Tuesday, 09 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1199

Jornalismo nos Estados Unidos: entrevista com Adriana Manfredini

“Minha percepção é que a cobertura dos direitos humanos e das minorias está melhorando, mas ainda há muito o que explorar”, diz a jornalista. (Foto: arquivo pessoal)

Adriana Manfredini é uma jornalista e pesquisadora brasileira, com mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Desde 2017, ela mora em Seattle, nos Estados Unidos, e faz pesquisa e tradução para o português de textos publicados no fim do século XIX por mulheres pioneiras no jornalismo norte-americano.

No Brasil, trabalhou por dez anos como repórter em redações de revistas, e depois outros dez anos como profissional de comunicação interna e assessoria de imprensa. Em 2018, lançou o livro Crônicas de Essepê, com textos sobre São Paulo, cidade onde morou por 25 anos. Leia mais na entrevista a seguir.

Enio Moraes Júnior – O que significa para o jornalismo dos EUA a saída de Trump e a chegada de Biden à Casa Branca?

Adriana Manfredini – Os últimos meses do governo Trump foram marcados por crises e instabilidade política, culminando no episódio da invasão do Capitólio, em 6 de janeiro. Essa situação mobilizou um grande esforço de cobertura jornalística. Após a posse de Joe Biden, em 20 de janeiro, veio uma certa calmaria. Na sequência, veio a queda de audiência, tanto para as emissoras de TV a cabo focadas em notícias, como para os portais dos principais jornais. Esse foi um dos primeiros reflexos sentidos na transição presidencial. Outro efeito, que tem relação com o anterior, é a adaptação da cobertura jornalística sobre a Casa Branca, levando em conta o perfil low-profile de Biden, que é bem diferente do antecessor. A tendência é ver uma cobertura jornalística mais focada na administração presidencial do que na personalidade do presidente.

EMJ – Quais são, atualmente, as questões mais relevantes na mídia dos Estados Unidos? É possível fazer alguma comparação com a imprensa brasileira?

AM – Questões relevantes para a mídia americana e a de outros países, como o Brasil, estão em resgatar a confiança de segmentos da população e combater fake news. Para isso, não bastam apenas uma coluna de jornal, um post em mídia social ou um segmento no noticiário da TV para desmentir boatos. Não há resposta fácil para esse desafio. Vivemos em um mundo polarizado no qual grupos de pessoas se fecham em bolhas praticamente impenetráveis. Como fazer a informação jornalística circular nessas bolhas? Como tentar uma aproximação com o outro que pensa diferente? Como ajudar leitor, ouvinte, espectador a desenvolver senso crítico em relação ao consumo de notícias? O que eu, produtor de conteúdo jornalístico, faço para ajudar no combate às fake news? São perguntas que todo jornalista deveria fazer antes de começar o dia de trabalho em qualquer veículo que seja.

EMJ – Como você avalia a cobertura dos direitos humanos e das minorias no país?

AM – Nesses quatro anos morando aqui, minha percepção é que a cobertura dos direitos humanos e das minorias está melhorando, mas ainda há muito o que explorar. Pautas não faltam, a exemplo da grave crise de imigração na fronteira com o México, a onda de crimes de ódio contra pessoas de origem asiática e de outras etnias, os problemas contemporâneos das tribos indígenas nos Estados Unidos, ou então a questão do racismo sistêmico, que ganhou força e ainda mais relevância desde o ano passado. Completa-se um ano do assassinato de George Floyd agora em maio. Muitos negros morreram antes dele, igualmente vítimas da violência policial. Outros morreram depois, mas a morte de Floyd simboliza um sentimento de basta ao racismo sistêmico. Como isso se reflete na cobertura jornalística? Em pelo menos dois pontos importantes: na ampliação do enfoque das pautas e em mais espaço na mídia para o tema do racismo sistêmico. É possível identificar algumas iniciativas nesse sentido na mídia nacional e também na mídia local. Um exemplo é o programa Facing Race, produzido pela King 5, uma emissora local de TV aberta em Seattle. O propósito do programa, que estreou há menos de um ano, é analisar questões envolvendo raça, justiça social e desigualdade na região dos Estados Unidos onde fica Seattle, Noroeste Pacífico. O primeiro episódio, que é excelente, trata de raça e privilégio. Esse programa de TV é um ótimo exemplo de como o jornalismo local pode produzir conteúdo relevante sobre direitos humanos e minorias. Recentemente, Facing Race foi o vencedor na categoria excelência em cobertura local televisiva em importante premiação que destacou os melhores do jornalismo dos Estados Unidos em 2020.

