Tuesday, 23 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

NYT vaza outro programa de espionagem dos EUA

O governo dos EUA até tentou, mas não conseguiu convencer o New York Times a desistir de publicar matéria sobre um programa de espionagem que rastreou transações financeiras internacionais de milhares de pessoas em busca de informações sobre o financiamento de atividades terroristas. Na quinta-feira (22/6), a notícia já estava estampada no sítio do jornal e, nesta sexta (23/6), apareceu na edição impressa. Também na sexta-feira, os jornais Los Angeles Times e Wall Street Journal publicaram artigos sobre a operação de espionagem comandada pela CIA. O Departamento do Tesouro confirmou a existência do programa.


Os autores da matéria do NYTimes, James Risen e Eric Lichblau, são os mesmos jornalistas que escreveram sobre o programa de vigilância doméstica da Agência de Segurança Nacional (ASN) – em artigo publicado em dezembro do ano passado e ganhador do prêmio Pulitzer. Na ocasião, o governo federal também pediu para que o programa de rastreamento de ligações entre os EUA e países estrangeiros não fosse revelado e o NYTimes chegou a adiar a publicação da história por um ano.


Antiterrorismo


O programa revelado esta semana ao público pelo NYTimes foi lançado após os atentados terroristas de 11/9/01 e utiliza registros fornecidos pela Sociedade Mundial de Telecomunicações Financeiras Interbancárias (Swift, sigla em inglês), consórcio belga que concentra grande parte do tráfego de informações da indústria bancária global. O jornalão nova-iorquino informou que o programa tem como objetivo traçar as transações bancárias de suspeitos de ligação com o grupo terrorista al-Qaeda e que a maior parte das transações financeiras realizadas dentro do país não está no banco de dados da Swift. O NYTimes revelou também que o programa teria auxiliado na captura na Tailândia, em 2003, de Riduan Isamuddin, membro do alto escalão da al-Qaeda.


Pedido em vão


A Casa Branca não ficou satisfeita com a publicação da matéria. ‘Sabemos que os terroristas prestam atenção em nossa estratégia de lutar contra eles, e agora eles têm uma outra peça do quebra-cabeça que revela como nós os estamos combatendo’, afirmou Dana Perino, porta-voz adjunta da Casa Branca. ‘Nós também sabemos que eles adaptam seus métodos, o que aumenta o desafio dos funcionários das nossas agências de inteligência’. Dana foi ainda mais enfática. ‘O presidente está preocupado com o fato de que mais uma vez o NYTimes escolheu expor um programa secreto que existe para proteger nossos cidadãos’.


Defesa


Segundo a matéria do jornalão, a Casa Branca havia pedido que a história não fosse publicada. ‘O governo não manteve em segredo sua campanha para interromper o financiamento dos terroristas, e o presidente Bush e os funcionários do Departamento do Tesouro falaram publicamente destes esforços’, explicam os autores do texto os motivos pelos quais o diário decidiu divulgar a informação.


Segundo Bill Keller, editor-executivo do NYTimes, os argumentos do governo foram considerados de modo sério e respeitoso. ‘Mas nós ainda estamos convictos de que o acesso extraordinário do governo ao vasto conteúdo de informações de transações financeiras internacionais, embora seja feito de maneira cautelosa, é um assunto de interesse público’, defendeu.


Acusações criminais


Com a publicação da matéria, o debate sobre a divulgação de informações secretas do governo esquentou. Gabriel Shoenfeld, um dos advogados que acusa criminalmente o NYTimes pelo artigo de dezembro de 2005 sobre os grampos da ASN, alegou que o jornal está se comportando ‘como se nós estivéssemos no meio da Segunda Guerra Mundial e ele tivesse descoberto planos de invadir a Normandia. Como eles decidiram que é um assunto de interesse público, eles decidiram publicar’. Informações da Editor & Publisher [22/6/06] e de Josh Gerstein [The New York Sun, 23/6/06].