei pelo interior de todos os estados do Nordeste fazendo reportagens, ainda encontrei muitos locais onde existia o tal “voto de cabresto”. O Brasil, nos dias atuais, é um país que se perfila entre as maiores economias do mundo. A maneira de fazer política mudou. O poder dos “chefes políticos” foi diluído pelas novas tecnologias. A fidelidade às ideias de Bolsonaro é resultado da sua capacidade de manejar o discurso da extrema direita, que é basicamente o mesmo usado na Alemanha e na Itália nos anos 30 do século passado. Como os jornalistas dizem nas mesas dos botecos: é simples assim.

Publicado originalmente em “Histórias mal Contadas”

***

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.