Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

A entrevista interrompida

Passava das 15h do dia 16 de abril quando uma equipe de reportagem entrou na recepção de uma delegacia de plantão, em uma área periférica da cidade de Manaus. Era uma visita de rotina, uma busca tradicional por informações para uma possível matéria policial – o que é típico de um sábado à tarde. Depois de pedir informações a um dos atendentes, a equipe abordou um policial que estava no local. Era o comandante de patrulhamento de área da PM, o soldado Euler Barbosa, cuja equipe havia trazido sete homens que haviam sido detidos por suspeita de tráfico de drogas.

Após uma rápida apresentação, a equipe de reportagem pediu informações sobre o caso dos detidos. Foi quando o policial prontamente passava as informações solicitadas que uma interferência o fez baixar o tom de voz e mudar a direção do olhar. Antes claro e objetivo, e com os olhos nos olhos do repórter, concentrados que estavam ambos no que faziam, o policial se calou. A equipe de reportagem, que permanecia atenta às palavras do soldado, nem notou que a interferência – um comunicado pelo sistema de rádio – acabara de relatar que uma policial acabara de morrer. O silêncio do comandante durou exatos cinco segundos, seguido por um murmúrio quase mudo: ‘Só um momento. Uma colega policial faleceu.’

Pouco depois, ele retomou o que fazia e repassou as mesmas informações solicitadas e outras mais, porém ele já não era mais o mesmo. Suas palavras se perdiam na distância do seu olhar. Era como se ele falasse de forma automática, sem pensar direito, pois sua mente parecia não estar mais ali. E não estava. Sua colega de farda, a soldado Suelem Regina Safra Ribeiro, acabara de perder a luta pela vida na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Pronto-Socorro João Lúcio, depois de levar cinco tiros em uma emboscada, há sete dias.

******

Jornalista, escritor e fotógrafo, Manaus, AM