Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Antonio Brasil

‘Nem tudo parece definitivamente ‘perdido’ na luta pela preservação dos filmes e programas de televisão. Pelo menos aqui nos EUA e em diversos países do mundo, a tribo dos ‘arquivistas’ tem conseguido grandes vitórias. Um dia, as futuras gerações vão agradecer a esses heróis pela possibilidade de rever o passado.

Esta semana aconteceu em Austin, no Texas, o congresso anual da Associação de Arquivistas de Imagens em Movimento (ver aqui). Trata-se da principal organização mundial dedicada à preservação dos filmes, programas de TV, documentários e telejornais (ver aqui). Tive o privilégio de ser convidado a apresentar os últimos resultados de nossas pesquisas sobre a migração dos arquivos de telejornalismo para a Internet. Em um painel com o uma proposta ambiciosa, News Online: Implications for Journalists, Educators, Archivists, and Internet Search Engines (Jornalismo Online: implicações para jornalistas, educadores, arquivistas e ferramentas de busca na Internet), discutimos o potencial desses acervos para a melhoria não só do ensino de jornalismo, mas para o próprio jornalismo.

O painel foi formado por acadêmicos e especialistas da área. Mas também contou com a participação de representantes da novíssima indústria de informática americana como a Yahoo. Assim como seus rivais na Google, a Yahoo (ver aqui) percebeu que o futuro da Internet está na ampliação de banco de dados com vídeos ou ‘imagens em movimento’ como animações em Flash e tantos outros formatos. Mas eles também buscam idéias criativas nas instituições de ensino e pesquisa para resolver os problemas de acesso aos imensos novos acervos de imagens. A palavra de ordem é ‘convergência’ de mídias.

No entanto, uma das principais características das universidades americanas é a sua integração com os projetos da iniciativa privada e do governo. Universidade em qualquer lugar do mundo é centro de ensino, pesquisa e reflexão crítica. Mas também é um lugar de experimentação e busca de soluções para os problemas da sociedade. Limitar-se a apontar os defeitos sem o compromisso de criar alternativas compromete os princípios básicos e o futuro das universidades.

Para minha surpresa e satisfação, os empresários americanos têm demonstrado enorme interesse em utilizar um trabalho desenvolvido durante anos no Brasil com tantas dificuldades e pouquíssimos recursos. Há muitos anos, o nosso objetivo tem sido criar plataformas experimentais na Internet voltadas para um jornalismo mais participativo, menos pretensioso e ‘arrogante’. Os empresários do setor e os ‘arquivistas’ estão chegando à conclusão de que telejornal do presente ou do passado ainda pode ser um bom negócio. Eles querem investigar e investir no potencial econômico desses arquivos digitais disponibilizados na Internet. Um dia, acessar aos nossos telejornais será tão fácil e simples como hoje é acessar artigos ou fotos na rede. A tecnologia tem avançado muito nessa área e oferece soluções extraordinárias.

O problema, no entanto, é garantir a viabilidade econômica desses projetos, além de preservar os direitos autorais dos produtores de conteúdos. Nem todos os empresários aceitam o argumento da necessidade de acesso universal à informação. Em tempos de crise, mais do que nunca, eles querem recuperar seus investimentos e garantir margens de lucro. Jornalismo de TV deixou de ser prestação de serviços à comunidade. Hoje, tornou-se uma fonte de renda como outra qualquer. A solução é convencer esses mesmos empresários que jornalismo de qualidade ou acesso aos arquivos de telejornais é um excelente negócio. Não é tarefa fácil. Mas é inevitável. Se não seguirmos o exemplo da indístria fonográfica e regulamentarmos essas questões de acesso, em breve os arquivos digitais com programas de TV ou telejornais seraõ ‘pirateados’ pelo público interessado. Quando existe o mercado e o interesse do público, as normas ultrapassadas de restrição ao acesso tendem a serem ignoradas.

Essas foram algumas das questões discutidas durante o congresso da AMIA. Os colegas arquivistas estão diante de questões fundamentais na migração para bases de dados digitais com acesso pela Internet e podem contribuir de sobremaneira para a sobrevivência do jornalismo investigativo de qualidade.

Teste para arquivistas e jornalistas

Para ilustrar o potencial das bases digitais de imagens para o jornalismo investigativo, apresentei as imagens abaixo. Perguntei aos presentes se eles já tinham visto essas imagens, o que representavam e o que elas tinham em comum. Os nossos leitores também podem tentar responder a essas questões.

Perceberam? As primeiras imagens identificam os terroristas que destruíram as torres do World Trade Center em Nova Iorque e os responsáveis pelas bombas em Londres. Foram encontradas por sistemas informatizados de identificação e busca de pessoas em arquivos de imagens em movimento de câmeras de segurança. A terceira foto, do presidente Clinton em meio a uma multidão abraçando aquela que seria o pivô de uma das maiores crises políticas dos EUA, a então desconhecida jovem estagiária Mônica Lewinsky, também foi encontrada por sistemas automatizados de busca em arquivos de telejornais.

