Tuesday, 23 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Jornalista é demitido por sugerir lei de armas

A assinatura de Dick Metcalf, um dos mais destacados jornalistas defensores de armas de fogo nos Estados Unidos, sumiu da revista Guns & Ammo. Ele não protagoniza mais um popular programa de TV sobre armas. Empresas do setor de armamentos pararam de levá-lo em viagens pelo mundo e de lhe mandar as últimas armas para avaliação.

Em outubro, Metcalf escreveu um artigo que a revista intitulou como “Vamos falar de limites”, no qual analisava a legislação sobre armas. “O fato”, escreveu Metcalf, “é que todos os direitos constitucionais são regulamentados, sempre foram e precisam ser.”

Rapidamente, leitores ameaçaram cancelar suas assinaturas. Ameaças de morte chegaram por e-mail. Seu programa de televisão foi tirado do ar. Apenas alguns dias depois de o artigo ser publicado, disse Metcalf, seu editor ligou avisando que dois grandes fabricantes de armas haviam dito que não poderiam mais fazer negócios com a InterMedia Outdoors, a empresa que publica a Guns & Ammo e coproduz o programa de TV.

Ele foi imediatamente demitido. “Eu sumi, desapareci”, disse Metcalf, de 67 anos, em uma entrevista em seu estande de tiro aqui em Barry, cerca de 160 km ao norte de St. Louis, no Estado do Missouri.

Sua experiência lança uma luz sobre o mundo do jornalismo especializado em armas de fogo, no qual os editores e repórteres dizem haver pouco espaço para nuances no debate sobre a legislação a respeito de armas. Quando os redatores se afastam da visão do direito irrestrito de portar armas, suas publicações – normalmente sob pressão de anunciantes – os excomungam.

“Nós estamos travando uma luta com forças poderosas neste país, que farão de tudo para destruir a Segunda Emenda [a regra constitucional que protege o direito ao porte de armas]”, diz Richard Venola, ex-editor da Guns & Ammo. “O momento para ceder em alguns pontos racionais passou.”

Arrependimento é artigo ter sido curto

Em 2012, Jerry Tsai, editor da revista Recoil, escreveu que a pistola Heckler & Koch MP7A1, projetada para agentes de segurança pública, estava “indisponível para civis, e por uma boa razão”. Ele foi pressionado a deixar o emprego e, apesar de pedir desculpas, não voltou a escrever depois disso.

Em 2007, Jim Zumbo, até então autor de 23 livros sobre caça, escreveu num blog da revista Outdoor Life um post em que insinuava que rifles de estilo militar são armas “terroristas”, e que os caçadores deveriam evitá-las. Seus artigos, programas de TV e contratos publicitários foram rapidamente suspensos.

Garry James, editor sênior da Guns & Ammo, declarou numa entrevista telefônica semanas atrás que seus leitores são o principal interesse da revista e que sua independência editorial não estava em risco. Mas ele acrescentou que “os anunciantes obviamente sempre têm poder, e você sempre sente alguma pressão”. Ele não quis discutir especificamente o caso de Metcalf.

Segundo a versão de Metcalf, ele foi informado de que os anunciantes temiam um boicote de seus clientes aos seus produtos se eles continuassem fazendo propaganda em programas de TV e revistas onde o trabalho dele aparecia.

Dois grandes anunciantes da InterMedia são as fábricas de armas Ruger e Remington Arms Company. O conselheiro-geral da Ruger, Kevin Reid Sr., disse por e-mail que a empresa teve uma reunião com a InterMedia para tratar do artigo, mas foi informada de que “a decisão de romper com o sr. Metcalf já havia sido tomada”. Ele negou que a Ruger tenha pressionado a InterMedia a demitir Metcalf. Um porta-voz da Remington não respondeu ao pedido para comentar o caso.

Editores de revistas especializadas em armas de fogo dizem que seu conteúdo atende aos apaixonados por armas, os quais acreditam que seus direitos estão sob constante ameaça, e às empresas fabricantes, responsáveis pela maior parte de sua receita. Em algumas revistas, diz Jan Libourel, ex-editor da Guns & Ammo Handguns e também da Gun World, “os editores somente querem conteúdo editorial para alguns anunciantes-chave”.

Repórteres e editores dizem que, com frequência, seu material é escrito com base em minuciosas consultas com fabricantes. Se considera que uma arma de fogo é de má qualidade, a revista a envia de volta para melhorias, em vez de escrever uma análise negativa.

Metcalf disse sentir desânimo ao ver que nos EUA o debate sobre a política de armas é tão amargamente polarizado. “Concessão é uma palavra ruim hoje em dia”, disse. “As pessoas pensam que isso significa abandonar seus princípios.” Na coluna que provocou sua demissão, ele escreveu: “A questão é: quando a regulamentação se torna violação?”

Embora seus editores tenham aprovado o artigo antes da publicação, eles depois recuaram. Jim Bequette, editor da Guns & Ammo, pediu desculpas aos 400 mil leitores da revista. Metcalf disse que seu único arrependimento em relação ao artigo é ele ter sido curto demais. “Alguns tópicos você nunca deveria tentar discutir muito brevemente, porque não podem ser tratados assim.”

Ravi Somaiya, do New York Times