Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

A América Latina e as eleições presidenciais nos Estados Unidos

No cenário da eleição presidencial nos Estados Unidos, Jean-Jacques Kourliandsky, diretor do Observatório da América Latina da Fundação Jean-Jaurès, faz um balanço da política diplomática de Donald Trump em relação à América Latina, de uma política unilateral e, para dizer o mínimo, “rude”.

O analista norte-americano Joseph Nye [1], comentou há alguns meses que, independentemente de quem ganhasse a eleição presidencial nos Estados Unidos, o eleito, em 3 de novembro de 2020, teria de administrar um legado diplomático que rompeu com as formas e os estilos que regulam as relações cooperativas ou contenciosas entre as Américas e internacionalmente.

Foto: Casa Branca/Divulgação.

Muitos latino-americanos estavam “cruzando os dedos” para que Donald Trump não fosse reeleito. Pela primeira vez, a ideologia parece desempenhar um papel menor. Os preocupados, assim como os indignados, eram tanto de direita quanto de esquerda. O editorial publicado por um site econômico chileno é, desse ponto de vista, revelador de um clima dividido: “Nossa mídia considera que para os Estados Unidos, para a América Latina e para o mundo é melhor que Trump seja derrotado […]. Apoiamos Joe Biden com o desejo urgente de que ele conserte todos os danos que foram feitos”. [2]

O comentário que surge de círculos de negócios é à primeira vista desconcertante. De apoio incondicional aos Estados Unidos, esses círculos costumam ser indiferentes às circunstâncias eleitorais, à personalidade dos dirigentes americanos, e privilegiam, antes, convergências de interesses e alianças contra adversários comuns. Sem conhecer as estatísticas sobre o assunto, pode-se observar, desde o início do mandato de Donald Trump, um desconforto latino-americano generalizado, tanto com a leitura da imprensa em geral quanto com as diferentes atitudes de partidários ou dos governos nessa região.

Às vozes estruturalmente hostis da extrema esquerda anti-imperialista juntaram-se as dos liberais escanteados e decepcionados e, por fim, aquelas dos moderados, desestabilizados pela indiferença, com certo ar de desprezo, que lhes foi dedicada pelo inquilino da Casa Branca durante quatro anos, de 2016 a 2020. Seis ex-chefes de estado hispano-americanos, centristas na política, liberais na economia, ideologicamente ocidentais, amigos tradicionais dos Estados Unidos [3], divulgaram em 26 de agosto de 2020 uma carta de protesto, que indicia o mal-estar, ampliado por Donald Trump, entre o Norte e o Sul do continente.

Esse mal-estar e esses senões de latino-americanos, com a aproximação das eleições presidenciais norte-americanas, têm razão de ser? O que podemos dizer sobre a política de Donald Trump nos EUA em relação aos seus vizinhos do Sul, de 2016 a 2020? Quais foram as orientações da política de Donald Trump para a América Latina? A diplomacia norte-americana sob a batuta de Trump, no que diz respeito a ações concretas, assumiu um perfil distinto em relação à América Latina do que aquele assumido em relação a outras regiões do mundo?

I – MÉXICO: BANCO DE TESTES DO SOFTWARE “TRUMPISTA”

Como tantas vezes, a América Latina, no todo ou em parte, foi quem “suportou o peso” da diplomacia agressiva que foi posteriormente universalizada. Henry Kissinger fez uma observação histórica: “O Hemisfério Ocidental constitui o microcosmo dos desafios internacionais enfrentados pelos Estados Unidos”. [4]

As questões internacionais ocupam um lugar menor nas questões eleitorais nos Estados Unidos, como ocorre em qualquer parte do mundo. Nas campanhas eleitorais norte-americanas, a América Latina não é, quando alguma questão a esse respeito aparece, um ponto central de debate. Essa tradição, porém, foi prejudicada pelo candidato Donald Trump que, em 2015 e 2016, construiu sua campanha eleitoral a partir de seu discurso de rejeição virulenta, não à América Latina como um todo, mas ao México, em particular. A postura que adotou em seu quadriênio confirmou esse tom inicial que se estendeu, muito além do México, para a América Latina e o resto do mundo, confirmando assim a tese de Henry Kissinger.

