Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Índia: entrevista com Meena Menon

Os jornalistas são presos por desordem, mortos a tiros por fazerem o seu trabalho e assediados de todas as formas. (Foto: arquivo pessoal)

Meena Menon é uma jornalista indiana independente, licenciada em Literatura e mestre em Literatura Inglesa e Francesa pela Universidade de Mumbai, na Índia. Atualmente, ela é candidata ao terceiro ano de doutorado na Universidade de Leeds, no Reino Unido. Como pesquisadora, Menon concentra seus estudos nos movimentos sociais, história e formas de liderança.

Durante 38 anos, a jornalista tem escrito sobre política, saúde, direitos humanos e questões de desenvolvimento social. Ela trabalhou para a revista Bombay Magazine, para os veículos United News of India, Mid-day, The Times of India e até 2015 esteve no The Hindu. Além disso, atuou como professora de Estudos de Mídia no Xavier Institute of Communications (XIC), em Mumbai.

Menon é também autora de livros como A Frayed History: the journey of cotton in India (2017, em parceria com Uzramma), Reporting Pakistan (2017), Riots and After in Mumbai: chronicles of truth and reconciliation (2012) e The Unseen Worker: on the trail of the girl child (1998). Leia mais na entrevista a seguir.

Enio Moraes Júnior – A Índia é um país de contrastes que podem ser, por vezes, maravilhosos ou bastante cruéis. Isso influenciou sua decisão de se tornar jornalista?

Meena Menon – Obrigado por trazer esta questão. Sim, de certa forma influenciou, embora, como jornalista, tenhamos uma tendência a olhar mais para as desigualdades na sociedade e a escrever sobre esses aspectos. Eu sempre gostei de ler e de escrever, e foi também por isso que escolhi estudar literatura. Por sua vez, o jornalismo foi uma extensão dessa escolha, embora a escrita jornalística que fiz nos primeiros tempos tivesse um estilo muito diferente. Foi apenas nos últimos 20 anos, mais ou menos, que o meu padrão de escrita mudou, refletindo talvez uma qualidade mais literária do que o mero estilo da redação noticiosa.

EMJ – De que forma a imprensa nacional pauta o país? Quais são os problemas mais relevantes e que temas surgem com mais frequência?

MM – Gostaria de esclarecer que a “imprensa nacional”, como poderia ser chamada, não é uma entidade homogênea na Índia. Muitos dos meios de comunicação televisivos tendem a favorecer o governo que está no poder. Mas há vozes críticas e independentes que estão fazendo o seu trabalho como veículos de comunicação social, que é questionar e ser crítico em relação ao governo. Penso que o aspecto mais importante neste momento é a situação dos próprios meios de comunicação, que estão sob ameaça. Jornalistas são presos por desordem, mortos a tiros por fazerem o seu trabalho e assediados de todas as formas. É um momento perigoso para a mídia, que não está unida para reportar os nossos problemas.

Além disso, há os discursos de ódio e os apelos ao assassinato de membros de uma determinada comunidade que representam uma grave ameaça para a sociedade. Apenas uma parte da mídia reporta estas questões com alguma clareza e equilíbrio. Por outro lado, as comunidades Whatsapp, que espalham ódio e estimulam a violência, estão ganhando terreno. Há jornalistas que estão expondo estas notícias falsas como “Alt News”, por exemplo, e é interessante como essas fake news se tornam virais como verdades e, por vezes, levam a consequências bastante negativas.

A dissidência também não está sendo mais tolerada no país, e os jornalistas estão sendo punidos por fazerem o seu trabalho. Embora muitas entidades e indivíduos corajosos dos meios de comunicação estejam defendendo o que pensam ser correto, isso tem um certo custo. Um jornalista pode ser preso por fazer o seu trabalho ou impedido de sair do país por escrever artigos ou livros não aceitáveis para os grupos que estão no poder.

Também há um crescente investimento empresarial nos meios de comunicação e isso tem consequências para a liberdade de expressão. Como acontece nos veículos tradicionais, que têm os seus próprios interesses, nesse contexto um jornalista nem sempre poderá escrever o que deseja.

EMJ – Há muitos anos que você escreve e pesquisa sobre questões de minorias e direitos humanos. Como avalia a cobertura destes temas no jornalismo indiano?

MM – Penso que existe um conjunto de jornalistas empenhados, especialmente na nova geração, que escreve sobre estes temas e também expõe as violações dos direitos humanos. Embora, por vezes, isto seja feito com grande risco para as suas próprias vidas.

