Monday, 26 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

A revolta dos 30 segundos

Deflagrada em meados de junho, a Revolução dos 20 Centavos tomou conta das ruas do Brasil. Celebridades se manifestaram a favor. A imprensa, aparentemente, comprou a briga do #VemPraRua – slogan veiculado primeiramente num comercial – e o assunto foi tema de capa das principais revistas do país. Mas por que acabou? A Veja, como de praxe, cravou o acontecimento como “Os 7 Dias que Mudaram o Brasil”. A Época figurou com uma bandeira rasgada e perguntou onde os protestos iriam parar. A IstoÉ vociferou: “Hoje é você quem manda”. Mas, como na propaganda que inspirou as vozes de protesto, tudo terminou em simbólicos 30 segundos. Nem a mídia resistiu.

Notícias e verdade não são a mesma coisa, dizem Bill Kovach e Tom Rosenstiel no ótimo Os elementos do Jornalismo. No mesmo livro, os autores descrevem que a principal finalidade do jornalismo é fornecer aos cidadãos as informações de que necessitam para serem livres e se autogovernarem. De quem é a culpa se nossa primavera não foi mais que uma leve brisa? O que a Veja, IstoÉ e Época diziam em suas capas era tudo balela? Pois grande prova de que os protestos já “foram” e não “são”, se mostra nas capas atuais das publicações. Veja aparece com críticas a Dilma e à MP dos médicos. Época traz a espionagem norte-americana, enquanto IstoÉ aborda a visita do papa ao Brasil.

O que vimos em junho foi “a manipulação planejada da comunicação visando, pela persuasão, promover comportamentos em benefício do anunciante”. A definição é do livro Propaganda de A a Z, de Rafael Sampaio. Sim, define a propaganda, mas se encaixa perfeitamente para as semanais se trocarmos “anunciante” por “publicação”. Veja, IstoÉ e Época reverberaram interesses próprios ou, numa visão menos crítica, foram ingênuas de tal maneira que remaram com a multidão. Então qual seria a verdade de junho? A reportagem, como a publicidade, precisa de pesquisa, aprofundamento. Capa de revista jornalística não nasceu para ser publicidade. Publicidade não nasceu para ser jornalismo.

Basta que chame a atenção

Dois minutos de Google aos repórteres das semanais teriam evitado a postura de junho, visto que em 2009, revolta semelhante ganhou as ruas do país. O #ForaSarney – que poucos lembram – teve adesão de grandes nomes da mídia, bem como o #VemPraRua. Mas, como a revolta dos 20 centavos, não durou.

Por que não durou? Aliás, por que não dura? Não saberemos se o jornalismo não responder. A corrupção segue. Exemplos? Ministros do STF indicando filhas com pouca experiência para disputa de altos cargos no Judiciário, governador do Rio de Janeiro utilizando helicóptero do Estado para levar família (e o cachorro) para casa de praia, presidente da Câmara usando um avião da FAB para ir à final da Copa das Confederações com a família. Aliás, o pessoal do mensalão continua solto.

O jornalismo está se tornando uma imagem do Facebook que merece o compartilhamento. Ou seja, não é preciso ter muito conteúdo, basta que chame a atenção.

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Leonardo Araujo é jornalista, São Paulo, SP