Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Jornalismo em Moçambique: entrevista com Celestino Joanguete

Celestino Joanguete. (Foto: Arquivo Pessoal)

Celestino Joanguete é um professor e pesquisador moçambicano, licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, e Doutor na mesma área pela Universidade do Minho, também em Portugal. Além disso, possui bacharelado em Teologia e em Filosofia pelos Seminário Maior Santo Agostinho e São Pio X, em Maputo. Como professor de jornalismo em instituições de seu país, destaca-se sua atuação na Universidade Eduardo Mondlane, na Universidade Católica de Moçambique, na Universidade Zambeze e na Universidade Pedagógica de Maputo.

Autor do livro Imprensa Moçambicana: do papel ao digital, publicado em 2017, Joanguete realiza consultorias relacionadas a mídia e jornalismo, com ênfase nas tecnologias e na formação profissional na área. Como consultor, professor e palestrante, seu currículo inclui publicações e passagens por países como Portugal, Brasil, África do Sul, Namíbia, Etiópia e Estados Unidos. A seguir, uma conversa com ele sobre a imprensa em Moçambique.

Enio Moraes Júnior — Você é um atento crítico da política de seu país e esse tema recebe também bastante atenção do jornalismo moçambicano. Prova disso são reportagens que você compartilha em suas redes sociais. Além das questões que envolvem os atores políticos e suas ações, que temas a imprensa pauta mais frequentemente?

Celestino Joanguete — Desde que se instituiu a Constituição Democrática em 1991, a imprensa moçambicana tem destacado matérias relacionadas à corrupção, aos direitos humanos, aos casamentos prematuros, à liberdade de imprensa e de expressão, incluindo a liberdade de expressão nas redes sociais da internet. No caso da corrupção, o tema de destaque são as dívidas ocultas contraídas pelo governo para criar três empresas do Estado. Outros destaques têm sido a questão dos casamentos prematuros (de acordo com as definições da Unicef). Moçambique tem uma das taxas mais elevadas de casamento prematuro do mundo, afetando quase uma em cada duas mulheres, e tem a segunda maior taxa na sub-região da África Oriental e Austral. Cerca de 48% das mulheres em Moçambique com idades entre 20 e 24 anos já foram casadas ou estiveram numa união antes dos 18 anos, e 14%, antes dos 15 anos.

EMJ — Como você avalia a cobertura dos direitos humanos, como pautas relacionadas à fome e à pobreza em Moçambique?

CJ — A matéria de destaque na cobertura dos direitos humanos tem sido a violência policial contra cidadãos, perseguição e assassinato de membros dos partidos de oposição, execução sumária da população civil em regiões de conflitos armados (província de Cabo Delgado e Manica), tortura de críticos do governo, prisões e detenções arbitrárias. Nos últimos anos, foram sequestradas mais de 30 pessoas ligadas ao maior partido da oposição em Inhambane, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), o que deixa alguns militantes desta força partidária com receio de novos ataques. Há também relatos de assassinatos de membros da oposição, incluindo de um elemento da equipe da Renamo nas negociações de paz, Jeremias Pondeca. Foi um crime ocorrido em 2016, visto como politicamente motivado. Há pouca reportagem sobre a fome, porque ela foi suprimida em determinadas regiões do país.

EMJ — Como está a questão da propriedade da mídia no país? Os jornalistas moçambicanos ainda enfrentam constantes ameaças e sérias violações à liberdade de imprensa…

CJ — Em Moçambique, existem seis regimes de propriedade de media: serviços públicos de rádio e televisão (Rádio Moçambique e Televisão de Moçambique), rádios e televisões privadas comerciais, rádios comunitárias, rádios religiosas, jornais privados e um misto (público e privado). De todos estes meios, os serviços públicos da rádio e televisão gozam de maiores privilégios por parte do governo e, consequentemente, do controle da linha editorial pelo Estado. A liberdade de imprensa tem sido assunto retratado em relatórios anuais de organizações nacionais e internacionais. Os jornalistas são privados de exercer as suas atividades jornalísticas, casos de sequestros, perseguições, incêndio de redações por criticar o governo e denunciar corrupção, ameaças e expulsão de jornalistas estrangeiros. Um caso recente envolveu a expulsão do jornalista britânico Tom Bowker, da Zitamar News. Em causa, está a “motivação política”, mas o governo alega a expulsão pela falta de documentos que provam a existência do órgão Zitamar.

EMJ — O jornalismo local diz respeito à cobertura das particularidades da vida em comunidades. Como essa questão funciona na imprensa moçambicana?