O credo diplomático de Donald Trump, aplicado pela primeira vez ao México, é baseado em princípios gerais que precisam ser esclarecidos. Qualquer política, interna ou externa, responde a um modelo, a um software, tradicionalmente resumido na forma de um programa. Os interesses políticos se misturam a outras considerações, como as de ordem moral. Não importando quem fosse o presidente, conforme nos lembra Henry Kissinger, nem qual fosse sua filiação partidária, tradicionalmente todos eles sustentavam a afirmação nacional dos Estados Unidos com um grande projeto.

Donald Trump rompeu com essa prática. Ele limitou sua ambição política àquela que era a sua, em uma vida profissional anterior, como incorporador imobiliário. Ele defendeu sem verniz, de modo rude e grosseiro, os interesses materiais, quer sejam os do seu país, assim como ele os entende, quer sejam os dos seus interesses eleitorais. Suas raras propostas e iniciativas foram as de um presidente lutando em um mundo governado pela lei do mais forte. Um roteiro simples, “presentista” e nacionalista, sem a necessidade de grandes discursos, análises acadêmicas e uma visão mais ou menos de longo prazo, foi o que caracterizou suas ações, resumidas emblematicamente em seus slogans: “A América, primeiro” e “Tornar a América grandiosa novamente” [5]. Ele se comportou, sem saber, “à maneira do típico fidalgo burguês pedante”, tal como também assinalou Henry Kissinger: “Os Estados Unidos precisariam de uma política externa?”. [6]

Este roteiro de Trump pegou os observadores americanos e estrangeiros desprevenidos. Eles tentaram relacionar a diplomacia de Donald Trump com a de seus antecessores distantes, Andrew Jackson e Theodore Roosevelt [7], e encontrar nela certa coerência, entendê-la como uma diplomacia na qual se associaria nacionalismo, isolacionismo e intervencionismo ocasional, antes de admitirem a necessidade de “ir além das raízes históricas. Donald Trump não tem doutrina [mas antes] um método empresarial transacional de testar a resistência do interlocutor ao limite, a fim de obter a maior vantagem possível” [8]. “A referência ao Jacksonismo”, a mais recorrente, “serve como um lembrete útil do retorno do nacionalismo americano, mas não diz mais nada além disso” [9]. “Hoje em dia […] não é mais em nome de um universalismo messiânico que se pretende agir, mas simplesmente em nome de interesses nacionais”. [10]

Tudo isso foi exposto e aplicado desde os primeiros dias de sua campanha, tendo o México como bode expiatório da desqualificação estadunidense. Em 16 de junho de 2015, Donald Trump abriu sua campanha apresentando este país como o portador de todos os males que erodiram a América. Um muro, disse e escreveu, deve proteger os Estados Unidos do risco mexicano: risco à saúde — migrantes deste país portadores de doenças e narcóticos —, risco à segurança — essas pessoas são estupradores em potencial —, risco ao emprego — devido aos deslocamentos de empresas, incentivados por um acordo comercial que destrói o trabalho americano, NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) [11]. A mensagem foi expressa sem rodeios às autoridades mexicanas desde os primeiros dias de sua presidência [12]. Jogando com a assimetria de poder, Donald Trump foi excessivamente rude no trato diplomático com seu “homólogo” asteca, Enrique Peña Nieto. Ao anunciar, quase publicamente, que o próprio México financiaria esse muro na fronteira com os Estados Unidos, Enrique Peña Nieto foi obrigado a suspender uma viagem a Washington, prevista para 27 de janeiro de 2017, de modo a sinalizar seu descontentamento e com isso “acertar as contas” nesse conflito, segundo a etiqueta diplomática bilateral “clássica”.

Esse episódio de ação e reação bilaterais, com vistas à restituição de um certo equilíbrio de poder, remeteu aos métodos de resolver disputas de outrora. A imprevisibilidade deste ato de Donald Trump surpreendeu inclusive Enrique Peña Nieto, formado em direito e administração e advogado empresarial, admirador dos valores da democracia liberal e de livre comércio norte-americana.

Esta primeira manifestação da diplomacia “trumpista” teve o efeito de desmobilizar diplomatas profissionais do Departamento de Estado, segundo ex-colaboradores dos presidentes Bush, pai e filho. Thomas Shannon, subsecretário de Estado para Assuntos Hemisféricos (Interamericanos), John Ferley, embaixador no Panamá, Roberta Jacobson, embaixadora no México e Peter Mulrean, embaixador no Haiti, “jogaram a toalha” e se demitiram em 2018 [13]. Esse fenômeno produziu baixas muito além desse grupo que atuava no “Hemisfério Ocidental”, o que foi então qualificado por alguns pesquisadores como exílio das elites administrativas. [14]

II – EXTENSÃO DO UNILATERALISMO

Os seguintes episódios confirmaram o ato I, mexicano, do mandato de Trump, a saber:

  1. Os Estados Unidos não têm amigos, exceto aqueles que aceitam seus desejos. Na melhor das hipóteses, eles “dão alguma bola” para aqueles que integrarem a cultura da “submissão voluntária”. [15]
  2. Os tratados multilaterais não têm valor particular. O que importa é a relação bilateral de Washington, a única que permite que os interesses norte-americanos sejam levados em consideração.
  3. Os últimos meses do mandato de Donald Trump foram marcados por uma mudança em direção ao multilateralismo em pirâmide, com os Estados Unidos atuando como um líder do bando para conter a presença chinesa.
  4. Os combatentes da resistência, dissidentes ou recalcitrantes têm sido objeto de advertências seguidas de sanções diplomáticas, econômicas e financeiras.

1. Donald Trump foi rápido em apontar que não tinha amigos e, ao contrário de seus predecessores, democratas e republicanos, deixou claro que não atribuía particular importância à ideologia. Os adversários tradicionais permaneceram os mesmos e a adversidade se acentuou em relação aos países membros da ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, notadamente com a Bolívia, Cuba, Nicarágua e Venezuela). Se a ideologia foi invocada e esses países denunciados como liberticidas, até mesmo como comunistas ou socialistas, foi mais para demonizar valendo-se da conveniência lexical. Foi a resistência a qualquer forma de suserania dos Estados Unidos que foi sancionada, não suas supostas referências filosóficas.

Basta notar que os “amigos” dos governos, amigos das “liberdades”, foram de forma reveladora, como os da ALBA, enquadrados de forma bastante contundente segundo a ordem norte-americana, e não escaparam de ameaças quando o interesse dos Estados Unidos, como Donald Trump o entende, foi questionado. Argentina, Brasil e México foram ‘alertados’ em um tweet, franco e rude, em 5 de abril de 2019, do risco de reduzir suas exportações para os Estados Unidos, devido à imposição norte-americana de um forte aumento de tarifas: “O México deve acabar com os ilegais [centro-americanos], […] Nosso país está CHEIO! Caso contrário, irei aplicar sanções financeiras […] de até 25%”.
Os países da América Central — Guatemala, Honduras, El Salvador — foram ameaçados de formas semelhantes. O objetivo era obrigá-los a regular, de modo a eliminá-los, os fluxos migratórios em direção aos Estados Unidos. O presidente colombiano Ivan Duque, formado nos Estados Unidos, amigo de Washington tal como o presidente mexicano Enrique Peña Nieto, se dispôs a sinalizar sua defesa dos valores da liberdade política e comercial supostamente visando a consolidar o vínculo com os Estados Unidos, não ganhou nenhum benefício com esse gesto. Ao contrário, ele foi rapidamente lembrado, por Donald Trump, de uma lista de compromissos que eram prioritariamente do interesse de Washington. Podemos resumir essas exigências nos seguintes termos: retirar o acordo de paz assinado em 2016 por Bogotá com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) da agenda bilateral prioritária; colocar o combate contra o cultivo e o tráfico de drogas em “pole position”, recomendação acompanhada da urgente exigência de retomar a fumigação aérea com glifosato; e de participar ativamente no isolamento político da Venezuela. De modo a ficarem bem claras e serem bem entendidas esses compromissos que a Colômbia deveria cumprir, os vistos de colombianos proeminentes que desejavam viajar aos Estados Unidos foram emitidos “à la carte”. Assim, três juízes do Tribunal Constitucional colombiano foram privados deste documento por se negarem a modificar as disposições dos acordos de paz com as FARC, em particular aquelas que facilitam o uso do glifosato e aquelas relativas às condições de extradição para os Estados Unidos.
Donald Trump não visitou nenhum país latino-americano, exceto a Argentina, quando então participou de uma reunião do G20 em novembro de 2018.

