Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Carlos Chaparro

‘O XIS DA QUESTÃO – No mundo globalizado, marcado pelos impactos das tecnologias de difusão universal de informações, o velho modelo americano de jornalismo está radicalmente superado por novos e velozes paradigmas. Diante das profundas mudanças ocorridas, cresce a importância da seguinte pergunta, que um pesquisador peruano trouxe ao recente congresso da Intercom, realizado no Rio de Janeiro: ‘Estamos ensinando aos estudantes de jornalismo a maneira adequada de se adaptarem aos novos cenários?’

1. A falsa dicotomia

Cinco meses atrás, Roberto Civita, diretor-presidente da Editora Abril, visitou a Escola de Comunicações e Artes, da USP, para uma conversa com professores. Foi para falar, principalmente, sobre o curso de jornalismo. Com ou sem razão, a visita não despertou grande interesse. Mas a conversa valeu a pena, se não pelo todo, ao menos pelo começo. O dono da Abril iniciou a sua fala com uma provocação – mais ou menos assim: ‘Os alunos que vocês nos mandam hoje não servem para a Editora Abril. Eles podem até ter bom domínio técnico das coisas do jornalismo. Mas nós estamos mais interessados em gente capaz de pensar.’

Provocações à parte, e talvez sem que essa tenha sido a intenção, Roberto Civita trouxe à baila a velha e sempre inacabada discussão sobre as relações entre teoria e prática, no ensino do jornalismo.

Nas redações, continua forte a voz dos que reclamam dos cursos de jornalismo uma pedagogia que valorize a prática, voltada para o aprendizado das técnicas. Querem profissionais do ‘fazer’, e isso lhes basta. Reclamam que os recém-formados chegam ao mercado sem saber o que significam termos básicos do jargão profissional, ou tropeçando em coisas elementares como dar contundência e clareza a uma abertura de matéria, definir o verbo forte de um título ou construir fluências estilísticas em usos alternados do discurso direto e indireto.

De outro lado, na academia, e em segmentos críticos do jornalismo, há clamores crescentes reivindicando cursos voltados para a formação humanística, multidisciplinar, dos futuros jornalistas. Por essa visão, o jornalista terá de ser um profissional intelectualmente capaz de entender e interpretar as complexidades do mundo cujos fatos e feitos deve relatar ou comentar. Argumentam essas correntes: De que servem as habilidades técnicas, se as mentes não estão preparadas para captar as cada vez mais complicadas subjetividades escondidas na materialidade dos fatos?

No meio termo, surge e organiza-se uma proposta que defende uma formação prioritariamente técnica, mas agregando à proposta a sutileza semântica de atribuir à palavra ‘técnica’ o significado de fusão entre teoria e prática. Os jornalistas seriam, portanto, tecnólogos preparados para o sucesso profissional, capazes de ‘fazer’, mas sabendo, também, os ‘porquês’ e ‘para quês’ do fazer . Pelo que posso entender, no domínio dos ‘porquês’ e ‘para quês’ estaria a dimensão teórica do modelo. Como sustentação da proposta, um argumento com força dramática: ou se investe na formação técnica do jornalista, ou estaremos diplomando profissionais para o desemprego, não para o trabalho – e com a frase cito o professor Jorge Pedro Souza, da Universidade Fernando Pessoa (Porto, Portugal), defensor desse modelo.

2. Velho paradigma

Claro que, sobre a questão, tenho pontos de vista próprios, elaborados ao longo escolhas e experiências pessoais, em quase cinqüenta anos de jornalismo, vividos nos arraiais da prática e do estudo. Mas não vem ao caso expor agora o que penso sobre o assunto. Porque considero mais importante abrir espaço para a discussão, a partir de uma reflexão que o pesquisador peruano Juan Gargurecich trouxe ao Congresso da Intercom, realizado no Rio de Janeiro entre os dias 6 e 9 deste mês.

Gargurevich participou da mesa (da qual eu e o professor Pedro Jorge também fizemos parte) em que se discutiam, exatamente, os desafios pedagógicos em torno da velha e falsa dicotomia Teoria x Prática. Como base para a reflexão e a discussão sobre o assunto, o colega peruano propôs um lúcido entendimento da mudança de paradigmas no jornalismo.

