Monday, 20 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Entre a imagem e a vida, fique com esta

Pode parecer discurso pautado para “chorar o leite derramado”, mas o que aconteceu no Rio de Janeiro no domingo (6/11) não passa despercebido. Concordo. É demasiadamente simples e cômodo abordar qualquer situação depois que acontece. É comum se amparar no já consumado para ofertar frases feitas, os velhos clichês moralistas e a voz da autoridade incontestável bradando: “Eu não disse?” Como aqueles que torcem pelo errado para que se confirmem as piores profecias. Só que quando o deslize vem, mas sem ônus de vítimas ou sustos, são raros os que se colocam a pronunciar-se diante do êxito aparente. Se tudo parece dar certo, mas a ação em si deveria inexistir, há que se ponderar.

Antes de passar pelo que ocorreu com o repórter cinematográfico Gelson Domingos, da TV Bandeirantes, lembremos do que aqui foi falado sobre a invasão ao Morro do Alemão, em fins de 2010. A comoção foi enorme, plantou-se bandeira brasileira no pico, lembrando a pieguice patriótica americana, só que com um agravante: eles são patriotas. Nós, não. É como o hino brasileiro prestar e ser cantado em jogos da seleção, e nunca mais. Quando tudo pedia o enaltecimento, esta coluna foi prudente.

Seja na empreendida de sucesso de 2010 ou no desastroso resultado obtido este ano, um veículo de comunicação minimamente responsável não conduziria um profissional à roleta russa. O que a Band fez e todas as emissoras de massa fazem chama-se “cumplicidade criminosa”, e nada de faces e reações chocadas, por favor. Qualquer eufemismo agora seria aliviar alguém de forma desnecessária. A notícia cega muitos dos envolvidos com o jornalismo. Mas na balança entre função social e interesses empresariais, o último parece despontar soberano. Isto é, que se faça a imagem ou registre o depoimento, esteja a situação caótica ou não. Mas normalmente quem manda não corre os riscos de quem é mandado e passa a ser negligência não mensurar a enrascada em que o outro se pode meter.

Mais atrapalhar do que contribuir

O que aconteceu ali teve uma única meta: captar cenas exclusivas. Para quê? Em um fogo cruzado, não há notícia. Existe mais cinema, ficção, do que qualquer outra coisa. É muito impacto e pouca informação, a tentativa desmedida de transformar a realidade em ficção, justamente o caminho oposto feito pela indústria cinematográfica, que se apropria de uma encenação e anseia dar traços de veracidade àquilo. Mas os filmes mexem com a emoção do público, visto que tudo não passa de persona. No caso do jornalismo, deveria haver mais racionalidade – não só – e cuidado com o que se publica e de que forma isso é feito. Questiona-se não a reportagem carregada de sentimento, mas sim, o material ser produzido em prol da audiência, e pronto.

Independente de quem o faça, para subir o morro são necessárias estratégia e técnica, algo que nem policiais militares dominam completamente. Você acha que jornalistas estão aptos a isso? Os profissionais dessa área não são treinados, e nem devem, já que o seu trabalho, nessa situação específica, é outro: transmitir a informação sobre a invasão da polícia depois de ter o local totalmente dominado e pacificado. Dá na mesma e os riscos são quase nulos.

Só que se alguém completamente incapaz sobe o morro debaixo de tiros é porque o chefe não tem zelo algum pelo seu funcionário e também porque houve permissão da polícia. Eu penso: “Se fosse policial, a última coisa que eu gostaria de ter junto a mim, em meio a uma operação tão arriscada, é alguém inexperiente, de outra profissão, muitas vezes me atrapalhando, podendo me tornar responsável por algo de errado que aconteça a ele.” A probabilidade de algum problema surgir é tão evidente que o risco não compensa. Bastava à polícia vetar o jornalista, assim como deveria fazer em casos de sequestros e homicídios, por exemplo. Há uma forte tendência de mais atrapalhar do que contribuir.

O menor culpado

É claro que há o profissional de imprensa que sempre sonhou em cobrir uma guerra ou ocorrências semelhantes. Nesses casos, mesmo assumindo o risco, é obrigação da polícia e da empresa para a qual trabalha zelar pela sua integridade, posto que ele possivelmente não tenha a dimensão total do que irá enfrentar. Em último caso, que se criem condições adequadas para o enfrentamento de perigo pleno – se é que isso é possível –, coisa que a Bandeirantes não fez: o colete usado pelo cinegrafista não barrava tiro de fuzil. Só o Bope e a Globo têm coletes apropriados contra esse tipo de projétil. Nem a PM tem. Em cenário de guerra como são corriqueiros em certas regiões do país, a polícia convencional não tem preparo suficiente. É óbvio que bem poucos jornalistas terão. A Band sabia que os seus não tinham.

Agora, se mesmo diante de condições profissionais adversas são enviados para o meio do fogo cruzado, é porque tem dono de mídia que sabe a força de uma imagem impactante diante da audiência. Sejamos honestos: a sociedade adora sangue. Ela também quer que o filme se torne verdade porque mais anestesiante, sacia o que há de mais primitivo em qualquer ser humano, a ponto do público se assustar com os tiros, mas não refletir sobre o perigo que aquilo leva aos profissionais envolvidos e aos civis que entornam o local. O efeito catártico o torna omisso e culpado: “Já que não é comigo, como não sou eu lá, fico mais tranquilo.”

Esses infortúnios, os contratempos, poderiam ser o ponto de partida para aquilo que impulsiona os trabalhadores a se unirem: a busca por melhorias nas suas condições trabalhistas e a exata definição do que é obrigação fazer. Enquanto outro companheiro da emissora concorrente se prestar à exposição exagerada, fica mais difícil se recusar e não sofrer repreensão ou ser demitido por justa causa. A desunião da classe torna mais fraca qualquer manifestação que contraponha as vontades dos mandatários.

Quanto mais a Band profere o discurso do bom-mocismo, lamentando a morte do seu empregado e exaltando a coragem e a gana pelo próprio trabalho, ela se distancia do mea culpa e continuará a fazer o mesmo. As demais emissoras exploram o caráter de pena, insistem em mostrar as últimas imagens feitas pelo cinegrafista, mas também não deixarão de submeter um subordinado à cova dos leões. Quando isso acontecer, havendo morte ou não, o menor culpado será o bandido com a arma na mão e o dedo no gatilho. O criminoso, tão execrado, nivela-se aos omissos e ativos que legitimam o que deveriam incondicionalmente vetar.

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[Thiago Cury Luizé jornalista e mestre em Comunicação