As instruções, mais do que informações, foram comunicadas aos vários chefes de estado que visitaram os Estados Unidos, individualmente, mas também em grupos de convidados, como foi em 18 de setembro de 2017 em um grande hotel em Nova Iorque. Nesse dia, os presidentes Michel Temer, brasileiro, o colombiano, Juan Manuel Santos, o panamenho Juan Carlos Varela, e a vice-presidente argentina, Gabriella Michetti, foram convidados a tomar nota de uma série de ‘recomendações’ a respeito da Venezuela e de “seu ditador socialista”, no âmbito da declaração de fundação do “Grupo de Lima” [16]. Donald Trump recebeu cinco presidentes caribenhos em uma de suas casas de férias na Flórida, em março de 2019, para conversar com eles sobre “paz e democracia na Venezuela” [17]. Cabia então aos membros do Executivo, em particular ao secretário de Estado, esclarecer em campo os tweets e outras expectativas presidenciais.

O chefe de Estado do Brasil, Jair Bolsonaro, que espontaneamente prometeu lealdade e abriu o país ao capital dos EUA, foi verbalmente “bem tratado”. O México e os países da América Central que cederam à pressão e concordaram em construir um muro virtual e policial para bloquear os fluxos migratórios para os Estados Unidos foram cumprimentados por Donald Trump. A partir de 1º de dezembro de 2018, o Presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, no dia em que assumiu o cargo, consultou seus colegas do Triângulo do Norte [18]. Um programa de apoio econômico foi posto em prática para suprimir, ou tentar eliminar, os meios de emigração para os EUA dos cidadãos centro-americanos. O México concordou em hospedar requerentes de asilo nos Estados Unidos em seu território, assim como avaliar suas demandas e rever seus procedimentos de outorga de asilo, e instalou grande parte de sua guarda nacional nas fronteiras norte e sul para fechar o acesso de seu território nacional aos migrantes guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos que pudessem tentar atravessar para os EUA. A entrada no México de várias dezenas de milhares deles também foi rejeitada pela polícia mexicana em 22 de abril de 2019. [19]

2. Os primeiros anos do mandato de Donald Trump foram marcados pelo desejo de desconstruir acordos multilaterais que ligassem os Estados Unidos aos seus vizinhos do Sul. Ao assumir o cargo, denunciou a participação de seu país no tratado TPP (Acordo de Associação Transpacífico) e ameaçou imediatamente o Canadá e o México com a renúncia ao NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte). Ottawa e Cidade do México então aceitaram o princípio de uma renegociação assimétrica, e assim o NAFTA foi, ao final, submetido a um outro nome e com um conteúdo mais favorável aos interesses dos Estados Unidos. [20]

Em 8 de agosto de 2017, a maioria dos países latino-americanos formou uma espécie de “Santa Aliança”, em Lima no Peru, a fim de coordenar suas pressões sobre a Venezuela, todas elas afinadas com os interesses dos Estados Unidos e fortemente incentivadas por Donald Trump. Os Estados Unidos, no entanto, não aderiram a esse grupo, o que os teria colocado em pé de igualdade com os outros membros. Esta construção intergovernamental está ligada por uma antipatia militante em relação às autoridades venezuelanas. Conhecida como “Grupo de Lima” [21], ela desfez as organizações que apoiavam a autonomia regional, criadas sem os Estados Unidos: a UNASUL (União dos Estados da América do Sul) praticamente desapareceu. A sua sede foi devolvida em 2018 ao país anfitrião, o Equador; a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) foram enfraquecidas; o Mercosul (Mercado Comum do Sul) foi colocado “em banho-maria”.

A reativação do bloqueio unilateral em relação à Cuba, desde os primeiros momentos do mandato trumpista, deu uma dimensão mais universal à rejeição do multilateralismo. A decisão de aplicar, na totalidade, a lei denominada Helms-Burton e, por conseguinte, o seu Título III [22], teve, com efeito, repercussões nos investidores internacionais.

3. A ascensão da presença chinesa marcou uma inflexão diplomática. Os Estados Unidos passaram a se interessar mais pelas instituições intergovernamentais da região, a fim de assumirem o controle e, assim, coordenarem com mais eficiência as medidas de contenção que atendam às expectativas e às necessidades dos Estados Unidos. Sucessivamente, várias instituições coletivas interamericanas caíram nas mãos de Washington em 2020, a OEA (Organização dos Estados Americanos), o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e a CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos).