O paradigma do pós-guerra, inspirado no modelo norte-americano, fundamentou a concepção do jornalismo na América Latina. O paradigma assentava sobre um conjunto de ‘verdades’ que, por quase um século, organizou idéias e crenças no ensino, na pesquisa e na prática do jornalismo. Eis algumas dessas ‘verdades’:

– A informação tem alto valor como mercadoria, o que significa admitir que quanto melhores as notícias, maiores serão as vendas;

– A economia das empresas jornalísticas se baseia no êxito da circulação, na medida em que as tiragens condicionam a publicidade;

– As fontes de informação se restringem aos jornalistas, sem os quais não há notícia;

– Os modos formais e populares de a sociedade se informar são os jornais e os noticiários de rádio e televisão;

– Os espaços dedicados à informação jornalística são limitados em números de páginas, minutos de rádio e televisão;

– A informação chamada ‘alternativa’ está limitada a círculos especializados e tem pouca credibilidade;

– Os jornalistas se reconhecem a si mesmos como atores sociais e, como tal, assumem a missão de vigiar e fiscalizar os governos;

– Os meios massivos, cuja propriedade está reservada a grandes empresas multimediáticas, têm distribuição e alcance local;

– O jornalismo sustenta que a liberdade de imprensa é pilar fundamental da democracia.

Tudo isso mudou.

3. Novas ‘verdades’

No mundo atual, globalizado em redes informacionais, o ‘marco teórico’ do modelo americano de jornalismo foi radicalmente superado por novos paradigmas, que a nossa própria experiência de profissionais e cidadãos já pode claramente identificar.

Juan Gargurecich listou algumas das mudanças mais importantes ocorridas:

– A informação de qualquer país pode obter-se a custo mínimo e em tempo real;

– Os espaços virtuais para a informação quase não têm limites;

– As mini-empresas informativas podem ser tão eficazes quanto as grandes empresas de antigamente;

– Os meios são internacionais e não reconhecem os velhos limites impostos pelos regulamentos das Nações Unidas;

– Na maioria, as fontes governamentais estão abertas ao público em geral;

– Os ‘weblogs’ tornam possível e popularizam o ‘cidadão jornalista’;

– Os telefones móveis (celulares) avançam para converter-se em suportes inéditos de informação.

Acrescento a essa listagem uma mudança profunda no plano ético: o direito à informação, prerrogativa do cidadão, superou, como valor e direito democrático, os limites do conceito de liberdade de imprensa, princípio liberal que legitimava, também, o poder de ‘não publicar’.

Diante de tão profundas mudanças, Gargurevich provocou a platéia com uma pergunta tão simples quanto inquietante: Estamos nós ensinando aos estudantes de jornalismo a maneira adequada de adaptar-se aos novos cenários?

A questão aí fica, para o debate.’



Eduardo Ribeiro

‘Nem tudo são pedras’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 15/09/05

‘Estudante nunca teve vida fácil neste País, qualquer que seja a área escolhida. Foi difícil antes, é difícil hoje e o nosso sonho é que seja menos difícil amanhã.

Estuda-se, estuda-se, paga-se, paga-se e quando se quer ingressar no mercado é um sofrimento tremendo a busca pela primeira oportunidade. Para muitos ela inclusive nunca chega, como comentei aqui nos dois últimos artigos.

No caso do Jornalismo, a vida hoje do estudante é muito mais complicada do que dez, vinte anos atrás, não só pela baixa oferta de oportunidades, como pelo excesso de oferta de diplomados, e também pela ausência de um mecanismo eficaz e institucional de acesso à profissão (o estágio, por exemplo, que eu, particularmente, defendo com unhas e dentes).

Mas hoje quero aproveitar para escrever que nem tudo são pedras no caminho dos estudantes, como veremos no e-mail abaixo que recebi dando boas novas para os novatos. Mas não se iludam. Não é a Globo abrindo inscrições para a contratação de mil repórteres. Nada disso, embora seja uma notícia que envolva a Globo, sim.

Antes de passar ao e-mail quero aqui dar um pitaco: vejo muitas e constantes reclamações dos estudantes neste precioso e democrático espaço do Comunique-se. E sempre que o assunto é mercado de trabalho, oportunidades profissionais etc., os comentários são em geral queixumes e lamentações pela ausência da oportunidade que mudaria a vida de cada um.

Vou ser curto e grosso e provocativo, assim aqueles que quiserem poderão atirar pedras a valer contra a coluna e o colunista:

‘Parem de se lamentar, de se queixar, de reclamar da sorte e partam para a luta. Deixem de focar nos problemas (falta de oportunidades) e passem a focar nas soluções. Se o problema é falta de vaga, de acesso à profissão, tentem enxergar, como observadores isentos, caminhos para romper esse bloqueio. No texto anterior dei algumas dicas, mas elas não são as únicas. Que há problemas todos nós sabemos. Mas sabemos também que para cada problema há de haver uma solução.’

Vejam só que e-mail simpático recebi:

‘Eduardo, para animar os novatos, trago boas novas: Eu sou editor-chefe do GloboEsporte.com, o site de esportes da Globo.com/Rede Globo (não sei se você sabe, mas, desde o ano passado, o portal deixou de ser uma empresa com razão social própria e agora é uma unidade da TV). Pois bem, tínhamos uma equipe de oito jornalistas. Passamos para 38, entre subetidores, redatores, repórteres (temos oito permanentemente na rua, um em cada time grande do Rio e de São Paulo), estagiários, editores de foto e infografistas. A maior parte da equipe é composta de jovens, profissionais entre 20 e 30 anos. O projeto é muito bacana. É uma parte do mundo Rede Globo/ Sportv e prevê, inclusive, o envio de uma equipe para cobrir a Copa da Alemanha no ano que vem’ – assina Luiz Henrique Romanholli.

‘Ah, mas já são vagas preenchidas’, vão dizer alguns. ‘Por que não nos avisaram antes’, vão comentar outros, lamentando mais esta oportunidade perdida, ainda mais na Globo.

Ora, quem vive se lamentando não tem tempo para ir atrás das oportunidades. Quem quer vencer na vida tem de arregaçar as mangas e ir à luta. Tem de ficar atento às oportunidades. Tem de criar, muitas vezes, seus próprios espaços. Nem que seja na marra!

Olha só, vou dar mais uma dica, essa futura, para não dizer que só falamos depois do ‘leite derramado’ ou das vagas preenchidas. A ESPN Brasil vai passar a fazer aqui mesmo no País, a partir de dezembro, as traduções escritas e faladas da programação do canal ESPN Internacional. Hoje esse trabalho é feito por brasileiros, mas lá nos Estados Unidos. A mudança para o Brasil permitirá a criação de 22 vagas na emissora para a realização desse trabalho, sendo que algumas delas possivelmente estarão reservadas para alguns dos atuais titulares que queiram regressar ao Brasil. Não é vaga propriamente de jornalista, mas é uma oportunidade de ingressar numa emissora que faz jornalismo esportivo 24 horas por dia. É um jeito de ingressar numa atividade próxima do jornalismo, de olho numa oportunidade futura dentro do jornalismo.

‘Ah, mas não foi com isso que sonhei a vida inteira nem foi pra isso que estudei quatro anos na universidade’, alguns vão dizer. Outros, interessados e interesseiros certamente vão querer que eu publique aqui o telefone de lá, o nome da pessoa a quem procurar, se possível que faça uma indicação e, se não der muito trabalho, até que marque hora para irem lá.

Claro que não farei isso. Quem quiser que vá a luta, que se vire nos trinta para encontrar seu espaço. Que dê plantão na porta da emissora, atrás da tão sonhada oportunidade. Que demonstre iniciativa.

As oportunidades, como cheguei a escrever, pipocam pelo mercado.

Acontece que o óbvio só é óbvio para o olho preparado. Ou seja, para quem está atento e ligado, elas podem estar em qualquer espaço. Para quem está apenas empenhado em reclamar da vida, isso dificilmente ocorrerá, porque o emprego ou o trabalho não vão efetivamente bater na porta de ninguém. E aí o melhor é realmente montar uma barraca de cachorro quente.’



FILOSOFIA POPULAR

Patrícia Villalba

‘Filosofia agora é pop’, copyright O Estado de S. Paulo, 19/09/05

‘Depois de um longo período escondidos atrás dos muros acadêmicos, os ensinamentos de Platão voltam à cena, e caem no gosto popular. Seja no Fantástico ou em livros que se propõem a discutir Filosofia com leigos, há cada vez mais gente interessada no assunto. ‘A Filosofia vive o mesmo processo da Física e da Biologia, quando os estudiosos falam com o público sem intermediários, e buscando uma linguagem mais acessível para isso’, justifica o filósofo Eduardo Luft, da PUC-RS, que acaba de lançar Sobre a Coerência do Mundo (Editora Civilização Brasileira, 158 págs., R$ 24,90).

