Saturday, 18 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Câncer, infâmia e censura

Nestes últimos dias, jornais impressos, sites e blogs foram tomados por uma onda de indignação manifestada através de cartas, postagens e mensagens com o mote “Lula no SUS”. Isto contrariou a nossa tradição, tão cultivada por “alguns” como o mito do “homem cordial brasileiro” que a tudo perdoa, em particular na morte e na doença.

Assim foi com Ulysses Guimarães e o conhecido “trem da alegria da gráfica do Senado Federal”. Tancredo Neves também foi perdoado pela sua elástica “conciliação” com os membros da ditadura, abrindo as portas do poder a Sarney. A biografia de Itamar Franco apagou o fato de ele ter viabilizado a carreira política de Collor, não esquecendo José Alencar, autor da frase: “Todo mundo que foi à zona, pode ser pai.”

Mas esta explosão de indignação, que poderia ser o gérmen de uma primavera contra a corrupção do atual sistema, foi simplesmente abortada com a volta da censura. Nesta repressão midiática foram parceiros tanto a grande imprensa, como a imprensa-diário-oficial e até mesmo blogs, sites e portais ditos independentes e democráticos. Foi uma volta sem pudores aos tempos da ditadura, quando as revistas masculinas não podiam apresentar fotos de mulheres com os dois seios desnudos – no máximo um deles poderia estar descoberto; nomes como Hélder Câmara não podiam ser escritos, nem falados e assim a imprensa adesista cumpria o protocolo censório.

Simulacro de solução

Esta atitude irresponsável de nossa imprensa lamentavelmente permite, por exemplo, que o seminário internacional “Marco Regulatório da Organização da Sociedade Civil”, que reúne representantes de várias ONGs, seja fechado à imprensa por ordens do secretário geral da presidência Gilberto Carvalho, de modo a evitar mais noticiário sobre o escândalo das ONGs chapa-branca.

E assim, dentro do palavrório grosseiro e chulo, que normalmente permeia a internet, verdades são esquecidas, sendo escamoteados dados importantes sobre o desempenho do SUS – graças à nossa “imprensa complacente” –, como:

** Pelo menos 58 mil pacientes com câncer ficaram sem fazer serviços de radioterapia e outros 80 mil deixaram de fazer cirurgias de câncer no país no ano passado.

** Na radioterapia o índice de não atendidos é de 34% e em cirurgia, de 53%.

** No caso dos procedimentos de quimioterapia, o tempo de espera médio foi de 76,3 dias e apenas 35% dos pacientes foram atendidos com 30 dias (prazo recomendado pelo Ministério da Saúde).

Na radioterapia, o resultado é ainda pior: 113,4 dias de espera e apenas 16% atendidos no primeiro mês.

Lula declarou que o SUS atingiu o máximo de perfeição e o Instituto Nacional do Câncer passou a ser Instituto Nacional do Câncer José Alencar, um simulacro de solução para as incúrias da administração pública.

Reflexão sobre a satisfação popular

Nesta onda censória midiática A Folha de S.Paulo foi mais objetiva, declarando (ver artigo de seu ombudsman em 06 de novembro de 2011):

“Diante dos primeiros posts em tom agressivo a Redação decidiu proibir todos os comentários, a partir de segunda-feira foram liberados, mas passando antes pela moderação.

A Secretaria de Redação explica que censura os posts ‘que quebrem ou incitem à quebra de alguma lei, que incidam em calúnia, injúria ou difamação ou que sejam preconceituosos e racistas’.”

Enquanto isto, Lula continua em campanha eleitoral, começando por “empurrar” seu protegido, atual ministro da Educação, para a prefeitura de São Paulo, e não tendo, neste caso, nenhum pejo em usar os sentimentos de comiseração populares com sua doença de modo a eclipsar as notícias de que 43,9% dos alunos que terminaram o curso fundamental em 2011 não sabem ler e 46,6% não sabem escrever.

Resolvidos estes “probleminhas” de credibilidade, sai por aí falando como um semideus: “Eu vim para a Terra para lutar e melhorar a vida de todos.”

Diante disto, o que dizer?

Deixo, entretanto, duas frases para refletirmos sobre a satisfação popular com os dirigentes públicos:

“Esta revolución… Não se engane… É uma luta dos pobres contra os ricos. Eu era muito pobre antes da revolución e agora sou muito rico. O vilarejo pertence ao general Urbina: as pessoas, as casas, os animais e as almas imortais… Ele, e somente ele, é quem aplica a justiça, de cima para baixo” (de México Insurgente, de John Reed).

“Essa menina já está parecendo uma intelectual. Quanto mais souber, mais infeliz será” (do conto O Espartilho, de Lygia Fagundes Telles, onde a patroa passa a trancar uma estante onde ficavam os dicionários e livros – preocupada com a mania da empregada de consultar o pai-dos-burros).

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[Teócrito Abritta é físico e escritor, Rio de Janeiro, RJ]