O Grupo de Lima, por sua vez, foi instrumentalizado para atuar em conjunto com Washington no âmbito das Nações Unidas, tal como a União Europeia, que seguiu o movimento e acompanhou os Estados Unidos e o Grupo de Lima. Os países do Grupo de Lima, na sequência dos Estados Unidos, suspenderam, em 28 de maio de 2019, a sua participação nos trabalhos da Conferência sobre o Desarmamento, uma vez que a presidência deste fórum seria exercida pela Venezuela. Vários deles apoiaram a política dos Estados Unidos no Oriente Próximo e no Oriente Médio – e mais especificamente no que diz respeito ao Irã – incluindo os países do Triângulo do Norte na América Central, o Brasil e o Paraguai. A Guatemala transferiu sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém e, juntamente com Honduras, votou nas Nações Unidas em 21 de dezembro de 2017 a favor do reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel. Seis Estados se abstiveram: Argentina, Haiti, México, Panamá, Paraguai e República Dominicana. A Colômbia e El Salvador não participaram da votação.

4. As dissidências foram diretamente contestadas, com todos os tipos de argumentos, alguns dos quais retirados das caixas de ferramentas do mundo de anteontem, a saber, o anticomunismo e o perigo do coletivismo. “O discurso, […] a doutrina latino-americana de Donald Trump […] é algo próximo da Guerra Fria em bis, […] a sanção tem primazia sobre a diplomacia” [23]. Nota-se que John Bolton, conselheiro de segurança nacional, que havia mencionado, em abril de 2019, a necessidade de reativação da doutrina Monroe para dar embasamento teórico e ideológico à rejeição da presença chinesa, e em menor grau russa, na América Latina, teve de retornar aos seus estudos. O lema “A América primeiro”, de Donald Trump, bastava-se a si própria.

A Venezuela, principal adversário, foi chamada a mudar de aliados e de política interna, dadas as mensagens acompanhadas de um aumento do poder das sanções, destinadas a obrigar as decisões das autoridades venezuelanas. Já comprovado pela má governança e pela queda dos preços do petróleo, o país, privado de acesso ao crédito, ao dólar e aos seus clientes ocidentais, está à beira da asfixia. Os países do Grupo de Lima acompanharam as medidas de isolamento diplomático e de sanções econômicas decididas por Washington e retiraram do governo de Caracas a sua representação no sistema da OEA para dá-la ao presidente do parlamento venezuelano, um dos líderes da oposição, Juan Guaidó. Em 23 de fevereiro de 2019, vários chefes de Estado viajaram à Colômbia para assistir, sob o respaldo de uma operação humanitária, uma tentativa de golpe na Venezuela.

Observa-se que, apesar de algumas fanfarronices verbais direcionadas à Venezuela e uma implementação de guardas nacionais na fronteira mexicana, Donald Trump em nenhum momento considerou o uso de militares para derrubar um governo considerado hostil, ou para forçar uma tomada de decisão de acordo com as expectativas de Washington. Alguns gestos puderam ser feitos, mais simbólicos do que militarmente significativos, como a inclusão do Brasil no grupo dos países aliados fora da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, em 8 de maio de 2019. Esta decisão se traduziu, para o Brasil, mais em uma perda de soberania, do que em uma cooperação de ordem estratégica e de segurança. A presença da NASA na base aeroespacial brasileira de Alcântara foi reforçada com este anúncio. Isso também orienta a cooperação em matéria de equipamentos militares para os Estados Unidos.

III – LATINO-AMERICANOS EM PANDEMIAS “DIGESTIVAS”

Será que a posição dos Estados Unidos em 2020 é melhor do que aquela ocupada em 2017 no Hemisfério Ocidental?

Donald Trump conseguiu, sem dúvida, alguns êxitos. Ele forçou os centro-americanos e os mexicanos, com a força de suas polícias e de seus exércitos, a obrigarem os migrantes a não atravessarem a fronteira dos Estados Unidos. O muro não foi construído nem pago pelo México, mas é muito real. A guarda nacional criada pelo presidente Andrés Manuel Lopez Obrador (AMLO) para proteger o país fez essencialmente um serviço de polícia anti-migração nas fronteiras norte e sul. AMLO, que fez apenas uma visita ao exterior, a Washington, foi calorosamente felicitado por Donald Trump.

