Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

O #blacklivesmatter, a Globo News e Machado de Assis

(Foto: Arte de @dnegojustino)

O escritor brasileiro mais renomado no globo, o Bruxo do Cosme Velho, escrevera certa vez em um de seus contos que “o presente que se ignora vale o futuro”. Machado de Assis sabia como poucos usar do poder revolucionário da palavra como signo ideológico por excelência, como indicador mais sensível das mudanças sociais, pois o usava com ambiguidade, muitas vezes, para retratar as camadas mais óbvias, apodrecidas da burguesia e até mesmo “imperceptíveis” da sociedade brasileira de sua época.

Contudo, Machado de Assis fez mais que isso: nos legou chaves do entendimento sobre o futuro, ou seja, sobre nosso presente. E nosso presente anda recheado de marcas de uma sociedade ainda presa ao racismo, ainda mais depois das últimas semanas preenchidas por lutas antirracistas no mundo todo¹.

Machado de Assis voltou ao topo dos assuntos, já que teve esgotados todos os exemplares da mais nova tradução de seu clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)². Todos os estoques da obra estão esgotados até mesmo na virtual Amazon. A revista New Yorker chegou a fazer a seguinte chamada “Um dos livros mais sarcásticos já escritos”³.  O sucesso de Machado não é de hoje, mas o ressurgimento de sua obra neste momento de lutas é histórico e marco de um antifascismo literário.

Machado de Assis, escritor negro, tinha uma consciência racial privilegiada, talvez por isso tenha montado sua “estratégia de caramujo”⁴ para sobreviver às opressões de uma sociedade escravocrata, por isso usava a palavra como parte dessa estratégia de vida, de sobrevivência, de legado. Usava a palavra literária para descrever os universais de um tempo, por meio dos gestos, trejeitos, intimidades psicológicas e/ou psicopatologias da apodrecida elite fluminense e da capital do império. Grandes personagens não faltam como exemplo: Brás Cubas é um dos bons exemplos do espectro burguês que vive de reproduções patriarcais, patrimonialistas, mandonistas, escravocratas, imediatista e consumistas. Afinal, Brás teve uma prostituta como primeiro amor, Prudêncio como mula da carga, o Humanitismo de Quincas Borba como desculpa filosófica fajuta, Virgília como amante e o emplastro como finalidade e busca por mero status. Brás Cubas é o exemplar típico e superficial que não valeria uma nota futura. Foi enterrado por 11 amigos, mas ainda é um espectro vivo na sociedade brasileira.

Aqui está, portanto, uma das marcas de consciência privilegiada do Bruxo do Cosme Velho: o escritor faleceu, mas nos deixou os universais de uma sociedade que precisa enterrar por inteiro o fantasma escravocrata de Brás Cubas.

Pelo mundo, reverberaram questões raciais gritantes que mexem com o passado brasileiro, ainda mais depois da morte do negro estadunidense George Floyd, em Minneapolis, pelas mãos de quatro policiais brancos, ou das mortes de jovens negros nas periferias brasileiras, como João Pedro, menino de 14 anos morto em uma operação policial enquanto brincava com os primos em casa, ou a alarmante morte de Miguel, criança que caiu do 9º andar das Torres Gêmeas, em Recife⁵. Poderia ser coincidência, mas o fato é que todas as vítimas eram negras.

As redes também se movimentaram. Não podemos ignorar a relevância das redes sociais, das hashtags, das mobilizações virtuais, pois elas são também a realidade. Embora tenhamos que ver o que elas realmente trazem de sintomas e apontamentos sobre o nosso presente. Por exemplo, na terça-feira, 02 de junho de 2020, parecia que todos os perfis (feed) do instagram de nossos amigos e conhecidos tinham aderido ao #blackouttuesday (apagão de terça, em tradução simples), que foi uma mobilização iniciada para denunciar pelas redes socais a estética racista em nossa civilização global⁶.

Porém, as redes podem enganar. As bolhas virtuais, condicionadas por algoritmos, podem nos levar a crer em um mundo bom ou em intensa transformação, mas números revelam que, no Instagram, cerca de 28,9 milhões de contas usaram a hashtag (#blackouttuesday), enquanto a rede tem 1 bilhão de usuários, ou seja, se você publicou uma foto preta no seu perfil do Instagram na última terça, você representa apenas 3% dos que fizeram a mesma coisa. A mobilização pode ser bem mais que isso? Pode. No entanto os números acima também dizem como podemos nos iludir sobre a sociedade.