Inspirado pelo modelo dos cientistas que apresentam suas complicadas teorias de uma maneira deliciosa de ler, Luft usa poesia para falar da Filosofia como meio de compreensão do mundo. Assim, Sobre a Coerência do Mundo não deve ser visto como um livro complicado por um leigo da mesma forma que não soa nada tolo para um iniciado. ‘Não estou interessado em vulgarizar os conceitos filosóficos, mas em transmiti-los numa linguagem mais acessível’, esclarece o autor. ‘Para isso, eu uso facilitadores, como um poema ou um conto a cada capítulo e um glossário com verbetes fundamentais.’ Ousada, a filósofa Viviane Mosé planta a semente da Filosofia na cabeça das massas no quadro Ser ou não Ser?, que comanda no Fantástico. A partir de exemplos do cotidiano, ela nada mais faz do que convidar os telespectadores a pensar – ‘pensar como exercício’, como ela define -, tendo como pano de fundo a obra dos filósofos clássicos. A empatia com o público foi imediata, e o quadro é hoje o primeiro em audiência do programa dominical (leia entrevista ao lado).

O professor de Filosofia da ECA-USP e da ESPM Clóvis de Barros Filho vê com grande otimismo o aumento do interesse do público em geral pelo tema. ‘Se quisermos que as reflexões filosóficas deixem de ser o deleite de apenas meia dúzia de especialistas, precisamos mesmo adaptá-las à mídia’, opina o professor, que ministra um curso aberto de Filosofia na Casa do Saber – cem alunos na sala de aula, outros cem na lista de espera. ‘O quadro do Fantástico, por exemplo, não se propõe ser um curso de Filosofia, mas mostrar como a Filosofia pode ajudar a discutir o cotidiano.’ Essa tomada de fôlego vem sendo ensaiada há pelo menos 15 anos. Em 1991, o escritor norueguês Jostein Gaarder arrebatou milhares de leitores em todo planeta com O Mundo de Sofia, que conta a história da Filosofia do ponto de vista de uma garota de 15 anos. É até hoje o maior best seller da Companhia das Letras, com mais de 800 mil exemplares vendidos no Brasil. Da mesma editora, e lançado mais recentemente em versão de bolso, Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, é o título mais vendido da coleção Companhia de Bolso, que já publicou sucessos como Estação Carandiru, de Dráuzio Varella, e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Com um catálogo que soma 250 títulos ligados ao assunto, a Editora Martins Fontes comemora o sucesso. ‘O fenômeno que estamos vendo hoje, na verdade, é um resgate da Filosofia falando para um público maior, o que ela sempre fez’, opina o diretor editorial Alexandre Martins Fontes. ‘É claro que há autores que são herméticos, mas a Filosofia faz sucesso porque tem o papel de ajudar as pessoas a refletir.’

A fórmula de aplicar Filosofia ao cotidiano continua produzindo obras de qualidade reconhecida – ainda que, como no caso de O Mundo de Sofia, o sucesso venha acompanhado de críticas ruidosas do meio acadêmico -, caso de Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer, do psiquiatra Irvin D. Yalom, dois best sellers absolutos. Mas a coisa se espalhou de tal forma que hoje os conceitos filosóficos servem a toda sorte de temas – até seriados americanos de TV -, muitas vezes com viés de auto-ajuda. Nesse caso, o viés da auto-ajuda parece mesmo inevitável. Em seus livros – Mais Platão, Menos Prozac e Pergunte a Platão (Editora Record) -, o orientador filosófico Lou Marinoff alerta que tristeza é uma coisa, depressão é outra. Como distinguir uma da outra? Ah, a Filosofia responde.’



***

‘Na TV, receita para despertar a ‘brincadeira do pensamento’’, copyright O Estado de S. Paulo, 19/09/05

‘Esfuziante, e longe do perfil contemplativo que normalmente se espera de um filósofo, Viviane Mosé leva a filosofia às massas, no quadro Ser ou não Ser?, do Fantástico. A idéia de transpor conceitos complicadíssimos para a tela e convidar os telespectadores à reflexão poderia ser um desastre – de execução e de audiência -, mas justamente pela execução caprichada se mostrou um grande sucesso, pico de audiência do programa em vários domingos. ‘Eu sei o que estou falando, tenho total segurança, estudei a vida inteira isso’, avisa ela.

Você concorda com a tese de que a Filosofia se fechou na academia?

