Monday, 04 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

O ano novo que não começou

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Feliz ano para jornalistas como Ruy Castro, que escreveu na Folha de S.Paulo de 10/01/21 o artigo Saída para Trump: Matar-se e acrescentou “se Trump optar pelo suicídio, Bolsonaro deveria imitá-lo… nenhum minuto sem Bolsonaro será cedo demais”. O ministro da Justiça pediu abertura de inquérito contra Ruy para saber por que ele quer matar Bolsonaro. Surpreso, o jornalista e escritor responde, “perguntar a mim? Perguntem a um psiquiatra”.

Feliz ano para o jornalista Helio Schwartsman, que na Folha (7/7/20) escreveu Porque Torço para que Bolsonaro Morra e o mesmo André Mendonça tentou enquadrá-lo na lei de Segurança Nacional mas foi barrado pelo STF.

Feliz ano para a imprensa ameaçada com Atos Institucionais do tempo da ditadura. Inclui os que integram o relatório dos “formadores de opinião” como Luis Nassif, Emir Sader e Guga Chakra, os cartunistas Renato Aroeira e Ricardo Noblat, que divulgou primeiro a charge e agora o artigo do Ruy.

Feliz ano para essa “raça em extinção” segundo Bolsonaro, “acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama”.

Feliz ano para quem tem à frente do Ministério da Saúde um especialista em logística para os 8 milhões infectados pela Covid-19, o general Pazuello, que declarou “os meios de comunicação não têm atribuição de interpretar os fatos”.

Feliz ano para os que pensam, escrevem, denunciam, investigam no país onde “um manda e o outro obedece” e o que manda já disse a um jornalista “minha vontade é encher tua boca com uma porrada”.

Feliz ano para quem tem Damares Alves à frente do Ministério dos Direitos Humanos que, para evitar a imprensa bisbilhoteira, só divulga sua agenda depois que os compromissos ocorreram e aí, já era.

Feliz ano para as mulheres que multiplicam casos de feminicídio, assédio, estupro, violência sexual e têm Damares como sua Ministra.

Feliz ano se virmos a cara de Damares diante da escultura da artista plástica Juliana Notari, que esculpiu uma vulva ferida e vermelha, gigante, com 33 metros de altura, 16 de largura e 6 de profundidade, no alto de uma montanha a 130 km de Recife.

Feliz ano se conseguirmos ver a profecia de Ruy e Hélio se concretizar na onda do que Janio de Freitas escreveu na Folha (10/1/21) sobre Trump, “maluco por maluco, o nosso é muito mais”.

Feliz ano que ecoa a promessa do presidente “em 2022 vai ser a mesma coisa” sobre a horda que invadiu o Capitólio e apoia arruaceiros como aquele de corpo pintado e chapéu de pele com chifres sentado na cadeira do presidente do Senado americano.

Feliz ano com Bolsonaro tentando zerar importação de armas, golpes pairando no ar com tentativas de manipular o Artigo 142 que estabelece “poderes constitucionais” às Forças Armadas destinadas à defesa da pátria para garantir lei e ordem — sob “autoridade suprema do presidente”.

Feliz ano com 200 mil soterrados sob o “mito” que se diz “Messias” mas não faz milagres, num país “de maricas” onde inventamos a vacina partidária. “Vão morrer, e daí?”.

Feliz ano com agricultores invadindo as terras indígenas, a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado destruídos ao som de “a floresta é úmida e não propaga fogo”, “é mentira que arde”, “o boi é bombeiro”, e a boiada passando…

Feliz ano com um presidente que declara “o país está falido mas não posso fazer nada”, um país isolado com Ernesto Araújo repetindo Olavo de Carvalho na “fraude” da derrota de Trump contra a elite “comunotecnobilionária”.

Feliz ano com o chanceler que chama fascistas de “cidadãos de bem”, com os invasores do Capitólio estampando nas camisetas Campo de Auschwitz e sinais de que seis milhões de judeus mortos na Segunda Guerra foi pouco.

Feliz ano de isolamento do Brasil: segundo o ex-chanceler Celso Lafer, só vai aumentar. “Com consequências internas e externas, que vão afetar a economia e a sociedade!”.

Feliz ano educacional estacionado, sob ameaça de realocar verbas da Fundeb para escolas evangélicas e filantrópicas, sem fomento para nada além de Institutos, como o fundado no final do ano pelo deputado Eduardo Bolsonaro: o Instituto Conservador Liberal (ICL) vai instruir militância junto com o partido que seu pai tenta criar, Aliança pelo Brasil.

Feliz ano para o Rio de Janeiro com mais um governador afastado por corrupção, o sexto, e que contribui com 8,5 milhões de cariocas para a lista de 14 milhões de desempregados do Brasil.

Feliz ano para a Cultura com o ex-Malhação Mário Frias no comando do Conselho Superior de Cinema enquanto destrói a Cinemateca Brasileira, a Casa de Rui Barbosa, a Fundação Palmares e festeja a queda de 35% na captação de recursos para a lei Rouanet.

Feliz ano para a Cultura que terá como ponto alto o lançamento do livro do ex-Secretário Roberto Alvim sobre o vídeo onde plagiava Joseph Goebbels — já que o resto dos livros vai queimar como na fogueira de Fahrenheit 451 (François Truffaut, 1961) e temos de decorar um por um para não esquecer: o livro no Brasil será taxado em 20% por ser um objeto de deleite para a elite.

Ano feliz terá quem ler Três Mil Anos de Política (José Luis Alquéres, Edições de Janeiro, 2021), que traça em 231 páginas e oito capítulos uma história que começa com Homero, Platão, Sócrates, Aristóteles e vai a Churchill, Hanna Arendt, Tony Judt. Como disse Gracchus a Julius Caesar sobre a ética na velha República Romana, “política é uma profissão prática”.

Feliz ano revendo Spartacus (Stanley Kubrick, 1961), onde Gracchus é Charles Laughton, Caesar é Jonh Gavin (ambos assassinados pelos senadores) e o roteiro é de Dalton Trumbo, perseguido pelo Macarthismo: como nossos escritores e jornalistas, Trumbo teve de comparecer a CPI na Câmara de deputados americana em 1947 mas se recusou a testemunhar contra colegas comunistas em Hollywood.

Feliz ano para quem assistir a Não Há Mal Algum (Mohammad Rasoulof) — Urso de Ouro em Berlim, presente da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo — com quatro histórias que remetem a Hannah Arendt e à necessidade de se tomar responsabilidade contra o mal: reagir contra o totalitarismo, a mentira, a hipocrisia, a censura e desobedecer aos insanos, desgovernados, aloprados, irresponsáveis.

Feliz ano com uma palavra: No, peça de Antonio Skármeta que virou filme (Pablo Larraín, 2012). “Não” é a resposta dos chilenos ao plebiscito de 1988 convocado pela ditadura de Pinochet para o povo dizer se apoia os militares.

Este ano que sucede a um ano que não existiu só vai começar no final de 2022 se dissermos Não.

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Norma Couri é jornalista.