Saturday, 15 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

A iminência do apocalipse

A crise crônica do euro fez saltar aos olhos um aspecto-chave característico da imprensa alemã: a permanente conotação do worst case, expressão usada de forma inflacionária, não só pelos jornais em formato tabloide de letras garrafais. Mesmo que o pior caso nunca chegue – e quando o faz, chega mesmo sem avisar –, fica na percepção de consumidores de notícias o perigo iminente nos âmbitos social e econômico: o euro pode fracassar, a Grécia pode ser obrigada a sair da zona do euro e com isso gerar um efeito dominó seguido pela Espanha e Portugal, e todo o cenário macabro fazer cair a “Casa Europa”, projeto criado na certeza de que com união política e monetária asseguraria, no longo prazo, a prosperidade e a ausência de guerras no velho continente.

A iminência da chegada da fatura anual da calefação (divulgada pelas TVs regionais alemãs, meses antes de realmente chegar à caixa de correios), o iminente perigo de aumento dos custos de eletricidade anunciado recentemente pelo ministro do Meio Ambiente, o perigo de pobreza na velhice lançado na mídia por uma autoridade da área social, fomentando pânico e histeria, são somente alguns exemplos do frenesi pelo pessimismo arraigado na imprensa alemã.

O culto do medo 

A premiê Angela Merkel, em discurso sempre meticulosamente decorado, sabe como ninguém ratificar a importância da permanência da Grécia na zona do euro, numa dialética em formato sine qua non, suscitando a falta de qualquer alternativa a não ser a escolhida por ela.

O programa semanal da apresentadora Maybritt Illner na rede pública ZDF é o único programa político que, além convidados representantes do pró-euro, tem também na mesa de debates os chamados “eurocéticos”, que defendem que a saída da Grécia da zona do euro não teria como consequência o desmoronar da unificação europeia. Essas vozes são de respeitados analistas econômicos, mas estão condenadas a um plano secundário frente ao agressivo discurso dos membros do governo e da própria chanceler, que continua fiel ao seu mantra: “O fracasso do euro é o fracasso da Europa”. Ela não menciona que a eventual saída da Grécia não necessariamente implicaria o fracasso do euro.

Nesse rotineiro culto do medo, não se sabe ao certo quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Será que a mídia espelha o medo existencial crônico da sociedade ou o usa como instrumento para vender jornal e nos fazer dependentes das notícias, como instrumento para se prevenir quando o apocalipse chegar?

Mesmo sendo, de fato, um verdadeiro oásis meio de países vizinhos endividados, os índices econômicos positivos (recorde de exportação, menor índicede trabalhadores adoentados desde a unificação etc.) não contribuíram para uma visão mais otimista no país e muito menos conseguiram adentrar na percepção da população alemã. É isso o que mostra a recente pesquisa “Os grandes medos dos alemães“, realizada pela seguradora R+V e publicada no jornal Welt.

Na pesquisa, o maior índice de medo não é a crise do euro: 63% dos alemães temem o aumento do custo de vida; em segundo lugar vem a incapacidade dos políticos, com 55%; e em terceiro, com 52%, a situação econômica ruim, o que mostra que o medo é pela situação ruim que possa vir, e não reflete a situação econômica atual do país, que mantém uma economia robusta, apesar da crise da moeda. 

A imprensa internacional se refere a esse fenômeno como o “German Angst”, um medo subjetivo e de cunho existencial, ao mesmo tempo desapegado e imune a quaisquer dados positivos.

O cientista político Manfred Schmidt, da Universidade Ruprecht-Karls, na cidade universitária de Heidelberg, explica: ”A ânsia pela estabilidade econômica é um tema-chave para os alemães, muito mais do que para outros países. A causa disso tem também razões históricas: na lembrança viva da hiperinflação dos anos 1920 e na reforma econômica de 1948. A conscientização que medidas desse calibre podem destruir a vida de pessoas de renda baixa e média está profundamente arraigada na memória do país”.

Oportunismo midiático

Nem mesmo a até então respeitada revista Spiegel conseguiu resistir ao formato tendencioso instigante do medo. Um exemplo: o índice de exportação da Alemanha vinha batendo recordes ininterruptos nos últimos meses. No início de julho, o percentual não aumentou, mas ficou estável. Isso resultou numa manchete com foto de inúmeros contêineres empilhados: “Fundo Monetário Internacional adverte: a Alemanha com possibilidade de tempos cinzentos” (tradução livre, ver aqui).

Também no contexto do ESM, mecanismo estabilizador europeu, Spiegel se mostra em cima do muro, levando ainda mais insegurança aos leitores. Em uma matéria, a revista critica, noutra (por vezes no mesmo dia), elogia. A decisão da corte jurídica da cidade de Karlsruhe, na quarta-feira (12/9), atestando a constitucionalidade do ESM, também foi foco das pautas do site da Spiegel, que num período de duas horas publicou matérias de opiniões antagônicas sobre a decisão, o que resultou numa “menção honrosa” no programa de sátira política de maior audiência do país, o heute show, na TV pública ZDF, que tem como âncora, o comediante e comentarista de futebol Oliver Welke.

“Eu já não entendo mais nada. Mesmo que durante todo o dia eu leia Spiegel Online, uma hora está lá: ‘O euro está salvo’; cinco minutos depois, “O euro foi pro beleléu…”; “Decisão da corte suprema é boa!”; “Decisão da corte suprema é uma porcaria”. Qual é, afinal?” (ver aqui).

Uma luz no fim do túnel

Em debate com seus antecessores Richard von Weizsäcker e Roman Herzog sob o mote “Nossa democracia – Da república de Bonn a Berlim”, no jardim do palácio presidencial no domingo (9/9), perguntado sobre a crise do euro, o atual presidente Joachim Gauck, no tom conciliador de praxe, declarou: “Nunca existiu uma crise financeira tão grave quanto a que estamos vivenciando. Existem, sim, inseguranças, mas vamos enfrentá-las com consciência, discutir sem histeria e muito menos sem a ideia de que estamos à beira do abismo, o que de fato, não acontece”.

***

[Fátima Lacerda é jornalista freelance, formada em Letras, RJ, e gestão cultural em Berlim, onde está radicada desde 1988]