Sunday, 23 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Os vereadores e suas campanhas invisíveis

Enquanto a mídia dedica amplo espaço para a disputa eleitoral envolvendo as prefeituras, mais de 430 mil candidatos a vereador estão nas ruas de todo o país disputando o voto do eleitor. Com pouco tempo para expor suas propostas nos programas eleitorais, aqueles que concorrem a uma vaga nas câmaras municipais acabam em uma zona de invisibilidade, onde candidatos com projetos sérios se misturam a figuras despreparadas e até bizarras. Em uma iniciativa inédita e criativa, o Jornal da Tarde, do Grupo Estado, decidiu infiltrar um repórter em um partido de pouca expressão para narrar o jogo político das eleições para vereador do ponto de vista de um candidato.

A ideia do Candidato Acidental, que partiu de um dos editores do jornal, nasceu logo após as eleições de 2010. O jornalista cumpriu todas as etapas do processo eleitoral, como a filiação ao partido um ano antes do pleito. Apesar de manter o anonimato, o candidato-repórter usou seus dados reais e aparece no programa eleitoral sem usar disfarces. Por ser uma candidatura legítima, o repórter toma precauções para evitar ser eleito. Ao ser abordado na rua por eleitores que o reconhecem, o Candidato Acidental diz que está participando das eleições apenas para “aprender” e, assim, desencoraja o eleitor a votar nele. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (11/9) pela TV Brasil discutiu a iniciativa do jornal e a questão ética em torno do tema.

Para debater este assunto, Alberto Dines recebeu no estúdio de São Paulo o jornalista Décio Trujilo, editor-chefe do Jornal da Tarde e Sonia Barboza, diretora do Movimento Voto Consciente. Trujilo trabalhou na Editora Abril, no Estado de S.Paulo, na Gazeta Mercantil e na Reuters. Entidade cívica e apartidária formada por voluntários, o Voto Consciente atua no aprimoramento da participação política da população. No Rio, o programa contou com a presença do cientista político Cesar Romero Jacob, diretor do Departamento de Comunicação Social do Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio. O professor coordenou o estudo “A geografia do voto nas eleições para prefeito e presidente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo: 1996-2010”.

De olhos fechados

Em editorial, antes do debate no estúdio, Dines afirmou que a mídia não fiscaliza um setor vital para a cena política, que são as câmaras municipais: “Nossa imprensa esqueceu sua função comunitária, não acompanha os trabalhos das câmaras municipais e antes das eleições municipais não se lembra de investigar quem são os candidatos. Neste nosso jornalismo burocrático, omisso, desossado e sem palpitação chama a atenção a criatividade do Jornal da Tarde, de São Paulo, do Grupo Estado”. Para Dines, o resultado do trabalho do repórter-candidato é uma “endoscopia das entranhas” da política brasileira.

A equipe do Observatório entrevistou o repórter do Jornal da Tarde, que gravou o depoimento sem identificar seu rosto e voz. O Candidato Acidental contou que a decepção com o processo eleitoral começou já na filiação ao partido político, que podia ser feita de forma não presencial. “Eu posso, online, em menos de um minuto, dando um ok em uma fichinha básica, estar filiado ao partido”, relembrou o jornalista. O repórter destacou que não houve questionamento algum sobre sua ideologia ou projetos durante a filiação: “O que a gente imagina é que ninguém vai colocar um detetive para seguir cada candidato ou se aprofundar na vida pessoal e profissional de cada um. Mas hoje, com uma ferramenta como o Google, em três minutos você tem uma ideia se a pessoa tem alguma atuação na comunidade”.

Após a convenção partidária, o nome do jornalista do JT e de todos os outros filiados que se inscreveram para tentar a candidatura a vereador foram aprovados. Mais uma vez, o partido não checou o perfil ou os projetos do candidato: “Em nenhum momento desse processo me foi perguntado ‘por que você quer ser vereador de São Paulo?’ ‘O que faz um vereador?’. Eu esperava – e era o meu grande medo – que a coisa ia afundar mesmo na hora do Google. Em nenhum momento o meu nome foi consultado. Por incrível que pareça, para a minha surpresa, não me pegaram”, confessou o repórter.

Cuidados e limites

Com a candidatura oficializada, o jornal intensificou os cuidados para que o repórter não fosse identificado e que o processo ocorresse dentro dos limites da lei: “Na coluna que eu tenho escrito no jornal e no blog eu não coloco o meu nome, eu não coloco o meu número, eu não coloco partido, eu não identifico as pessoas. Então, também, a gente não configura as colunas como propaganda. Não estou me autopromovendo e nem à minha candidatura”. O jornalista explicou que parou de assinar reportagens no jornal antes do período estabelecido pela lei eleitoral.