CJ — A vida comunitária é tratada com maior ênfase pelas rádios comunitárias, que representam 80% da audiência das comunidades rurais, graças às suas transmissões de programas em línguas locais. Elas foram criadas com a finalidade de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico e cultural das comunidades, promovendo a cultura de paz, democracia, direitos humanos e empoderamento. A sua gestão é feita pela comunidade através do Comitê de Gestão de Rádio. Moçambique possui pouco mais de 100 rádios comunitárias, dispersas ao longo de todo o território nacional. A programação é feita pelo pessoal voluntário, com ajuda do Fórum das Rádios Comunitárias (Forcom) e do Centro de Apoio à Informação e Comunicação Comunitária (Caicc), entidade que ajuda no apoio técnico, formação e programação.

Muitas vezes, os jornalistas das rádios comunitárias têm sido perseguidos e ameaçados de morte. Por exemplo, em 2017, jornalistas da rádio comunitária de Morrumbene, na província de Inhambane, receberam ameaças de morte por terem divulgado uma informação sobre roubos protagonizados por uma quadrilha de que alegadamente participava um agente da Polícia da República de Moçambique (PRM), afeto ao comando distrital. A televisão e a rádio pública têm programas específicos que fazem reportagens sobre o desenvolvimento rural, com destaque para a agricultura. Pouco é conhecido sobre a existência de jornais comunitários. Porém, existem algumas televisões comunitárias de fraca expressão na comunidade, devido à falta de sustentabilidade do seu funcionamento.

EMJ — Há algum tempo, você publicou uma discussão sobre os desafios da comunidade política em tempos de cibercidadania, sobretudo no contexto africano. De que forma as mídias sociais afetaram a participação dos cidadãos e o jornalismo em Moçambique nos últimos 20 ou 30 anos?

CJ — Os media digitais trouxeram uma nova dinâmica de comunicação à sociedade moçambicana e africana no geral. No campo político, por exemplo, registra-se uma nova forma de comunicação com o cidadão, mediada pelas redes sociais da internet, sobretudo, Facebook e Instagram. Os políticos já interagem com os cidadãos de forma direta e o cidadão, por sua vez, ganhou maior liberdade para expressar as suas opiniões de modo desintermediado. Contudo, as novas formas de comunicação não são massificadas por todo o território nacional devido ao fosso digital entre o campo e a cidade, fato que requer maior literacia digital e inclusão do cidadão rural no acesso à informação e participação política através das tecnologias de comunicação.

EMJ — Como o jornalismo está cobrindo a pandemia de Covid-19 no país? Em questões como medidas de isolamento e higiene, há discrepância entre o discurso dos políticos e a posição de instituições internacionais de saúde, como a OMS?

CJ — No início, havia uma tendência de politização da Covid-19, crescente desinformação sobre a pandemia, massificação de reportagens de pânico e medo. Estes problemas caracterizaram as primeiras dificuldades de os jornalistas lidarem com o assunto. Por um lado, os políticos usaram o tema da Covid-19 para ações populistas de “salvadores” da saúde do povo. Por outro, a proliferação das fake news, quer nos jornais, quer nas redes sociais, foram matérias com que os jornalistas tiveram dificuldades de lidar por falta de fontes de informação credíveis. Consequentemente, tudo isso resultava na divulgação de reportagens de pânico nos media. Nos últimos meses, a cobertura jornalística sobre a Covid-19 registou melhorias, graças ao papel da OMS na emissão de diretrizes sanitárias e ao contributo do governo no combate à desinformação através de medidas punitivas.

EMJ — Em entrevista ao site Voa, Voz da América, você falou sobre a importância de focar o ensino do jornalismo na sua faceta digital. Como funciona, hoje, essa formação em Moçambique? É possível comparar com a sua formação em Comunicação na Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, em 2002?

CJ — A minha formação em Ciências da Comunicação, quer no nível de graduação, quer de doutoramento, não me permitia perceber melhor os fenômenos de mudanças que estavam ocorrendo no campo dos media e do jornalismo. Foi preciso um estudo complementar de especialização na Universidade de Ohio, nos EUA, em 2017, onde concedi a entrevista à Voz da América sobre o assunto. Depois do regresso a Moçambique, iniciei a preparação de reformas do plano curricular do curso de Jornalismo na Universidade Eduardo Mondlane. Na sequência, a Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane tornou-se pioneira em ministrar o curso de mestrado em Gestão de Media Digitais. No próximo ano, iremos preparar a introdução do curso de graduação em Jornalismo Digital. A ideia é criar cursos que respondem às demandas do mercado de mídias digitais (rádio, televisão e jornais digitais).

Esta entrevista faz parte de uma série sobre jornalismo no mundo, uma iniciativa do pesquisador e jornalista Enio Moraes Júnior, juntamente com o Alterjor — Grupo de Estudos de Jornalismo Popular e Alternativo da Universidade de São Paulo. As entrevistas são originalmente publicadas em inglês no Medium.

***
Enio Moraes Júnior é jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Acesse o portfólio do autor: EnioOnLine.