Friday, 12 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

O jornalismo  local de soluções  em Portugal

“As tecnologias tornaram o jornalismo mais presente no dia a dia”, afirma o pesquisador Miguel Crespo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Miguel Crespo é um jornalista, professor e pesquisador português, doutorando em Ciências da Comunicação e mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação pelo Instituto Universitário de Lisboa (IUL).

Crespo coordena o Programa de Mestrado em Gestão de Novos Media e é professor do Programa de Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias, Gestão de Novas Mídias e Estudos de Internet da IUL. Ele também atua como docente da graduação em Jornalismo e em Mídia do IUL, dos programas de graduação em Marketing Digital da Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação (IPAM/IADE), da Escola de Tecnologias, Inovação e Criação (ETIC), e coordena os cursos de Jornalismo Online e Multimídia do Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (Cenjor).

Como pesquisador do CIES-IUL e do OberCom, o Observatório da Comunicação Português, Crespo participa de diversos projetos de pesquisa em Portugal, assim como em outros países. Ele foi jornalista e editor de revistas e sites portugueses e atuou em jornais como Diário de Notícias e Público. A seguir, uma entrevista com ele sobre mídia e jornalismo local.

Enio Moraes Júnior – Tecnologia, mídia e jornalismo digital são importantes temas em suas pesquisas. Como as plataformas digitais mudaram a imprensa nos últimos 20 ou 30 anos?

Miguel Crespo – Há muitas mudanças, algumas boas e outras nem tanto. As tecnologias tornaram o jornalismo mais presente no dia a dia, em todos os lugares e o tempo todo. Para os jornalistas, elas tornaram o trabalho mais fácil, a produção mais rápida e oferecem mais possibilidades e formas de contar uma história com interatividade e novos formatos, ou seja, de vídeos de 360 graus a narrativas multimídia e não lineares. Os jornalistas também se livraram da necessidade de terem contratos com empresas. Hoje em dia, qualquer jornalista pode trabalhar por conta própria, independente (em oposição ao conceito da comunicação de massa do século 20), sem qualquer restrição por parte de instituições, usando todo tipo de plataforma (mídias sociais, YouTube, podcasts etc.) e sendo pago por isso. Ademais, os custos de hardware e software para produzir conteúdo de qualidade profissional caíram para menos de um décimo nas últimas duas décadas. Portanto, vemos reportagens com um nível de criatividade que era impossível encontrar há 20 anos. A parte ruim dessa história fica por conta do negócio do jornalismo. Como a publicidade foi desviada da mídia tradicional para a mídia social e para as plataformas (principalmente o Facebook e o Google), as empresas tradicionais têm menos dinheiro para produzir e investir no jornalismo. Como consequência, muitos meios de comunicação fecharam ou reduziram suas operações e força de trabalho, o que significou produtos de menor qualidade, menos público, menos receita de publicidade. Portanto, o futuro desses veículos não será dos melhores. Mas, por outro lado, há grandes empresas com um alcance global – como o The New York Times ou o The Guardian – crescendo mais do que nunca e muitas startups jornalísticas do mundo todo encontrando nichos, desenvolvendo inovações, em muitos casos, com sustentabilidade financeira.

EMJ – O jornalismo global está usando recursos online e multimídia para produzir informações qualificadas para os cidadãos ou apenas para incrementar os negócios?

MC – Quando falamos de marcas globais, é claro que incrementar os negócios – ou pelo menos mantê-los funcionando como estão – é o principal objetivo. Entretanto, nos últimos 4 ou 5 anos, vimos uma mudança estratégica na mídia, que talvez seja seu maior êxito – em vez de priorizar as notícias e a quantidade, elas passaram a investir em histórias e qualidade aprofundadas, trazendo resultados financeiros mais satisfatórios (como nos exemplos anteriores). Muitas startups de jornalismo têm a mesma estratégia: matérias de qualidade para um público determinado, com objetivos editoriais muito claros e sem medo de assumir uma posição crítica a favor ou contra determinadas questões sociais. Portanto, o que vemos é uma abordagem de jornalismo mais voltada para a qualidade como (provavelmente) um caminho para o futuro do jornalismo (ou para o jornalismo do futuro).

EMJ – Como as plataformas online colaboram com o jornalismo local? Você poderia descrever uma experiência típica em Portugal?

MC – As grandes plataformas internacionais não dão tanto apoio ao jornalismo. Até mesmo as formas de financiamento regular do Facebook ou do Google são apenas uma maneira de dar algumas migalhas em troca da maioria das receitas de publicidade da mídia. Em Portugal, as plataformas globais não fazem nada de especial para ajudar a mídia nacional ou regional, mas o maior portal português (Sapo.pt) hospeda muitas empresas e startups jornalísticas locais e especializadas, oferecendo alcance, visibilidade e todo suporte tecnológico e comercial em troca de 50% da receita de publicidade, o que significa uma ajuda e tanto para projetos pequenos.

EMJ – Muitas iniciativas, como a SJN, assim como muitos autores, conectam o jornalismo local ao jornalismo de soluções. O que você acha disso? Faz sentido no seu país?

MC – Faz todo o sentido. Fiz um artigo sobre startups jornalísticas em Portugal (publicado no Nordic Journal of Media Management) e todos os estudos de caso se encaixam no tema “soluções”, ainda que de formas diferentes. Portanto, isso faz todo o sentido em Portugal e, corro o risco de dizer, em toda sociedade democrática.

EMJ – Como Portugal prepara jornalistas? Existe um lugar para ensinar habilidades de jornalismo local nos programas?

MC – Portugal tem um ensino muito amplo de jornalismo. Temos mais de 30 cursos de graduação em universidades em todo o país, cerca de 50 programas de mestrado em comunicação, a maioria deles, pelo menos, com alguma abordagem jornalística, e todas as principais universidades têm doutorado em Ciências da Comunicação. Além disso, existem muitos cursos de pós-graduação ou cursos profissionais de um ano de duração, além de várias escolas que oferecem treinamento e cursos especializados, dos quais o Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (Cenjor) é o melhor representante. Em muitos deles existem módulos específicos sobre jornalismo local (ou de proximidade) e, mesmo nos cursos que não possuem formalmente essas habilidades, elas estão sempre presentes.

Entrevista realizada originalmente em inglês.

Tradução: Enio Moraes Júnior.

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Enio Moraes Júnior é jornalista e professor. Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017 e escreve no Enio Online.