Saturday, 02 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Pandemia: racismo estrutural e o silêncio da imprensa

(Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

Chega um momento em que o silêncio é traição.
− Martin Luther King Jr.

Nestes tempos de pandemia, a preocupação com a covid-19 tem feito com que vários especialistas, governantes e jornalistas discutam diariamente, na imprensa, medidas para que o sistema de saúde brasileiro não entre em colapso, visando a diminuição da propagação do vírus e políticas para amparar as famílias atingidas com o isolamento social. No caso desta demanda, não me lembro de ter presenciado tamanha preocupação com a pobreza como está sendo agora. Isso é ótimo, mas tenho ressalvas sobre a maneira pela qual estão conduzindo a discussão. Não há abordagem das questões raciais como elemento fundamental na pobreza da população, sendo que a premissa do debate deveria ser o reconhecimento de que os mais desfavorecidos, economicamente, têm a pele negra. O racismo estrutural atinge frontalmente a maioria da população pobre, destinatária das consequências nefastas durante a pandemia – portanto, o debate que cruza as condições econômicas com a raça não deveria ser silenciado.

O momento é dramático. Nesse sentido, é primordial desenvolver uma nova consciência social, carregada de olhares humanos que reconheçam as mazelas dos negros. Estamos numa situação em que nossos corpos irão ocupar a maioria das valas nos cemitérios do país. Assim sendo, é dever da imprensa amplificar a negligência do Estado no combate ao racismo estrutural, pois a omissão tem permitido a manutenção do privilégio de uma minoria branca, resultando na eliminação dos direitos dos negros. Moramos nas periferias das cidades, ausentes de condições estruturais para cumprir as orientações de higiene como pedem as autoridades de saúde neste período de isolamento social − que, por sinal, tem acarretado outras consequências. Para se ter uma ideia, álcool em gel na periferia é luxo. O racismo estrutural responde pela quantidade monumental de negros ocupando o mercado de trabalho informal, no qual somente temos renda se estivermos trabalhando. No mercado de trabalho formal, estamos na lista de potenciais demitidos com a crise instalada – isso porque somos a classe dos trabalhadores mais explorados. E cabe lembrar que, antes da pandemia, dados do IBGE apontavam que 64% dos desempregados eram negros. Imagine como serão os números depois da pandemia.

Concordamos com as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e as ações promovidas pelos governos no combate à covid-19. Alertamos apenas a imprensa sobre o quanto é importante, no debate público, demonstrar que o racismo criou estruturas discriminatórias, sendo responsável por esses milhares de famintos que pedem socorro. Não basta lançar luz sobre os mais pobres e não reconhecer as raízes da opressão. A sociedade precisa tomar um choque de realidade e fazer uma autoavaliação das próprias práticas racistas. Decerto que, em algum momento, a pandemia será superada e os negros seguirão sobrevivendo com as permanentes dificuldades. Ou plantamos a semente que colocará um fim à seletividade humana em função da cor da pele ou continuaremos sendo uma sociedade que não aprende com a história.

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Ricardo Corrêa é especialista em educação superior.