O maior problema dos arquivos de imagens em movimento ou os arquivos de telejornalismo sempre foi encontrar alguém ou qualquer coisa em milhões de horas de conteúdo. O problema é ainda mais dramático considerando que os jornalistas de TV trabalham sob pressão de tempo. Precisam encontrar imagens sem qualquer identificação ou, como se diz na ciência da informação, sem ‘indexação’ com precisão, mas sempre ‘para ontem’.

Os novos sistemas de reconhecimento automatizado de pessoas têm origem nas instituições de segurança. Mas oferecem aos jornalistas investigativos, com a ajuda dos nossos colegas arquivistas, um enorme potencial para desenvolver grandes matérias. Estamos reinventando um jornalismo que recupera e privilegia a pesquisa dos arquivos. Com novas ferramentas informatizadas e acesso direto pela rede, estamos dando nova vida aos arquivos ‘mortos’ dos nossos telejornais.

Apesar da nossa indiferença ou descaso com a memória da televisão, é com saber que os arquivistas estão chegando. Assim como os jornalistas, eles também não desistem.’



CHINA / TV
David Barboza

‘‘Fábrica de TV’ chinesa produz sucessos em Hunan’, copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 3/12/05

‘O programa tinha o nome de ‘Concurso da Supergarota do Iogurte Azedo de Vaca da Mongólia’. Durante boa parte deste ano, a série, que segue o esquema do americano ‘American Idol’, foi um dos programas de maior audiência da televisão chinesa.

Quando ela acabou, em agosto, já tinha sido vista por mais de 400 milhões de telespectadores, número que a transforma num dos programas mais vistos da história da televisão chinesa e em mais um sucesso do grupo de produtores de TV ousados que formam a Hunan TV, na Província de Hunan, no centro-sul da China.

Ninguém sabe explicar ao certo por que razão a busca por uma nova popstar cativou uma parcela tão grande da população chinesa. Para analistas, o segredo é que, além de terem captado os anseios da juventude, os produtores permitiram ao público fazer algo inusitado no país: votar.

Na sede da Hunan TV, os produtores dizem que a fórmula do sucesso é simples: criar programas de entretenimento pouco convencionais, esdrúxulos ou até mesmo de mau gosto num país ainda dominado pela programação morna da televisão estatal.

‘Fazemos muita pesquisa de mercado’, diz Li Hao, diretor do principal departamento de edição da Hunan TV. ‘Procuramos descobrir o que as pessoas gostam.’

A Hunan TV iniciou suas transmissões nacionais via satélite em 1997, mas hoje já é uma das emissoras de TV mais poderosas da China, perdendo apenas para a China Central Television, ou CCTV, a maior emissora do país, e para o Shanghai Media Group.

Ela cresce num momento em que o apoio governamental à TV chinesa vem caindo, gerando uma explosão de espírito comercial, na medida em que as emissoras passam a competir por audiência e anunciantes. A emissora encontrou seu nicho no entretenimento, e outras emissoras chinesas via satélite se apressam em copiar suas fórmulas.

‘Já faz tempo que a Hunan TV está na vanguarda da produção de televisão sem sentido, mas divertida, e seu programa de maior sucesso é ‘Supergarota’, diz Hung Huang, executivo-chefe do China Interactive Media Group, ou CIMG, empresa de mídia e publicações em Pequim.

A Hunan TV também enfrenta concorrência crescente de empresas de mídia estrangeiras, que procuram entrar num mercado que já conta com a MTV e os desenhos animados da Nickelodeon. A News Corporation, controlada por Rupert Murdoch, chegou à China há dois anos e fechou com a emissora de Hunan um acordo para o financiamento e a produção conjunta de programas. Mas a Hunan TV pode beneficiar-se das restrições impostas pelo governo em agosto às empresas estrangeiras de cinema e TV.

O ‘game show’ que a emissora mantém há anos, ‘Cidadela da Felicidade’, é um dos programas de maior audiência da televisão chinesa. Outro programa de sucesso da emissora, ‘Quem é o Herói?’, traz pessoas fazendo façanhas bizarras, tais como arrancar as tampas de garrafas de cerveja com os dentes.

Esses programas fazem sucesso com os telespectadores. Eles até atraíram a atenção de multinacionais, como a Coca-Cola e a Pepsi, que, de repente, começaram a anunciar no horário nobre.

‘O sucesso imenso do ‘Supergarota’ realmente fez as pessoas acordarem’, diz Bessie Lee, executiva-chefe do Grupo M, uma agência de mídia que direciona anúncios para a televisão chinesa.

Como todas as emissoras de televisão chinesa, a Hunan TV pertence ao governo e é controlada por ele. Mas as autoridades da Província autorizaram os produtores da emissora a testar os limites do que é permissível na TV.

O resultado vem sendo programas de jornalismo que intercalam a notícia principal do momento com clipes de filmes antigos, além de programas de variedades com apresentadores animados e nada convencionais que fazem humor, cantam, dançam e chegam a chamar celebridades e membros do público para o palco para competir em brincadeiras leves.

De vez em quando, porém, a emissora sofre a ação da censura. Há dois anos, o governo proibiu a transmissão de um programa meteorológico ligeiramente erótico, no qual vencedoras de concursos de beleza usando pouca roupa anunciavam a previsão do tempo deitadas num sofá ou cama.

Os produtores da emissora realmente parecem ter o dom de prever o que fará sucesso. Eles produziram um drama anticorrupção intitulado ‘Poder Absoluto’, que foi um sucesso absoluto de público.

Muitas pessoas se perguntam como uma emissora de televisão da Província de Hunan, pouco desenvolvida, é capaz de lançar uma sucessão de sucessos nacionais.

‘Normalmente, quanto maior é o desenvolvimento econômico de uma região, melhor será sua emissora’, diz Bai Ruoyun, pesquisador na Universidade de Illinois em Champagne e especialista em mídia chinesa. ‘Nesse sentido, a Hunan TV constitui uma anomalia. Ela é surpreendente.’

A ascensão da Hunan TV começou, de fato, em 1997, quando a emissora lançou seu canal via satélite, visando alcançar não apenas o público nacional mas também as partes mais distantes da Província. Seus programas de namoro e ‘game shows’ viraram sensação quase imediata.

‘A China não tinha muitos programas de entretenimento naquela época’, disse Li, da Hunan TV. ‘Não demoramos a descobrir que tínhamos um potencial ainda maior em nível nacional, não só dentro de nossa Província.’

A receita da emissora começou a crescer. A Hunan TV abriu o capital de seu braço de produção na Bolsa de Valores chinesa e, então, deixou sua sede pequena, mudando-se para uma sede num terreno de 200 hectares em Changsha.

Hoje as instalações da emissora incluem um hotel quatro estrelas, chalés de luxo, um centro de convenções com platéia para 20 mil pessoas, um dormitório para seus funcionários, um grande edifício de escritórios e vários estúdios para a produção de programas.

No entanto a concorrência se acirrou e a audiência da emissora diminuiu, submetendo o conglomerado de mídia em rápido crescimento a pressões financeiras, contam seus executivos.

Perto do final de 2002, o ano mais difícil para a emissora, seus executivos principais se reuniram e traçaram um novo rumo para a Hunan TV, decidindo priorizar quase exclusivamente a programação voltada aos jovens.

Mais tarde a emissora adotou o slogan ‘China Feliz’, criou um logotipo laranja forte e prometeu ser moderna e ter como seu público alvo os jovens de 16 a 24 anos.

Li Juan, produtor de 35 anos de idade, disse que foi orientado a transformar o que tinha sido um programa cultural no programa de entretenimento ‘Quem é o Herói?’. ‘A única exigência foi transformar o programa de cultura em um programa que tivesse um público de massa e grande audiência’, ele conta. ‘Não havia nenhuma outra exigência.’

Desde então, a receita subiu de US$ 35 milhões em 2002 para estimados US$ 90 milhões em 2005. E nenhum programa teve sucesso comparável ao de ‘Supergarota’.’



CORÉIA / TV
O Estado de S. Paulo

‘TV coreana admite ter sido antiética com cientista’, copyright O Estado de S. Paulo, 5/12/05

‘A televisão coreana MBC, que questionou a legitimidade da pesquisa do cientista e papa da clonagem Hwang Woo-suk, pediu desculpas publicamente ontem por falhas éticas em suas reportagens. A equipe de Hwang foi a primeira a produzir embriões clonados com células-tronco geneticamente idênticas a de pacientes. Em sua cobertura, a MBC solicitou testes que demonstraram que uma das células não correspondia ao paciente.

O canal também divulgou que sua fonte – um ex-membro da equipe de Hwang – havia questionado a autenticidade da pesquisa. Mas em uma entrevista levada ao ar ontem pelo canal YTN, da Universidade de Pittsburgh (EUA), Kim Sun-jong (o suposto informante) negou as alegações.

Kim disse que foi enganado pela MBC, cujos produtores lhe disseram já haver uma investigação em curso e que seria melhor ele ‘contar tudo’. ‘Eu disse que nunca tinha ouvido nada sobre isso (falsificação da pesquisa).’

Após a apresentação da entrevista, a emissora pediu desculpas: ‘A MBC confirmou que seus produtores romperam claramente com a ética do jornalismo e pede sinceras desculpas.’’