Domingo, 7 de dezembro de 2025 ISSN 1519-7670 - Ano 2025 - nº 1367

O corpo, esse desconhecido

O mais recente filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, intitulado A pele que habito (La Piel que Habito, 2011), é uma obra sensível e complexa que nos encaminha a discussões muitas vezes ignoradas. Pode-se citar como exemplo a difícil relação entre o homem e a ciência que, se por um lado nos leva à crença de que essa poderá propiciar uma evolução sem fim das técnicas e trazer alívio a qualquer sofrimento humano, por outro impõe a necessária problematização das suas formas de elaboração e aplicação.

No caso particular d’A pele que habito, o que deve transtornar seus espectadores é a fronteira sutil e amarga entre o que é possível de ser feito, mas que, em sendo feito, engendra a desorganização dos valores morais, que pensaríamos serem universais. Ainda que seja de ciência que fale o diretor, e da medicina em especial, não foi daí que se originou o motor para a construção desse texto. Num filme ricamente arquitetado, e com possibilidades múltiplas de reflexão, o que me causou espanto foi o comportamento da plateia.

Numa dessas sessões, num bairro “nobre” da capital paulista, não pude deixar de notar e me indignar com a reação do público ante duas cenas. Em ambas, o corpo feminino era o personagem de um drama: o estupro. E, como se tivéssemos diante de uma comédia, ou de uma cena divertida, as pessoas riam com tanta comoção que comecei a duvidar se o que via era mesmo o que via. Um dos personagens era, outrora, homem, que, pela ação da ciência, passou a habitar um corpo de mulher. O corpo, agora de compleição feminina, era violado, invadido com a força de um corpo masculino robusto, e demonstrava seu sofrimento. E, na outra cena, uma jovem menina, que demonstrava desconhecimento de qualquer sexualização do corpo, é violentada, durante uma festa. Para além dos labirintos propostos por Almodóvar e do círculo que se estabelece entre esses personagens, é a questão do corpo e da sexualidade não-permitida que se mostra urgente.

O enigma que carregamos

É certo que o estupro possa habitar a mente de um cenário pornográfico ou mesmo de uma relação cúmplice entre duas – ou mais – pessoas, num jogo lascivo e permitido. Mas, torna-se inaceitável tolerar tal prática numa situação que, por definição, faz-se no polo antitético permitido/não-consentido. Ou seja, não se pode aventar aqui qualquer possibilidade de legitimação. A “invasão do corpo” nos coloca a delicada discussão sobre o direito ao próprio corpo, que é alçada à máxima potência, por muitas vezes em temas controversos, que vão desde as modificações corporais, passando por alterações físicas e chegando ao aborto. Mas o peso dessa discussão parecer perder a força quando é a sexualidade a pele que reveste o corpo.

Contornos generosos de corpos femininos, estampados em propagandas da mídia; meninas travestidas de mulheres; seios, suor e sol, aqui e ali, constrangem sem constranger e viram matéria-prima fácil da conversa diária que desemboca na piada pronta e, por suposto, no sorriso ou na risada.

O que não fica evidente nesses exemplos é que, subjacente a essas imagens coloridas e convidativas jaz o corpo: o corpo infantil, o corpo modificado pela ciência, o corpo sexual que desconhece o sexo. O corpo pálido. Aquele que todos veem mas sobre o qual não podem falar, sob pena de tolher o outro ou a si mesmo.

Diante dos risos do público, uma impressão continua a me perseguir: as pessoas parecem não apenas desconhecer o corpo que habitam, como também desconhecer o corpo que permitem tomar o seu próprio corpo. Numa sociedade que tanto enaltece e se enaltece pelos “avanços” científicos, o corpo continua a ser, paradoxalmente, o enigma que carregamos e que não estamos dispostos a decifrar.

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[Marina Soares é historiadora, com mestrado em Língua, Literatura e Cultura Árabe, pela USP, e doutoranda em História Social, na FFLCH-USP]