Mas hoje o conceito de direitos humanos é muitas vezes contestado e, em algumas situações, nem mesmo jornalistas que cobrem a pandemia de Covid-19 são poupados.

Há também casos como o do jornalista Siddique Kappan, que foi preso em outubro de 2020, no estado de Uttar Pradesh, quando estava a caminho da cobertura de um incidente de violação de gangues. Os meios de comunicação também estão sob ameaça na Caxemira e os jornalistas são detidos e encarcerados. Gauri Lankesh, uma jornalista sênior, foi morta em casa, em Bengaluru, em 2017. Não apenas na Índia, mas também em outros países asiáticos, os jornalistas estão no “fio da navalha”.

Por outro lado, penso que o que deve dar esperança é que estas questões não serão varridas para debaixo do tapete e há editores e jornalistas, pelo menos alguns, que acreditam na força do jornalismo.

EMJ – As redes sociais mudaram a produção de notícias em todo o mundo. Quais são os aspectos positivos e negativos dessa mudança na Índia?

MM – Eu diria que essa mídia tem uma relevância muito grande, especialmente para expor regimes bárbaros ou para divulgar notícias censuradas. São plataformas que podem chamar a atenção global se utilizadas de forma humanitária. Mas na Índia elas atuam nos dois sentidos: os meios de comunicação tornaram-se um local tóxico que espalha ódio e notícias falsas, o que é extremamente prejudicial. São também utilizados para atingir mulheres e jornalistas do sexo feminino, em uma forma de assédio criminoso, ou para atingir comunidades específicas de forma prejudicial, indecente e até abusiva. Esse tipo de assédio tornou-se um passatempo extremamente perigoso e alguns jornalistas são constantemente perseguidos por suas opiniões. Este quadro continua sem controle, apesar de queixas e de detenções.

EMJ – Quando falamos em jornalismo regional e local, abordamos muitas particularidades das comunidades locais. A Índia é um país cheio de tradições, cores e, o mais importante: línguas e dialetos. Levando isto em consideração, como funciona a cobertura local no jornalismo indiano?

MM – Eu acredito que, se você faz referência aos veículos de jornalismo em línguas que não o inglês, é claro que estes constituem as plataformas mais lidas e consumidas. Jornais em hindi expuseram as mortes e cremações associadas ao Covid-19 nas margens do rio Ganges e foram molestados por isso pelo governo. No entanto, embora a imprensa em outras línguas seja muito poderosa e popular, infelizmente nem sempre utiliza a sua perspicácia crítica para estar do lado do povo.

EMJ – Quais são os principais assuntos que o jornalismo internacional tem que colocar na sua agenda de hoje?

MM – Penso que o jornalismo internacional também está sob pressão de financiamento e de manutenção da alta qualidade da informação. Nos EUA, por exemplo, muitos jornais fecharam ou agora existem apenas em versões digitais. Na Índia, as notícias prosperam, mas a questão é: que tipo de notícias? O jornalismo de outros países continua concentrado naquele país, a menos que aconteça algo catastrófico em outro lugar. Tem havido colaborações globais, por exemplo, nos Panamá Papers e outras exposições, mas, em grande parte, as notícias de última hora ditam o que é coberto até o assunto ser esquecido.

EMJ – Como você avalia a formação social dos jornalistas na Índia? Qual o futuro da nossa profissão no seu país?

MM – As escolas de jornalismo oferecem aos estudantes uma grande variedade de experiências, dependendo de onde se vai – algumas assentam-se na formação prática, enquanto em outras os estudantes desenvolvem pequenos trabalhos de pesquisa, como no Xavier Institute of Communications, onde eu trabalhei como professora. Estes cursos podem não abranger disciplinas específicas como as ciências sociais, mas têm componentes de direitos humanos, questões sociais, econômicas e empresariais, relações públicas, gênero, direito e legislação.

Com base na minha experiência de ensino, vejo que os estudantes são brilhantes, empenhados e interessados em compreender o mundo à sua volta e aprender de forma construtiva. Penso que isso significa uma grande esperança de que os mais jovens continuem a olhar para os meios de comunicação social como um campo de engajamento, apesar dos muitos problemas que existem – e isso inclui encontrar emprego. 

Esta entrevista faz parte da série “Jornalismo no Mundo”, uma iniciativa do pesquisador e jornalista Enio Moraes Júnior, juntamente com o Alterjor – Grupo de Estudos de Jornalismo Popular e Alternativo da Universidade de São Paulo. As entrevistas são originalmente publicadas em inglês no Medium.

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Enio Moraes Júnior é jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Acesse o portfólio do autor: Enio OnLine.