Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Neymar e o deslumbramento

Na sua alegre adesão aos vencedores e a tudo que lhe pareça superior, nossa mídia esportiva adora incensar o garoto Neymar. Assim, basta o craque dar um drible mais criativo e pipocam nos blogs e colunas neologismos, crônicas derramadas e poesias concretas sobre o feito do jogador. Quando ausente porque bem marcado ou perde um gol feito, como no jogo contra a Inglaterra, silêncio. (Tratamento diferente ao dispensado aos esforçados, como David, que são estigmatizados para o resto da vida).

O deslumbramento é uma atitude de subserviência a tudo que nos pareça mais “elevado”. Considere-se, comparativamente, as imagens de FHC e de Lula na Casa Branca. Os olhos faiscantes de um e a naturalidade do outro. Mas, ah! dirá o tucanato: um é culto e o outro não. Pois vejam o que diz o poeta inglês T.S Eliot sobre o que considera cultura: “Inclui todas as atividades e interesses característicos do povo: o Dia do Derby, a regata de Henley, um torneio de futebol, corrida de cães, o alvo de dardos nas tavernas, o queijo de Wensleydale, a couve cozida aos pedaços, beterrabas ao vinagre, as igrejas góticas do séc. 19, a música de Elgar.” Sob este ponto de vista, nem FHC é tão culto, nem Lula tão inculto.

Dá-se que o deslumbramento não é uma questão de cultura, mesmo a convencional, acadêmica; nem de classe, embora a classe média e os novos ricos sejam mais suscetíveis a ele. Parece ser mais uma questão de caráter. (E a iconografia costuma fazer mais por um estadista que seu conjunto de realizações.)

Valor volátil

O que faz com que Messi resista ao grand monde e mantenha sua nacionalidade argentina para servir à seleção de seu país, mesmo morando desde os 14 anos na Espanha? Algo que não se vê em vários dos jornalistas brasileiros que cobrem partidas da Europa, pois parecem estar em uma espécie de transe hipnótico transcendental quando transmitem e comentam jogos como se fossem do outro mundo. Em qual emissora você prefere assistir ao jogo Brasil x Inglaterra: com Galvão Bueno, que diz com todas a letras que os ingleses são fregueses (ainda que a avassaladora superioridade técnica seja coisa do passado, como ficou provado durante a partida,existe um passado), ou com Luiz Carlos Jr, que parece estar de joelhos rezando no “mítico estádio de Wembley”? (Se deixassem, ele cantaria o “God save the queen” junto com os jogadores, com aquele seu sotaque perfeito.)

Os deslumbrados negam sua identidade: eles queriam pertencer ao primeiromundismo. Negam também sua cultura, de extração mestiça, latino-americana. Não duvidem que torcerão contra a Argentina, numa eventual final contra um país europeu na Copa do Brasil. Não pelos mesmos motivos que o torcedor convencional de seleção brasileira, que ficará contra a Argentina por rivalidade regional, mas porque torcendo para um país europeu o jornalista se sente mais europeu e menos latino-americano. É o mesmo movimento de se aproximar dos ricos e se afastar dos pobres. Isto porque esse tipo de jornalismo só se interessa por hierarquias econômicas. É ela (a economia) que divide o mundo em Primeiro e Terceiro. Culturalmente não se pode hierarquizar (os índios são uma civilização, alertam os antropólogos) e o sucesso comercial é um valor volátil. Como diz este haicai de Borges, que pode ser um excelente antídoto contra deslumbramentos: “Era um império/ Aquela luz que se apaga/ Ou um vagalume?”

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[Silvia Chiabai é jornalista]