Sunday, 21 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Novo round na guerra santa

Qualquer guerra é perversa, mas a guerra em nome de Deus é coisa do Diabo. Denunciar as eventuais falcatruas dos líderes de uma seita religiosa é uma obrigação das autoridades, também da imprensa, mas é impiedoso ignorar as convicções dos seus fiéis.


Na terça-feira (11/8), a Folha de S.Paulo noticiou com grande destaque: ‘Universal é acusada de lavar dinheiro’. A pedido do Ministério Público de São Paulo, a Justiça abriu na véspera uma ação criminal por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha contra dez dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), entre eles o seu dirigente máximo, bispo Edir Macedo.


A IURD, enquanto confissão religiosa, não estava sendo denunciada, nem os seus oito milhões de devotos e crentes – a manchete da Folha foi formulada de maneira preconceituosa. Naquela mesma noite, o Jornal Nacional da TV Globo dedicou 11 minutos – na TV, uma eternidade! – à repercussão do noticiário daquela manhã.


Da quarta-feira (12/8) até domingo (16), toda a grande mídia aderiu com gosto ao pesado bombardeio contra o bispo Macedo e o seu conglomerado que inclui 23 emissoras de TV, entre elas a Rede Record, 78 rádios (próprias e arrendadas), três jornais e outras 16 empresas em diversos segmentos.


Não é a primeira vez que o grupo empresarial é alvo de investigações relacionadas com o recolhimento dos dízimos pagos pelos fiéis e indevidamente embolsados por Edir Macedo e seus parceiros, a maioria destacados dirigentes da Igreja Universal. Mas aqueles que freqüentam os templos, participam dos cultos e seguem a sua Teologia da Prosperidade não deveriam ser misturados às supostas trapaças de seus sacerdotes.


É preciso não esquecer que o grupo ligado à Igreja Universal criou um partido, o PRB (Partido Republicano Brasileiro; antes chamava-se PMR), cujo membro mais destacado é o vice-presidente da República, José Alencar. O PRB faz parte da base aliada do governo e todas as suas concessões de radiodifusão são tão legais – ou tão ilegais – quanto a maioria das outras. A religião é o ópio do povo, mas Karl Marx ao criar a máxima não diferenciou os credos.


Sem transparência


A ofensiva contra a Igreja Universal do Reino de Deus não parece espontânea, sugere alguns indícios de orquestração. É certo que as evidências são gritantes, parece irrepreensível o trabalho investigativo do Ministério Público baseado na quebra do sigilo fiscal e bancário dos envolvidos. O que causa alguma estranheza é a rapidez da formação da bola de neve midiática.


A Folha tinha legitimas razões para vingar-se das 107 ações quase simultâneas impetradas por fieis da Universal contra um primoroso levantamento conduzido pela repórter Elvira Lobato


Os grupos Globo e Edir Macedo são inimigos históricos, seus conflitos transcendem o âmbito empresarial e situam-se também no explosivo terreno religioso. Mas o resto da veiculação foi com muita sede ao pote: não levou em conta os interesses dos anunciantes e do próprio público, ambos interessados em manter o atual leque de opções. E arrogantemente desconsiderou o enorme rebanho evangélico ao qual não foi oferecida qualquer compensação informativa, como se os oito milhões de crentes não importassem já que não lêem jornalões, revistões e a mídia nacional.


A criação de um escândalo alternativo ao de José Sarney convém a muitos grupos políticos. E, como sabemos, a mídia não consegue manter duas ofensivas simultâneas. O caso de Edir Macedo tem mais apelo popular.


Não estão claras também as razões da recente e surpreendente reviravolta da mídia no tocante à concordata do Estado brasileiro com o Vaticano. Os jornalões acumpliciaram-se com o governo no fim do ano passado e disfarçaram todos os indícios de um tratado com a Santa Sé – na realidade, um convênio preferencial com a Igreja Católica. Na ocasião este Observatório esperneou [ver ‘Omissão da mídia sobre o acordo com o Vaticano‘ e ‘Acordo por debaixo dos panos‘]. Agora, um a um, os veículos começam a interessar-se pela questão do Estado secular como se nada tivesse acontecido em Roma em novembro de 2008.


Nossa mídia não consegue ser transparente. Mesmo quando trilha os insondáveis caminhos da fé.