Wednesday, 17 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

Presidente da Fifa menosprezou protestos no Brasil

Joseph Blatter, o autocrata da Fifa, declarou ao Estado de S.Paulo (17/6) que “o futebol é mais importante que a insatisfação das pessoas”. O Jornal de Negócios (19/6), de Portugal, também comentou a declaração de Blatter. O presidente da Fifa acusou os manifestantes de usarem o “jogo bonito” para encaminhar seus interesses. Na quinta-feira (20/6), quando o Brasil assistiu, atônito, às maiores manifestações públicas de sua História recente, Simon Jenkins, pelo Guardian (20/6), rebateu com sabedoria a estultice de Blatter:

“A Copa do Mundo é um escândalo em curso administrado pelo intocável chefe da Fifa, Sepp Blatter, à custa de ingressos, propaganda na televisão e histeria futebolística. Tendo sangrado o erário brasileiro em bilhões para novos estádios, ele teve a desfaçatez de apelar aos manifestantes para ‘não usar o futebol para fazer suas demandas ouvidas’. Por que não? Blatter usa o futebol para atender as suas.”

Blatter é um dirigente matreiro e escorregadio como um sapo. Nada parece atingi-lo. Inúmeras acusações apontam para seu gabinete desde a sua posse, em 1998. Há dois anos, o Guardian publicou “uma avalanche de acusações quase engoliu a ele a Fifa”:

“Depois de críticas brutais à caótica corrida para as Copas de 2018 e 2020, que virtualmente atraíram a corrupção com suas regras mal definidas, patrocinadores começaram a exercer pressão, enquanto o caso ISL arrastava-se ao fundo. Depois de anos a parecer como intocável, pensava-se que a Fifa estava a desabar de dentro para fora e iria pelo menos ser forçada a reforma.”

Procedimentos imorais e desonestos

A ISL, empresa franco-suíça de marketing esportivo, ex-parceira da Fifa, era a “responsável por negociações sobre direitos de transmissões de TV para a Copa do Mundo”. A companhia faliu em 2001, com débitos estratosféricos com seus credores. Foram encontrados vestígios de suborno pago a altos representantes da Fifa em troca de sua ajuda em acordos lucrativos com canais de TV, “mais visíveis em territórios sul-americanos”, conforme publicou a BBC Sport (30/4). A informação que um suborno de 1 milhão de libras havia passado pelas mãos de Blatter, em sua primeira eleição para a presidência da organização, foi confirmada, diz o Guardian – (1 milhão de libras esterlinas equivaliam a R$ 3.475.055,00 em 23/6). O dinheiro era destinado a João Havelange.

O patrão suíço da organização vem sobrevivendo a tudo desde que entrou para o órgão, em 1975. Em 2011, no Congresso da Fifa em Zurique, manchetes apareciam a todo o momento nos jornais de esportes acusando o presidente Blatter de compra de votos desde sua primeira eleição para o cargo, publicou a BBC Sport na mesma reportagem que revelou um curioso e suspeito padrão na organização dirigida por ele: seus parceiros acusados de suborno ou outras irregularidades e escândalos acabam em manchetes nos jornais, e terminam por deixar a Fifa. Todos negam qualquer tipo de prática ilegal. Blatter, cercado de todo tipo de acusação e inúmeras suspeitas, segue firme no cargo. Já está em seu quarto mandato. E quer mais.

A Fifa tornou-se uma máquina de fazer dinheiro por meio de procedimentos imorais e desonestos, enquanto Blatter, o vampiro, pouco a pouco renova seu quadro de colaboradores. Ele e seus antecessores transformaram a Fifa em uma desmoralizada e corrupta organização, voltada para captar recursos à custa do sacrifício de países e amantes do futebol. Que ele considera mais importante que as reivindicações do nosso povo por uma vida digna.