A Filosofia nasceu na rua, Sócrates falava na rua. A academia tem o seu valor, claro, porque se eu consigo fazer um programa na TV é porque eu fiz a academia. Para falar o fácil, você tem de saber o difícil. O que aconteceu é que a academia se fechou nela mesma e, agora, precisa sair para a rua.

Qual é o papel dessa nova Filosofia?

É despertar nas pessoas o abstrato. A Filosofia tem asas, ela pensa o pensar. O programa, por exemplo, procura despertar a brincadeira do pensamento, o pensar por prazer.

E as comparações entre Filosofia e a auto-ajuda?

A auto-ajuda dá fórmulas prontas para a solução dos problemas e a Filosofia, ao contrário, dá margem a mais perguntas, tornando-as mais instigantes.

De onde você acha que vem esse interesse todo pela Filosofia?

O mundo está passando por processo de mudança de valores. A idéia de futuro antes era muito tranqüilizadora e hoje em dia não é mais. Então, você procura a religião ou vai para a área do pensamento. A gente também passou por um período místico, que não resolveu, e agora estamos na Filosofia. Mas diferentemente do misticismo, ela vai deixar um rastro positivo quando não for mais moda. Sei que tem um grau de banalização nesse interesse pela Filosofia, mas acho que fica um rastro.

Então, a Filosofia é mesmo pop?

Acho que sim, está se tornando. Independentemente da raiva que os acadêmicos estão sentindo, é sim. E não acho que o pop seja um subproduto.’



DROGAS & MÍDIA

José Paulo Lanyi

‘Tem quem beba, tem quem fume…’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 16/09/05

‘- Os teus pais nunca te pegaram fumando?- pergunto a um amigo meu, ‘back’ entre os dedos (dele, hein, dele…), maconheiro por formação (?) e convicção.

– Já. Numa delas a minha mãe me disse, muito irritada, que eu estava concorrendo para o mar de sangue do tráfico. Eu respondi que isso era hipocrisia, tudo começa no Congresso com a bancada da droga. Na outra, o meu pai me disse para não fumar aqui em casa…

– E…?

– (rindo) Eu disse que ia fumar na rua. ‘É isso que você quer, pai’? Ele respondeu: ‘Não fume essa porcaria em lugar nenhum!’…

– Mas eles devem entender, são da geração ‘Sex n’ Drugs n’ Rock n’ Roll’….

– Mais ou menos… Na verdade, eles pegaram uma época de transição, anos 50…

– Pena que não nasceram um pouco depois… (os dois riem)

Ontem, na festa do Prêmio Comunique-se, reencontrei a doce Soninha, a vereadora, radialista, menina de ideais, aquela que foi exposta em praça pública pelos outdoors da Época por ter dito à revista que fumava a erva polêmica. Em 2001, a TV Cultura rescindiu o contrato da então apresentadora do programa ‘RG’. Soninha ficou marcada como ‘aquela que fuma maconha’. Como se – para ser conservador (sic)- oito entre dez jornalistas não tivessem ao menos experimentado o bagulho do mato.

O debate sobre a descriminalização do uso da Maria Juana vai e vem ao sabor dos entreveros, alguns deles fortuitos, como o protagonizado pelo, em breve, futuro ex-presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, esse, sim, tido e havido como um prócer dos bons costumes.

No plenário, há não muitos dias, o incrível Severino partiu para o argumento ad hominem (ou seja, desqualificou o adversário), ao reagir a críticas do jornalista e deputado Fernando Gabeira. Chamou-o, em outras palavras, de drogado e de defensor do uso de drogas pelos adolescentes.

Gabeira reagiria com um daqueles versos magníficos do Cazuza: ‘Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiroôôôôôôôôôôô [o ôôôôôôôôôôô é uma licença deste colunista]’.

Não chego a propor a liberação geral dos entorpecentes. Desconfio que não vá dar certo. Não estamos na Holanda… O baseado, talvez…?

O meu amigo, pontinha na mão, defendeu a criação da Narcobrás, a estatal das drogas, idéia do editorialista da Folha Hélio Schwartsman, que escreveu, outro dia: ‘O Estado, é claro, pode e deve atuar, mas não autoritariamente proibindo o jogo. Seu papel deve ser o de regular a atividade, fechando o máximo possível de portas para a criminalidade e oferecendo apoio médico e psicológico aos jogadores patológicos que decidam tratar-se. Não duvido de que a melhor forma de fazê-lo seja através da estatização do jogo. Sim, defendo, ao lado da Narcobrás, a criação da Embrassino (Empresa Brasileira de Cassinos)’.

