Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Cloaca não é fashion

Sempre considerei Augusto Nunes um sub-Reinaldo Azevedo, com a mesma fleuma, mas com uma imaginação menor. Mas tudo bem, vindo de onde vem, torna-se compreensível. Ambos naturalmente e, por vias naturais, são o tipo de profissionais excretados pelo Cloaca News, mas desta vez Nunes se supera ao criticar aquele que faz do ofício denunciar o típico profissional que se aventura nas letras mesmo sem ter intimidade com elas – e, mesmo assim, ousa pela capacidade inata de flexibilizar a coluna quando o objetivo é adular o interesse de quem lhe paga o sustento.

Estou errado? Nunes gasta tempo e verve para desqualificar o sr. Cloaca, não através da argumentação e do contraponto de ideias, mas através do senso estético do sr. Cloaca, incompatível com o estilo Nunes de ver e sentir a moda e seus melindres. Em sua argumentação fashion, Nunes desacerta até nas cores da indumentária do denunciado. Escorrega no padrão e tamanho demonstrando um daltonismo de percepção da realidade característico daqueles cuja vida foi permeada por equívocos tonais, em especial em relação à cor vermelha.

Tal característica estética e de caráter profissional é perfeitamente explicável e compreensível quando dilatamos um pouco a visão e observamos com acuidade sociológica o público de Nunes, de Reinaldo e, por via de consequência, da Veja. Mesmo aquele cujo olho bom é único e indivisível, percebe – e não é novidade – que o leitor funcional de Nunes é outro e organicamente distinto daquele que acompanha o sr. Cloaca em suas manifestações higiênicas sobre a mídia.

Profissional e cliente se completam

Nunes escreve para outro público, daí a sua pretensão estética. Escreve para aqueles que precisam de argumentos para melhor destilar suas frustrações e preconceitos diários e ancestrais. É compreensível, portanto, este estilo daltônico de quem vive para servir. Ambos, colunista e leitores, se retroalimentam, formando um círculo onde apenas se evidencia aquilo que se quer ver ou sentir. Daí, dane-se a argumentação, o contraponto de ideias; quem precisa delas, quando se tem a avacalhação preconceituosa e desmedida?

Mesmo se aventurando, sem lenço e sem documento, pelas paragens da moda na vida mundana, Nunes, mesmo sendo aluno esforçado de outros fashionistas de estilo duvidoso, peca no quesito caráter. Desconhece o colega do Reizinho da Veja que, para algumas pessoas, moda e indumentária são quesitos secundários e não pré-requisitos inerentes, aqueles cuja aparência tenta ‘daltonizar’ a transparência das ideias e intenções. Nunes, no entanto, possui a pertinência dos profissionais que buscam sempre satisfação do cliente, até quando finge desconhecer que, com relação ao sr. Cloaca, o buraco é mais embaixo. Mutatis mutandis, profissional e cliente se completam e vivem a vida a difamar a cloaca alheia sem observar a sua. Afinal, sabemos nós, sabe Nunes e seus patrões da Veja, ‘com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma’.

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Psicólogo, Curitiba, PR