Desentendimento entre Ronaldo e Romário

Suas falsas promessa de “legados” aos países que sediam as Copas do Mundo não passam de pura balela. A herança que a última Copa deixou foi o endividamento da África do Sul. A herança das Copas organizadas pela Fifa são armadilhas para tirar dinheiro de povos e países. A Copa do Mundo é apenas um campeonato de futebol. Poderia ser organizada com menos pompa e luxo. Blatter e a Fifa a transformaram numa festa de ostentação e extravagâncias luxuosas impagáveis. O atual presidente da Fifa elitizou a Copa e afastou o povo do futebol das suas copas de ostentação.

A Lei Geral da Copa, assinada pela atual administração brasileira, prevê áreas privilegiadas de comércio de dois quilômetros ao redor dos estádios, “sem prejudicar os estabelecimentos em funcionamento desde que eles não tenham associação com os jogos”. Em outras palavras, “o comércio não poderá fazer publicidade de concorrentes de patrocinadores no entorno dos estádios”, publicou o G1, da Globo (6/6). A Fifa criou currais de vendas para as suas marcas associadas e patrocinadoras. Anulou a concorrência, cancelou temporariamente a soberania de espaços nacionais públicos ao redor das “arenas” e prejudicou interesses comerciais locais de pequeno porte.

Com relação à mídia, “a Fifa é a titular exclusiva de todos os direitos relacionados às imagens, aos sons e às outras formas de expressão dos eventos, incluindo os de explorar, negociar, autorizar e proibir suas transmissões ou retransmissões” diz o artigo 12º da Seção II da Lei. Blatter já garantiu seus lucros para 2014 e não quer que nada atrapalhe seus planos. No domingo (23/6), explodiu na imprensa um desentendimento entre os ex-jogadores Ronaldo, que trabalha para o COL (Comitê de Organização Local) e Romário, forte opositor da Fifa e seus parceiros locais. A discussão envolvia os excessos da Fifa e seus aliados no Brasil para a Copa do próximo ano.

Promessas não cumpridas

Romário, deputado federal pelo PSB, respondeu por intermédio do Portal Terra (23/6) e vários periódicos à insinuação de Ronaldo de que ele “estaria querendo aparecer com as manifestações” – e publicou uma carta aberta, no portal e em outros periódicos, onde denuncia o excessivo poder concedido a Fifa através da Lei Geral da Copa e os gastos para os jogos. Ronaldo já havia se desculpado ao Último Segundo (22/6) por ter dito em 2011 que “Copa não se joga com hospitais”.

Depois de tudo o que vimos e sofremos nesses dias de fúria, espero que as novas gerações de brasileiros não mais se submetam a escravidão do futebol. E que os jovens de origem mais simples possam sair da pobreza por meio da educação, e não apenas do futebol ou outras manifestações folclóricas que o mundo impõe a elas como alternativas para ascensão social. Precisamos rejeitar mais esses estereótipos nocivos ao nosso povo. Precisamos reformar nossa cultura e nossas cabeças e mostrar ao mundo que somos muito mais do que samba, futebol e carnaval. Uma terra de parvos sempre a sorrir, mesmo quando lhes negam os serviços públicos essenciais para uma sobrevivência digna. E contar com governos sempre alertas ao oportunismo das raposas do esporte internacional, que não acabem por atrelar seus projetos para o país a organizações corruptas e desacreditadas como a Fifa por pura cobiça política.

Joseph Blatter acredita que o futebol é mais importante que o bem-estar dos povos porque ganha muito dinheiro com os eventos que a organização maior do futebol mundial organiza. A Fifa tornou-se uma organização tão imoral que até a Transparência Internacional, chamada para colaborar com “reformas” no órgão, desistiu desanimada e sem esperanças de mudanças reais na organização, publicou Simon Jenkins no Guardian (20/6).

O site de esportes Football365 (21/6) fez pontaria certeira para o verdadeiro legado da Copa de Brasil de 2014: as grandes manifestações contra a precariedade de nossos serviços públicos essenciais e os gastos extravagantes para a Copa de Mundo de 2014. O torneio de 2014 entrará para a história do futebol de forma distinta das outras Copas: sua eterna marca será o protesto colossal do povo brasileiro contra promessas há décadas não cumpridas por políticos, a corrupção descarada no Brasil e aos descalabros da Fifa, que transformou o Mundial de futebol numa festa para elites e turistas endinheirados.

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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor