Friday, 12 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

Direto da Redação



HOMER vs. BONNER
Eliakim Araújo

Bonner e o comedor de biscoitos, 8/12/05

‘Façam suas apostas: Homer Simpson é um preguiçoso, de raciocínio lento, que passa o dia em frente a TV comendo biscoitos e bebendo cerveja ou um pai de família devotado, trabalhador, sem curso superior, que chega do trabalho cansado e quer se informar sobre os fatos do dia de maneira clara e objetiva?

A polêmica surgiu depois que o professor Laurindo Lalo Leal Filho publicou artigo na revista Carta Capital contando inconfidências dos bastidores do Jornal Nacional. Laurindo, junto com um grupo de nove professores da USP, visitou a redação da TV-Globo em 23 de novembro e foi convidado para participar como assistente de uma reunião de pauta do JN.

Além da superficialidade com que são tratados e escolhidos os assuntos que entrarão na casa de milhões de pessoas, Laurindo se mostrou perplexo ao ouvir de William Bonner, o editor-chefe, que uma pesquisa realizada pela Globo constatou que o telespectador médio do JN ‘tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo’. Por isso, na redação da Globo o brasileiro médio é apelidado de Homer Simpson. Para o professor Laurindo, um obtuso personagem de raciocínio lento e preguiçoso. Para Bonner, em resposta ao professor, Homer é um paí de família trabalhador, responsável, que gosta de se informar de maneira clara e objetiva.

Em nome da clareza, invocada acertadamente por Bonner, é que me obriguei a fazer acima o pequeno resumo da história para aqueles que ainda não a conheciam. Como mandam os manuais de jornalismo.

Dito isto, confesso que a discussão sobre a personalidade de Homer Simpson é o que menos importa na polêmica. O que deve preocupar o telespectador brasileiro são os critérios como são selecionadas as matérias que vão para o telejornal. Quem conhece as entranhas do monstro, sabe que o editor-chefe do JN tem autonomia para decidir até a página cinco, como se diz popularmente. Daí em diante, a decisão vai para o Diretor de Jornalismo, que também tem autonomia limitada, até a página dez, digamos. Nos assuntos ‘delicados’ que envolvem interesses econômicos ou políticos da empresa, quem decide mesmo o que vai ao ar é a alta cúpula. Isso sem falar das ‘rec’, as matérias recomendadas pela direção que têm a sua prioridade assegurada. Pelo menos era assim nos tempos do Dr. Roberto e acredito piamente que nada mudou.

Bonner, em sua resposta, limita-se a tecer considerações sobre o temperamento de seu Homer e explica que foi por amor à clareza e à objetividade que inventaram na redação o nome do personagem da série Os Simpsons, após a tal pequisa realizada pela emissora. Mas ele não toca na questão editorial. Essa sim, a meu ver, a mais importante.

O professor Laurindo cita em seu artigo o comportamento do editor-chefe ao recusar matéria da sucursal da Globo em NY sobre a oferta do governo venezuelano para venda de petróleo a preços mais baratos para atender comunidades carentes dos EUA. Assunto da maior relevância naquele dia de novembro, e neste momento quando o gás venezuelano já está atendendo a 8 mil famílias pobres do Bronx, em Nova Iorque, como se pode ler na coluna de hoje do Eduardo Graça, aqui mesmo, no DR.

Não sei qual o critério usado por Bonner para recusar a matéria. Se foi político, é preocupante. Se não, foi um grave erro de avaliação. Gostando-se ou não de Hugo Chávez, temos que reconhecer sua importância no cenário político internacional. Ele hoje é notícia em qualquer lugar do mundo. Não só porque preside um país que é um dos maiores produtores de petróleo, como também porque é um dos raros líderes a enfrentar a prepotência de Bush e seu desprezo pelas regras internacionais de convivência.

Vejo no artigo do professor Laurindo um alerta àqueles que têm o poder de decisão. Tentar melhorar a qualidade da informação oferecida ao telespectador é um dever social do jornalista. O nivelamento por baixo não interessa à maioria da população brasileira. Só a alguns poucos, aqueles que aumentam diariamente suas fortunas à custa do atraso e da miséria que se alastram pelo país.