O que não há como negar é a força dos novos movimentos. Principalmente por estarem lotando as ruas no mundo todo, a partir de outra hashtag muito mais conhecida e que mobiliza milhões ou bilhões pelo mundo, que é a #blacklivesmatter (Vidas Negras Importam), nascida nos EUA, durante a gestão do primeiro presidente negro estadunidense, Barack Obama, e que hoje movimenta muito do cinema, da estética e dos compromissos, virando pauta central na Indústria Cultural, por exemplo, com filmes⁷, livros, séries, programas de TV⁸.

A Indústria Cultural pegou essa pauta do racismo como prioridade, o que não é suficiente. Por isso as redes sociais e as mídias interativas, andam tendo um papel cada vez mais crucial no movimento das pautas televisivas. Na última quarta-feira, 03 de junho de 2020, o telejornal da Globo News, em resposta a sua equivocada e insensível postura do dia anterior, em que sua bancada de jornalistas que discutiam as repercussões do #blacklivesmatter eram todos brancos, colocou 6 jornalistas negros como pedido de desculpas⁹. Mas o estrago já tinha sido feito: o racismo estrutural ficou escancarado na tela, nos lares, nas redes. A Globo News pediu as devidas escusas aos telespectadores e agradeceu a todos e todas que fizeram críticas à emissora. Há pontos louváveis neste acontecimento, como o reconhecimento do racismo. É um primeiro passo. Ou o pedido histórico de desculpas. É um segundo passo. Ou a força das redes sociais em lutas sociais. Outro bom passo. Porém, tudo isso deixou explícito o presente ignorado no passado, e que agora é o nosso (presente).

Machado de Assis estava correto, em todas as suas sutis colocações e escritos como literato. Talvez por isso esteja em voga entre os leitores de língua inglesa e das lutas antirracistas. O presente que ignoramos pode valer o futuro de tantos outros, de como irão viver, de como irão sonhar, de como irão morrer.

A luta atual em nossa civilização global é antifascista, é anti-necropolítica. O #blacklivesmatter é um sintoma forte dessa luta, assim como o movimento antifascista das torcidas organizadas no Brasil, que vem lotando cada vez mais as ruas do país¹⁰. Nosso presente, definitivamente, vale o futuro, por isso cada dia mais vemos pessoas, negras e brancas, não os ignorando (pois ambos são o nosso tempo).

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Referências

¹ https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/06/06/protestos-espalhados-pelo-mundo-apoiam-movimento-black-lives-matter.ghtml

² https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/06/05/O-lan%C3%A7amento-de-Br%C3%A1s-Cubas-nos-EUA.-E-outros-cl%C3%A1ssicos-no-exterior?utm_medium=Social&utm_campaign=Echobox&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR1LI46ep9KvQ0c_E5w2WS1M8aIlhfD4GJbEnCvPSBbX-7qX9er17JKikow#Echobox=1591392823

³ https://www.newyorker.com/books/second-read/rediscovering-one-of-the-wittiest-books-ever-written#:~:text=Wit%20leaps%20centuries%20and%20hemispheres,and%20ageless%20books%20ever%20written.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/equidade-racial/da-estrategia-de-caramujo-de-machado-de-assis-ao-racismo-estrutural-black-money-e-a-imprensa-de-resistencia/

https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/06/07/caso-miguel-ele-ta-vivo-ta-viajando-nunca-diga-que-ele-morreu-diz-pai-de-crianca-que-morreu-ao-cair-do-9o-andar.ghtml

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2020/06/02/blackout-tuesday-artistas-e-fas-fazem-apagao-nas-redes-mas-homenagem-atrapalha-ativistas.ghtml

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/equidade-racial/enquanto-bolsonaro-bebe-leite-os-eua-estao-em-chamas/

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/06/movimento-black-lives-matter-nunca-esteve-tao-alinhado-a-industria-cultural.shtml

http://g1.globo.com/globo-news/videos/v/no-em-pauta-jornalistas-relatam-experiencias-com-racismo/8601095/

¹⁰ https://www.youtube.com/watch?v=DjNk_lWR6wo

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Fabrício César de Oliveira é negro, professor, escritor, poeta, tradutor e doutor em Linguística e Filosofia da Linguagem pela Universidade Federal de São Carlos.