A iniciativa do jornal tem tido uma boa repercussão, mas o repórter ressaltou que os limites éticos precisam ser discutidos: “Eu sei que existe essa questão: ‘Será que é uma boa ideia um repórter se aproximar tanto do seu objeto de estudo?’ ‘Será que, se candidatando, ele não vai estar enganando as pessoas, o eleitor?’ Acho que toda essa discussão é válida, a gente precisa fazer. Eu tenho aprendido com esse processo, acho que no final a gente vai poder avaliar quais foram as virtudes, quais foram os pecados, os eventuais desvios de rota que um processo dessa proximidade com o meu objeto de estudo tem proporcionado”. Na avaliação do Candidato Acidental, a experiência de trabalhar infiltrado em um partido para narrar os bastidores da campanha é válida do ponto de vista jornalístico e contribui para a democracia.

Ao conviver com os outros candidatos como um colega e concorrente, o jornalista se deparou com declarações sinceras e cenas que dificilmente ocorreriam na presença da imprensa. “Se você me perguntar se tem algum candidato que eu conheci querendo mudar o mundo eu vou precisar ser bem honesto e dizer que não encontrei ainda esse candidato. Encontrei candidatos com demandas específicas dentro da sua comunidade, mas a maioria deles passa por essa ideia de que ‘eu preciso me dar bem para ajudar alguém’. Há um certo individualismo”, disse o repórter. O jornalista acrescentou que alguns candidatos contam que se forem eleitos deixarão suas casas para evitar a “romaria” de conhecidos que podem pedir ajuda.

O poder da TV

Um dos momentos mais marcantes da experiência como candidato foi a gravação do programa eleitoral. “O candidato a vereador tem 3, 4 segundos para dizer alguma coisa, na maioria dos partidos. Na minha experiência, eu não pude dizer o que eu queria dizer. Não pude apresentar uma proposta. ‘O que eu tenho e o que eu posso dizer?’ Meu nome, meu número e o texto já estão escritos para mim. O texto não pode ser mudado. É aquele, pronto. Eu tive uma outra ideia, tentei argumentar, mas não. Se você quer defender o ensino público, quer defender hospitais, manutenção de hospitais, não. Você tem um texto fechado e você grava”, disse o jornalista.

O Candidato Acidental contou que após a sua propaganda política ser veiculada pela televisão, a reação foi imediata. “É uma avalanche, o mundo cai na sua cabeça. Eu fiquei com o meu computador ligado enquanto me via na televisão e foi instantâneo: gente mandando e-mail, falando no bate-papo, postando no Facebook, postando no Twitter”, disse o jornalista. Apesar da repercussão instantânea da candidatura, a imagem dos candidatos a vereador é péssima: “É engraçado isso, esse negócio de ser político, de fazer campanha… é uma vergonha na sociedade, é um constrangimento. Não devia ser assim, as pessoas deveriam achar normal que um cidadão queira participar de um processo político, democrático. Mas não, é um constrangimento”.

As propostas de compra de votos partidas dos próprios eleitores chamaram a atenção do repórter-candidato. “Eu tenho colhido esse tipo de história ao longo do processo. É um tipo de eleitor que me propõe, por exemplo, assim: ‘ok, eu voto em você, mas me paga uma cerveja aí, candidato!’, ‘eu voto em você, mas compra um tênis aqui comigo, candidato!’. Eu encontrei esse tipo de sentimento do eleitor, que pede desde uma cervejinha, dez reais para comprar alguma coisa ou uma promessa futura”.

Na avaliação do repórter, existe uma permissividade em relação à política que atinge o candidato e o cidadão comum. O jornalista ressaltou ainda que o Candidato Acidental não entrou no jogo eleitoral para investigar um partido, mas para vivenciar um processo em todas as suas esferas.

De observador a concorrente

No debate ao vivo, Dines perguntou a Décio Trujilo sobre os bastidores dessa “façanha criativa” e ressaltou que a experiência mostra que a imprensa é capaz de sair da sua “redoma burocrática” para fazer um jornalismo mais vivo. Décio explicou que a ideia do Jornal da Tarde com a iniciativa foi mostrar a rotina de um candidato a vereador de um partido pequeno. “De outro lado, a gente também queria mostrar todos os problemas que existem hoje no sistema político partidário eleitoral do país e essa experiência tem ajudado muito. Alguns conceitos que a gente ouve, que a gente imagina, vão aparecendo muito concretamente, com a questão da compra e venda de votos”, disse o jornalista. Para o editor, o material produzido pelo Candidato Acidental tem sido mais rico do que o jornal imaginava no início do processo.

Décio Trujilo explicou que o candidato está efetivamente cumprindo tarefas que fazem parte da rotina de um candidato, como panfletagem e gravação de programas eleitorais, o que permite uma relação direta do eleitor com o candidato. “O blog tem tido boa repercussão, principalmente nas mídias sociais”, contou. O diário eletrônico é abastecido diariamente e quatro vezes por semana uma coluna é publicada no jornal impresso. O editor contou que há bastante interação com os leitores. “A experiência para o repórter está sendo fantástica”, disse.