Mais adiante Schwartsman ressalva, com lógica: ‘É claro que, quando chegar a hora, aconselharei meus filhos, agora com dois aninhos, a não se drogar e a não jogar a dinheiro. É claro também que eles não me ouvirão. Quase certamente experimentarão bebidas alcoólicas, algumas drogas da moda e passarão por cassinos. Se não tiverem azar, contudo, sobreviverão relativamente incólumes a essas experiências, que serão em algum sentido enriquecedoras. Viver é perigoso’.

Temos, sim, várias drogas liberadas, como a bebida e o cigarro ‘comum’ (aquele que também mata, aos poucos). Mas deve haver restrições contra o samba de tranqueiras ainda mais pesadas, como a cocaína e a heroína. Liberar tudo é uma roleta-russa social, acredite.

Mas tratar usuário como bandido é uma viagem das autoridades… A Soninha nos disse ontem que está à frente de uma campanha pela descriminalização do uso da maconha. Vai ter manifestação, uma coisa assim… (depois daqueles três copos de uísque, confesso que esqueci os detalhes).

‘Tem que fazer isso com as outras drogas também’, disse-lhe um amigo meu. A Soninha explicou: a sociedade não está preparada para tanto, vamos devagar…

Bom, a essência deste artigo é a seguinte: quem for contra isso ou aquilo, que o seja, quem for a favor, que o seja. Mas a conversa tem que ser civilizada, sem preconceito e babaquice de ambos os lados.

Que fique claro: não estou dizendo que se deva usar o que quer que seja. Não, isso seria ridículo, cada qual que faça o que bem entender da vida.

De resto, uma sagrada reflexão: se meterem na cadeia todo e qualquer usuário de maconha, etc., do presente e do passado, não teremos jornais no dia seguinte… Nem jornalismo de TV, de Rádio, Internet, revista…’



JORNALISMO ESPORTIVO

Marcelo Russio

‘Quem tem credibilidade?’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/09/05

‘Olá, amigos. É impossível estar alheio aos acontecimentos políticos que arrebentam o país, mesmo quando se escreve uma coluna sobre jornalismo esportivo. Vendo, lendo e ouvindo tudo o que é veiculado em todas as emissoras sobre a crise política do Brasil, e assistindo aos pronunciamentos dos nossos políticos, me veio um pensamento: o ambiente enlameado acaba com qualquer credibilidade.

Explico. Quando existe o comprometimento da seriedade de qualquer instituição, seja ela qual for, de qual esfera for, passa-se a acreditar no que de pior for falado sobre ela e seus membros. Hoje, falando-se de política, o povo brasileiro acredita em qualquer acusação que se faça a qualquer político brasileiro. Hoje, no Brasil, a opinião pública condena deputados, senadores e presidentes até que se prove o contrário. Qual a razão disso? A falta de decoro de políticos que, por décadas e mais décadas, saquearam a reserva moral que existia nas instituições que servem de alicerces para o país.

Nos demais ambientes da nossa sociedade, sempre que há poder em jogo, vê-se que há corrupção, em maior ou menor nível. Não de todos, nem da maioria, mas de alguns (muitos ou poucos) que se julgam acima do bem e do mal.

Posto isso, faço um paralelo com o ambiente do futebol, e da forma como parte da imprensa esportiva se faz de dona da verdade quando o assunto é a veiculação de notícias ditas exclusivas. Em um meio em que sabe-se que há jornalistas que recebem notícias vindas direto de dentro dos clubes, que são procurados pelas fontes para que a notícia seja publicada por seus veículos, é preciso ter cuidado com as contrapartidas que esse ‘presente’ traz aos agraciados pelas fontes.

Será que os clubes plantam suas notícias em veículos de comunicação gratuitamente? Será que repórteres que vão a programas esportivos da hora do almoço com telefones celulares na mão, fingindo que atendem ligações no meio do programa, divulgam notas com total isenção, ou será que eles divulgam informações que agradam àqueles que, costumeiramente, lhes passam ‘furos’?

Honestamente, não sei se o meio do jornalismo esportivo possui a credibilidade que deveria ter. Claro que não generalizo, pois há repórteres sérios, que correm atrás de furos de reportagens, que pesquisam e conseguem informações de forma lícita, e não fazem amizades e prestam favores aos clubes de futebol e seus cartolas.’