EMJ – Quando falamos em jornalismo regional e local, nos referimos a muitas peculiaridades das comunidades locais. Como isso funciona no jornalismo norte-americano? Que temas aparecem com mais frequência?

AM – Os Estados Unidos são um país com muitas diferenças regionais, o que se verifica também nos temas da cobertura da mídia local. Vou dar outro exemplo que tem a ver com a região do Noroeste Pacífico, onde a mídia local veicula reportagens sobre nascimentos de filhotes de orcas avistadas na região. Na primeira vez, achei um exagero, pois são dias e dias vendo e ouvindo essas notícias nos mais variados veículos, nas quais são citados até os nomes que os biólogos dão às famílias das orcas avistadas por aqui. Na segunda vez, já mais ambientada com as peculiaridades da região, comecei a entender o motivo de se noticiar esses nascimentos. A orca é um animal importante no ecossistema da região desde os tempos anteriores à colonização. E o nascimento de um filhote de orca acaba sendo um fato positivo, que repercute depois em outras pautas locais sobre conservacionismo e políticas de proteção ambiental, por exemplo. Acompanhar as pautas de interesse local tem me ajudado a entender melhor a região onde estou morando.

EMJ – Como tem sido a cobertura da pandemia de Covid-19 na mídia do país?

AM – Há quase um ano e meio, a pandemia é assunto diário. A mídia tem feito uma cobertura que é reflexo do próprio desenrolar da pandemia. No primeiro momento, havia muita incerteza, ocorrendo até divulgação de informações conflitantes sobre a necessidade de se usar ou não máscara, por exemplo. Essa confusão também ocorreu no Brasil, segundo soube por meio de amigos. À medida que o número de casos cresceu progressivamente, as pautas se diversificaram. Além das estatísticas diárias e de matérias sobre a doença em si, reportagens sobre a dimensão humana e os efeitos econômicos e sociais da pandemia também começaram a aparecer, tanto com abordagem nacional, como internacional. No momento atual, a vacinação nos Estados Unidos está bem mais avançada em relação a outros países. Então, a cobertura reflete esse momento, com mais matérias relacionadas à vacinação, seja sobre eficácia das vacinas em relação às novas variantes, seja com estatísticas e comparações entre estados, seja sobre aprovação de novas vacinas ou tratamentos.

EMJ — O que você aprendeu durante a sua formação como jornalista na Universidade de São Paulo, no Brasil, há quase 30 anos, está muito distante do modelo de jornalismo que você verifica nos EUA hoje em dia?

AM – O que vi na faculdade foi uma realidade completamente diferente da que encontramos hoje. Na época em que estudei jornalismo na Universidade de São Paulo, no início dos anos 1990, as aulas na graduação ainda eram muito focadas no jornalismo impresso, principalmente jornais. A comparação que farei é apenas com esse segmento de mídia, quase como uma curiosidade histórica. Lembro que, além do rigor da apuração das informações e do trabalho de escrita e reescrita para se obter um bom texto, havia uma preocupação com a estética das páginas diagramadas, principalmente a capa do jornal. Estudávamos primeiras páginas de jornais em sala de aula, vendo bons e maus exemplos da imprensa brasileira. A primeira página tinha que ser esteticamente bonita, com um bom balanceamento de massa de texto e imagem. E mais: as chamadas de capa tinham que ser informativas e sucintas. Eram um resumo do que o leitor encontraria nas páginas internas. Por isso, quase 30 anos depois, ainda levo susto quando vejo as capas de alguns jornais americanos. Aos domingos, leio as edições impressas de um jornal local e de um nacional. Em ambas as primeiras páginas, vejo estilos de diagramação que seriam considerados ultrapassados pelos meus professores de jornalismo daquela época. Um deles é o costume ainda vigente na imprensa americana de começar o texto das matérias principais já na capa. Quando o espaço acaba, o leitor é informado que o texto continua na página X, o que, para mim e para meus antigos professores da graduação, interrompe o fluxo de leitura. Não raro, essa interrupção ocorre no meio de uma frase, e a continuação da frase está na página 20, o que deixa a leitura ainda mais desconfortável e estranha.

Esta entrevista faz parte de uma série sobre jornalismo no mundo, uma iniciativa do pesquisador e jornalista Enio Moraes Júnior, juntamente com o Alterjor — Grupo de Estudos de Jornalismo Popular e Alternativo da Universidade de São Paulo. As entrevistas são originalmente publicadas em inglês no Medium.

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Enio Moraes Júnior é jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Acesse o portfólio do autor: EnioOnLine.