Comercialmente, Donald Trump obteve uma revisão do tratado de livre comércio com seus vizinhos do norte e do sul, Canadá e México. Ele reajustou as trocas comerciais com as principais economias sob uma base bilateral assimétrica. Ele conduziu a maioria dos governos a seguir sua cruzada global anti-China, isolando a Venezuela, uma cruzada que lhe permitiu assegurar o pleno controle das instituições multilaterais pan-americanas.

No entanto, ele tentou forçar ambas as partes de forma brutal e sem levar em conta a capacidade de digerir os seus desejos. Seus melhores “amigos”, Brasil e Colômbia, rejeitaram qualquer aventura militar na Venezuela, por razões relacionadas à natureza incerta de tal possibilidade e devido ao seu custo. As pressões econômicas anti-chinesas encontraram seus limites, na medida em que Pequim é: 1) um grande importador de produtos primários latino-americanos, 2) um fornecedor de equilíbrio tecnológico, particularmente com Huawei [24], 3) uma investidora e uma credora cada vez mais importante; e também na medida em que a China soube se tornar atrativa para ajudar a superar a crise pandêmica, a ponto de alguns, como a Argentina, a Nicarágua e o Panamá, poderem integrar a plataforma chinesa da “Rota da Seda”[25].

Esse discurso do método, sem consideração por ninguém, por fim, desestabilizou os melhores amigos dos Estados Unidos, antes de provocar um distanciamento cada vez mais acentuado, em especial após as bem-sucedidas OPAs – Organizações Pan-americanas da Saúde, de Donald Trump sobre as instituições pan-americanas.

Os governos de direita, sempre maioria, estão preocupados com esses encontros impossíveis com Washington, enquanto a crise multiforme do coronavírus amplifica os descontentamentos sociais. Tudo isso tem impactos eleitorais. Depois da Argentina e do México, a Bolívia recuperou suas chances de retomar a fórmula progressista contestatória e nacional.

Esses descontentamentos cada vez menos controlados estão presentes em grande parte do mundo, que também teve de enfrentar a diplomacia de choque, inicialmente testada com o México. A China pôde se beneficiar com isso. A Europa também deu a impressão de buscar uma ou mais alternativas de mesma inspiração que aquelas observadas nos últimos meses na América Latina.

Em 20 de janeiro de 2021, o futuro presidente dos Estados Unidos vai ter que lidar com uma região e um mundo em crescente indisposição e confusão, em parte resultante dos últimos tweets diplomáticos cada vez menos bem aceitos na América Latina e no resto do mundo. O futuro presidente dos Estados Unidos, tal como assinala o cientista político argentino Juan Gabriel Tokatlian, assegurará a defesa dos interesses do seu país e sua presença na América Latina, aplicando sem saber o que o professor argentino qualifica de “Doutrina Troilo”, inspirada num tango deste famoso cantor (“Alguém disse uma vez que eu tinha saído do bairro. Quando? Mas quando? Ainda estou chegando [26]”). Washington, conclui o sociólogo, “não está pronto para deixar a América Latina [27]”.

Texto publicado originalmente em francês, em 26 de outubro de 2020, pouco antes das eleições presidenciais norte americanas, na seção ‘Internacional’ da Fondation Jean Jaurès – Paris – França, com o título original “L’Amérique Latine et l’élection présidentielle aux États-Unis”. Tradução de Denise Aparecida de Paulo Ribeiro Leppos e Allice Toledo Lima da Silveira, revisão de Luzmara Curcino e Pedro Varoni.

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É Formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros livros, de “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014).

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Notas:

1. Joseph S. Nye. “Trump y la inflexión de la política mundial” [Trump e a inflexão na política mundial], El País, Madri, 19 de set. de 2020.
2. Jornal AmericaEconomia, publicado em 4 de set. de 2020.
3. Fernando Henrique Cardoso (Brasil), Felipe Gonzalez (Espanha), Ricardo Lagos (Chile), Julio Sanguinetti (Uruguai), Juan Manuel Santos (Colômbia), Ernesto Zedillo (México).
4. Henry Kissinger, “Does America need a foreign policy”, Londres, Simon & Schuster, 2001, traduzido para o português para “Precisará a América de uma política externa: uma diplomacia para o século XXI”, pela editora Gradiva, em 2003.
5. Donald Trump. “Great again: How to fix our crippled America” [Grande novamente: como consertar nossa América combalida]. Nova Iorque: Simon & Schuster, 2015.
6. Henry Kissinger, op. cit.
7. Andrew Jackson, presidente dos Estados Unidos de 1828 a 1837; Theodore Roosevelt, presidente de 1901 a 1909.
8. Michael Korinman. Les leçons de Donald Trump [As lições de Donald Trump]. Paris: L’Esprit du Temps, 2017.
9. Maya Kandel. La politique étrangère de l’administration Trump [A política estrangeira da gestão Trump]. Revista Questions internationales, n. 98, julho-agosto de 2019.
10. Bertrand Badie, Michel Foucher. Vers un monde néo-national [Em direção a um mundo neo-nacional]. Paris: CNRS Éditions, 2017.
11. Michel Korinman, op. cit.
12. Donald Trump assumiu suas funções presidenciais em 20 de janeiro de 2017.
13. Jean Jacques Kourliandsky. États-Unis et Amérique latine: y-a-t-il un pilote au Département d’État? [Estados Unidos e América Latina: não há piloto no Departamento de Estado?]. Nouveaux Espaces latinos, 8 de março de 2018.
14. Nana de Graaff; Bastiaan Van Apeldoorn. “The transnationalist US foreign-policy elite in exile? A compar en référence au Discours de la servitude volontaire écrit par Étienne de La Boétie en 1574. Ative network analysis of the Trump administration” [O transnacionalimo da elite da política internacional norte-americana no exílio? Uma comparação com o Discurso da servidão voluntária escrito por Étienne de La Boétie em 1574. Rede de análise ativa da gestão Trump]. Global Networks, 12 de novembro de 2019.
15. Em referência ao Discurso da servidão voluntária, escrito por Étienne de La Boétie, em 1574.
16.  Resumen de la cena de trabajo del presidente Donald J. Trump [Resumo do cenário de trabalho do president Donald J. Trump], elaborado pela Embaixada e consulado dos Estados Unidos no México em 19 de setembro de 2017; Remarks by President Trump […] at Working Dinner in Honor of Latin American Leaders [Recomendações do Presidente Trump relativas ao Jantar de trabalho em homenagem a líderes da América Latina], elaborado pelo Escritório da Secretaria de Imprensa da Casa Branca, em 18 de setembro de 2017.
17. Foram recebidos, no resort Mar-a-Lago, os presidentes das Bahamas, do Haiti, da Jamaica, da República Dominicana e de Santa Lúcia.
18. O Triângulo do Norte designa a região formada pela Guatemala, Honduras e El Salvador.
19. A primeira medida de expulsão em massa foi efetuada no lugar dito Echegaray, na comuna de Pijijapan, em 22 de abril de 2019.
20. AEUMC (Acordo Estados Unidos-México-Canadá) / USMCA (United States-Mexico-Canada Agreement) / T-MEC (Tratado entre México, Estados Unidos y Canadá), assinado em 30 de novembro de 2018.
21. Grupo hostil às autoridades bolivarianas da Venezuela, constituído em 8 de agosto de 2017 pelo Canadá e 11 países latino-americanos (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa-Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru).
22. O Título III autoriza cidadãos americanos, assim como cubanos naturalizados americanos de apelar aos tribunais americanos contra quem negocie com empresas que se beneficiem de propriedades em Cuba que tenham sido expropriadas logo após a revolução cubana em 1959.
23. Jon Lee Anderson. “Mexico, Cuba, and Trump’s increasing Preference for Punishment over Diplomacy” [México, Cuba, e a crescente preferência de Trump pela punição à diplomacia]. The New Yorker, em 11 de junho de 2019.
24. A China é responsável por 25% a 30 % das exportações brasileiras.
25. Thierry Kellner & Sophie Wintgens. La Chine au Nicaragua et au Panama [A China na Nicarágua e no Panamá]. Bruxelles, Les rapports du GRIP, 2019/4.
26. Anibal Troilo (1914-1975) escreveu “Nocturno a mi barrio” em 1956.
27. Juan Gabriel Tokatlian. “Trump y la doctrina Troilo”. Buenos Aires: El cohete a la luna, 8 de setembro de 2019.