(*) Ancorou o primeiro canal internacional de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista da Rádio JB. Tem uma empresa de assessoria em jornalismo e marketing.’



TV / EUA
Leila Cordeiro

Quando o talento é notícia, 4/12/05

‘Semana passada, o público americano assistiu, na rede de TV CBS, ao reencontro das duas maiores estrelas do mundo dos talk-shows: David Letterman, 58 anos, faturamento anual de 40 milhões de dólares, e Ophra Winfrey, 51 anos, 225 milhões de dólares por ano de faturamento, como empresária de comunicação, artista e produtora teatral.

Em 1989, quando ainda estava na NBC, David entrevistou Ophra e fez uma brincadeira que desagradou a apresentadora. Ela levantou-se da cadeira e saiu pisando firme do show do colega, garantindo que nunca mais daria entrevista a ele. Relações cortadas.

O tempo passou e o mundo deu voltas. E os dois acabaram fazendo parte do elenco da mesma rede de TV, a CBS. No último dia primeiro de dezembro, Ophra finalmente capitulou e aceitou voltar às boas com Letterman. Com isso ganhou os três blocos do programa (o Late Show) com direito a um disfarçado pedido de desculpas e às homenagens que uma grande estrela merece.

O programa foi sem dúvida um duelo de titãs da comunicação. Não é a toa que os dois, David e Ophra, são os comunicadores americanos mais bem pagos e prestigiados pela mídia e pelo público. Durante a semana que antecedeu a entrevista, Letterman criou grande expectativa colocando no ar todas as noites uma enorme foto de Ophra com uma espécie de contagem regressiva para a entrevista.

O resultado foi um show melhor do que o esperado. Os índices de audiência foram altos e o público acompanhou com expectativa – e uma certa torcida – a reconciliação dos dois. David Letterman deixou de lado o ar de gozador irreverente e descontraído para chamar Ophra até com uma certa emoção. Ela por sua vez chegou com ares de grande estrela com um vestido púrpura, em homenagem à peça Cor Púrpura que está produzindo na Broadway. A peça é baseada no filme do mesmo nome lançado em 1985 com direção de Steven Spielberg, no qual Ophra fez o papel da sofrida Sofia Harpo.

Os dois se abraçaram e com a naturalidade de quem nasceu com talento para as câmeras iniciaram a conversa. Ophra perguntou de cara se todas aquelas homenagens eram verdadeiras ou se eram apenas o ‘jeito Letterman’ de brincar com o entrevistado. O apresentador rendeu-se ao carisma de Oprah e confirmou que eram absolutamente verdadeiras. A partir daí, houve muita rasgação de seda com os dois reafirmando o respeito e admiração que têm um pelo outro.

Foi, sem dúvida, um momento marcante para o público americano que há décadas acompanha o trabalho desses monstros sagrados da comunicação. Ambos mostram diariamente como é ser brilhante e talentoso num veículo tão influente como é a TV. Letterman, apesar de brincalhão e irreverente, tem uma virtude especial que falta à maioria dos entrevistadores de TV no Brasil: saber ouvir. Deixa o entrevistado absolutamente à vontade e não se preocupa em mostrar mais conhecimento que ele. Ophra, de origem muito pobre e vítima de violência sexual na infância, é líder de audiência vespertina e respeitadíssima pelo público. Tem um trabalho social sério junto às populações carentes da África, pagando do próprio bolso a construção de escolas para crianças necessitadas.

Por último, vale destacar o show de democracia da TV americana. O reecontro de David e Ophra foi noticiado com destaque em todas as demais redes de TV. Transformou-se em acontecimento nacional e, nos EUA, não existe a preocupação mesquinha de ignorar os feitos e os artistas das redes concorrentes. Como também não há proibição de levar aos programas de entrevistas, jornalistas ou artistas de outras emissoras. Tudo é feito com muita naturalidade e profissionalismo.

Talvez porque nos EUA as principais redes de TV não pertençam a um dono único ou a uma família, como acontece no Brasil. São grandes corporações administradas como indústrias por executivos profissionais, fiscalizados por um conselho de acionistas. Não vivem de pires na mão buscando socorro do governo… bem, mas isso é assunto para outra coluna.’