Dines perguntou a Trujilo se o JT debateu internamente o risco de ser acusado de estar enganando o eleitor com o Candidato Acidental. O editor disse que houve intensas discussões sobre o fato de um repórter omitir a sua condição de jornalista durante o exercício do seu trabalho para obter informações. “Fizemos essa ação pelo interesse público e acho que a gente está dando uma contribuição para a discussão do processo político no Brasil com as [matérias] que estamos publicando. Fizemos essa discussão na redação, nós estamos sendo muito transparentes com o leitor, que sabe que esta candidatura tem um propósito”, explicou Trujilo.

Problema enraizado

Para o cientista político Cesar Romero Jacob, é importante que o jornal revele detalhes de como funciona o sistema eleitoral brasileiro, mas a experiência é insuficiente porque o Brasil é um país desigual e de grandes dimensões. Lamentavelmente, na opinião de Jacob, a influência das reportagens será restrita a setores escolarizados da sociedade brasileira. “O que se tem observado em seis eleições [presidenciais] a partir da redemocratização é que existem máquinas de toda a sorte, mas máquinas políticas que atuando no Brasil dos grotões, onde a escolaridade é baixa, e na periferia metropolitana pobre, onde vicejam os partidos populistas e os pastores pentecostais”. Para o cientista político, com a revolução digital a informação pode se multiplicar e atingir a outros setores da sociedade.

Dines perguntou como o Movimento Voto Consciente está vendo a iniciativa da mídia de dar mais transparência ao processo eleitoral. Para Sonia Barboza, o projeto do Jornal da Tarde mostrou como funciona um sistema que em geral não é esmiuçado pela imprensa, e revela a falta de respeito dos partidos políticos com a população e os eleitores. Sonia criticou a falta de percepção dos problemas do sistema eleitoral por parte dos Tribunais Regionais Eleitorais. “Como se aceita um candidato sem saber quem ele é, que tipo de pessoa ele é?”, questionou a representante do Movimento Voto Consciente.

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O candidato acidental

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 656, exibido em 11/9/2012

Bem vindos ao Observatório da Imprensa.

Faltam três semanas, a campanha eleitoral está quente, mas as atenções da mídia estão voltadas para a disputa pelas prefeituras. é uma opção errada sob o ponto de vista cívico, político e até mercadológico.

São cerca de 5.600 municípios no país com cerca de 58 mil mil vagas para vereadores. O número de candidatos em todo o país é astronômico: são cerca de 430 mil – repito, 430 mil – daria para criar uma cidade de porte médio. Só o estado de São Paulo tem perto de 75 mil candidatos. O estado com o menor número de candidatos, Roraima, tem 1.500.

É um mundo – há quem diga que seja o submundo – da política. De qualquer forma, é um universo que fermenta longe da fiscalização da imprensa, inacessível ao escrutínio da sociedade. Não fossem os horários de propaganda gratuita do TRE, a natural visibilidade dos candidatos à reeleição e alguns postulantes mais abonados ou exóticos, pouco chegaria ao eleitorado.

No entanto, é na Câmara dos Vereadores que se inicia efetivamente o ciclo político. Nossa imprensa esqueceu sua função comunitária, não acompanha os trabalhos das câmaras municipais e antes das eleições municipais não se lembra de investigar quem são os candidatos.

Neste nosso jornalismo burocrático, omisso, desossado e sem palpitação chama a atenção a criatividade do Jornal da Tarde de São Paulo, do Grupo Estado. Um repórter do jornal inscreveu-se como candidato, está fazendo campanha, publica tudo o que observa no seu blog chamado “Candidato Acidental”, mas ninguém sabe quem é. É uma endoscopia das entranhas da nossa política.

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A mídia na semana

>> A Primavera Árabe produziu alguns avanços no Egito, mas a hegemonia dos partidos religiosos resultou em retrocessos preocupantes. Um deles apareceu na telinha da tevê estatal no início de setembro, quando a apresentadora Fatma Nabil apresentou o telejornal noturno com o véu cobrindo os cabelos e o pescoço. A jornalista achou normal, disse que o “hiyab” é usado pela maioria das mulheres nas ruas. Só não disse que aquelas que ousam sair sem o véu são insultadas e agredidas. Às margens do Nilo, a primavera tem cores de outono.

>> O jornalista Bernardo Kucinski está vocalizando as queixas de parte da sociedade contra o silêncio da Comissão da Verdade. Instalada com pompa há quatro meses, nada mais se soube sobre os seus trabalhos. Alegam os buscadores da verdade que a divulgação poderia prejudicar as diligências. A desculpa é esfarrapada, a comissão não tem função processual. O que a sociedade espera de uma Comissão da Verdade é o fim do silêncio. O silêncio é o maior inimigo da verdade.

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[Lilia Diniz é jornalista]