Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

O direito de incomodar a vizinhança

Um fato banal na rotina de uma cidade como São Paulo, como a interdição de um bar por excesso de barulho durante a noite, pode conter lições interessantes sobre a vida urbana e, de certo modo, iluminar o debate ideológico que define a sociedade contemporânea.

A Mercearia São Pedro, misto de bar, locadora de vídeo e livraria, instalado no bairro boêmio de Vila Madalena, é um desses lugares onde o cidadão pode tomar uma cerveja e ganhar de brinde uma aura de intelectualidade. Quem se arrisca a compará-lo com os pontos de encontro de gente pensante em outras épocas, como o Café Rivera, no Rio de Janeiro dos anos 1920, que depois mudou de nome para Amarelinho, corre o risco de tropeçar numa nova condição que muda completamente o sentido da palavra “intelectual”. Da mesma forma, não se pode comparar a Mercearia ao antigo Bar Riviera, na esquina da Rua da Consolação com a Avenida Paulista, em São Paulo, ou com o Bar Redondo, ao lado do antigo Teatro de Arena, no extremo oposto da mesma Rua da Consolação.

A história do Amarelinho da Cinelândia está registrada num livro do jornalista Ricardo Maranhão, que há dez anos colocou nas ruas uma campanha pela recuperação da região central do Rio. A importância do Redondo está ligada ao teatro de resistência e em torno de seu balcão se desenharam cenas e personagens que fizeram história no palco. O Riviera também atravessou gerações até ser fechado em 2006. Em suas mesas nasceu a personagem Rê Bordosa, pelo traço do cartunista Angeli, e ali se articulou também o movimento das escolas isoladas, em que ativistas tentavam organizar o movimento estudantil à margem dos grupos de esquerda que enfrentavam a ditadura.

Esses eram espaços de uma liberdade possível, num período em que não havia a livre manifestação do pensamento dissidente. Vivia-se sob uma ditadura feroz, que alguns hoje tentam relativizar. Nos bares daquele tempo, era preciso ter uma obra para ser considerado um intelectual.

“Meio de esquerda”

Esse é um dos pontos que podem ser observados a partir da polêmica que se pretende armar em torno do fechamento da Mercearia São Pedro. Como já se disse aqui certa vez, o mundo contemporâneo permite criar instantaneamente um pensador: basta que ele tenha nas mãos um telefone celular com acesso à internet e conheça algumas palavras-chave para obter citações interessantes, frases de efeito arrasador e planilhas que lhe proporcionam um conhecimento básico de economia e até mesmo podem torná-lo especialista em refinarias de petróleo.

Na era da internet, intelectuais de verdade, que ralam o cérebro em leituras e reflexões exaustivas, perdem feio para alguém com os dedos ágeis no teclado virtual da touchscreen. Vivemos o paradoxo dos Googlectuais e dos Wikieruditos, cujos simulacros de pensamento criativo ganham status de genialidade nas frases ligeiras dos cronistas de jornais.

Assim, a Mercearia vira patrimônio cultural.

De fato, trata-se de um patrimônio típico do contexto cultural em que a ideia se transforma em adereço para um par de óculos coloridos e outros ícones da intelectualidade fashion. Mas essa é uma questão periférica no caso do bar que foi fechado por não atender à lei do silêncio.

A questão que transcende a banalidade do ato burocrático de fechar um estabelecimento comercial por desobedecer a certas normas do convívio no ambiente urbano é exatamente a relativização do interesse coletivo versus o prazer de alguns. No caso, a necessidade de repouso dos vizinhos contra o desejo dos frequentadores de atravessar a noite discutindo na calçada se “Azul é a cor mais quente” é ou não um filme pornográfico.

Pode-se questionar a confusão que se faz entre boemia e vida intelectual, mas esse não é o ponto. Diz o cronista da Folha de S. Paulo (ver aqui) que aquele bar é o típico boteco “meio intelectual, meio de esquerda” – e poucos terão feito afirmação mais acertada. Pois é justamente nesse ambiente “meio intelectual, meio de esquerda” que encontram justificativa certas ideias tidas como pós-modernas, nas quais o interesse individual, ainda que agregado, se sobrepõe ao coletivo.

A mesma mentalidade justifica, por exemplo, que cinquenta indivíduos paralisem uma cidade de 12 milhões de habitantes porque acham que não deve haver uma Copa do Mundo.