Sunday, 23 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

O debate e a ‘bala de prata’

Televisão é forma, e não conteúdo. Quem quer conteúdo, procura um livro ou jornal – no caso brasileiro, melhor o livro. Dilma primou pelo conteúdo em seus comentários, Serra e os demais pela forma. Esta é a grande diferença entre eles. O que fica ao telespectador, caros amigos: os dados estatísticos de Dilma ou as piadas do Plínio?

Em minha opinião é o segundo. Plínio, com seu jeito de velhinho malandro, vai fazendo as mesmas afirmações e dando o seu recado. Dessa forma, transmite a mensagem de seu partido e faz com que ele seja mais palatável ao público em geral. Marina também. Menos que Plínio, mas faz o mesmo jogo de dar o recado a quem interessa: ao público, não ao candidato opositor.

Esta é a grande sacada que parece que Dilma não pegou.

Televisão é espetáculo. É para o grande público, não é para a crítica ou militância. É luz, câmera e ação. Imagem e movimento. Nisso, o Serra é mestre. Não disse nada a não ser dar continuidade ao seu programa eleitoral. Vazio em propostas e infestado de maledicências. Mas faz pose, gesticula e encara com naturalidade as câmeras.

O que importa é o público

Que fica ao grande público? O jeitão confortável de Serra descer a lenha na Dilma e no PT, ou as explicações técnicas de Dilma? A forma como o candidato faz é que importa. O que disse não importa muito. É a imagem que fica. Televisão: imagem e movimento. É o que o Homer Simpson vai ver no Jornal Nacional, no dia seguinte.

Serra bateu forte e sem piedade em todas as oportunidades. Portou-se como se estivesse em casa, tratando com a maior ‘sem cerimônia’ os seus interlocutores. Tratando a repórter com a maior intimidade – e não poderia deixar de ser, talvez até porque já soubesse de antemão o que seria perguntado. Afinal, tudo é possível, não se esqueçam que o debate foi patrocinado pela famiglia Frias.

Dilma tem que encarar os debates da forma como são: pegadinhas para destruir a sua trajetória. Ela tem que ser mais dura e ao mesmo tempo irônica com o Serra.

Deveria ter dito, por exemplo, que em matéria de saneamento São Paulo é uma vergonha e que a população vive debaixo d´água a maior parte do ano. Este é o tipo de afirmação que fica ao público. Quem dentre nós se lembra dos dados estatísticos e de investimento levantados por ela nessa questão? Eu, não. Deveria dizer à jornalista da Folha que o candidato Serra está se propagandeando através dos factoides produzidos pela Folha. E que ambos não contribuem com a verdade. Dilma tem que saber que em um debate o que importa é o público, e não os candidatos adversários.

‘O provão, nós ganhamos na mídia!’

É um espetáculo como outro qualquer. O grande público quer ver quem pega quem e não quem se defende de quem. Sobre isso é que estarão falando no trabalho e não coisas do tipo: ‘Você viu como a relação entre o PIB e a dívida pública é importante?’

Dilma tem que dar ‘um passa moleque’ em Serra o quanto antes! O debate na Globo será a ‘bala de prata’ de Serra e é lá que Dilma tem que se esmerar em ser mais esperta, irônica e até leviana que o candidato da famiglia Frias et caterva. A Globo possui um know-how em manipulação e edição de imagens de fazer inveja ao próprio Goebbels. Qualquer vacilo de Dilma neste terreno minado será a ‘bala de prata’ que Serra e a velha mídia estão procurando.

Quando perguntaram ao ex-ministro da privatização da Educação Paulo Renato como ele enfiou goela a baixo das universidades o tal ‘provão’, ele respondeu sem titubear: ‘O provão, nós ganhamos na mídia!’

Engraçado, não?

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Psicólogo, Curitiba, PR