Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Ética não é ‘ladainha’

Como acadêmico de Jornalismo, já ouvi algumas bobagens tanto por parte de colegas que ainda não sabem ao certo o que faz um jornalista, como de alguns indivíduos que se intitulam educadores (quando na verdade só entram na academia para formar novos agentes do neoliberalismo). Mas o que eu ouvi de um ‘estudante’ em um debate universitário sobre ética na profissão de Jornalismo foi de revirar o estômago: ‘Já ouvi muito essa musiquinha: `Tem que ser ético, tem que ser ético´, mas isso não passa de uma grande ladainha.’

Ética, ladainha? Pobre Sócrates! Eu até concordo que o termo imparcialidade no jornalismo – tal qual foi preconcebido – seja uma grande e ingênua utopia, já que tudo o que fazemos (e escrevemos) é composto por fragmentos de juízos de valor, princípios, ideologia… mas ética? Chega a ser inacreditável o grau de inversão de valores que toma conta de algumas pessoas.

Ética deveria ser algo inerente à educação e formação pessoal – um elemento básico nas relações humanas, já que ajuda a traçar as linhas fundamentais da vida, da razão e do dever, do certo e do errado, do bem e do mal… Ou seja, um conjunto de ‘regras de conduta’ consideradas universalmente válidas. A ética não depende (ou não deveria depender) da ideologia ou da bandeira que cada um carrega.

A busca do papel-moeda

O termo, ao contrário do que pregam os ‘relativistas a qualquer custo’ (que também podem ser chamados de ‘em cima do muro a qualquer custo’), não é sujeito a interpretações, sejam elas vagas, circunstanciais ou potencialmente filosofais; ele parte do pressuposto básico da linha de ação individual pautada pela verdade e pela justiça, independente das cores, dos credos e outros elementos que definem a forma pela qual cada indivíduo apreende o mundo.

É lógico que existem ‘n’ matrizes de pensamento que poderiam vir a bradar: ‘De qual verdade você fala?’. Talvez este termo, sim, seja passivo de interpretações… Mas para ser mais restrito e até cirúrgico quando do tema ética, pensemos da seguinte forma: para agir sob o prisma ético, basta pensar em como não prejudicar as pessoas; em como ser o mais ‘correto’ possível. No caso dos jornalistas, agir em prol da sociedade como um todo – ou a maior parte dela. Simples assim. Nada de ‘e se isso’ ou ‘e se aquilo’. Ética é assim mesmo: simples, coerente, irredutível e absurdamente intransigente. E ponto final.

O que acontece é que a ‘ética’ (assim mesmo, entre aspas) de muita gente – e de muitos jornalistas – é volátil, viscosa, abstrata; ela varia conforme as circunstâncias. É a chamada ‘ética de bolso’ ou ‘ética de mercado’. Falando nisso, alguém aí sabe a definição de mercado? Deixando os termos em ‘economês’ de lado, mercado pode ser definido como uma arena imaginária em que as pessoas são despidas de dignidade para se digladiarem entre si em busca de papel-moeda. Essa é a verdadeira definição capitalista para o termo.

‘Sem fim e sem finalidade’

Sendo assim, pautadas nesse sentido torpe, cíclico e desumano, algumas pessoas – como talvez o que disse que ‘ética é ladainha’ – se contentam em ser mais uma engrenagem do sistema e se comportar como porcos apenas porque o mundo está repleto de lama. Ora, é bem mais fácil se deixar levar pela correnteza a nadar contra ela; é mais fácil aceitar as imposições do mercado e se calar diante da verdade – tudo por uns bons trocados.

Se ainda longe do tal mercado, onde tudo parece ser possível em nome dos ganhos imediatos e mesquinhos, alguns aspirantes a jornalistas já agem de tal forma, imagine quando estiverem com os canudos nas mãos! Lá estarão eles, sisudos, com os narizes empinados e fazendo parte do jogo simulado que o filósofo francês Jean Baudrillard bem definiu com a seguinte frase: ‘O sistema gira desse modo, sem fim e sem finalidade.’

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Estudante do 6º período de Jornalismo, Manaus, AM