Tuesday, 28 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Um país de afetados

A profissão mais perigosa no Brasil, nos dias de hoje, é a de humorista. Fazer humor tornou-se um grande problema, pois é necessário encontrar a dose certa entre fazer rir e não sofrer processos. Humorista deveria receber por insalubridade, adicional de periculosidade e auxílio-advocacia. Mas será que não há como se fazer humor sem sofrer tantas sanções?

O caso parece piada, mas é sério. Danilo Gentili perguntou pela internet: “Quem o King-Kong pensa que é, pra entrar na cidade e pegar logo uma loira? Um jogador de futebol?” Resultado: protestos e processo sob acusação de racismo. Rafinha Bastos, também CQC, afirmou: “Mulher feia estuprada deveria agradecer a Deus.” Resultado: protesto de uma organização feminista acusando o comediante do CQC de ter “incentivado o estupro no país”. Piadas de “bichinha”, como ficou imortalizado o gênero pelo grande Costinha, agora sofrem ação do movimento Gay (e nem saiu a PL122…).

Sobre negros, crime inafiançável. Piadas sobre religiões, afro ou euro descendentes, são sempre chamadas de preconceituosas. De português, judeu ou de árabe: xenofóbicas. Até os políticos, alvo de tantas palhaçadas, protestaram e quiseram acabar com piadas sobre a “classe” no período eleitoral.

Personagens que hoje seriam proibidos

As piadas no país, de Mazzaropi pra cá, sempre tiveram dois temas centrais: falar mal dos outros ou o uso do duplo sentido (geralmente com teor sexual). Geograficamente, as piadas limitam-se aos estereótipos: baiano é preguiçoso, sergipano tem cabeça chata, carioca é vagabundo/traficante, paulista é egocêntrico e workaholic, gaúchos são homoafetivos, amazonense é tudo índio… No campo das profissões: enfermeiras, modelos e secretárias são “mulheres fáceis”; todo advogado é mau caráter; cabeleireiros são gays; policiais são corruptos; políticos, então…

O humor vai precisar passar por uma reformulação em nosso país. O Brasil tornou-se um país de “afetados”. Tudo pode melindrar ou soar ofensivo aos olhos dos outros. E o humor precisa mudar ou viveremos das idiotices dos “Caras de Pau”, das repetidas palhaçadas do Didi, das piadas imbecilizadas do Louro José, dos cansados personagens de A Praça é Nossa e das mulheres maravilhosamente semi-nuas e sem-graça do Zorra Total. Mas teremos ainda o auxílio luxuoso e inofensivo do Castelo Ra-Tim-Bum. Nesse ritmo, em menos de uma década, só poderemos fazer piadas sobre os animais e o reino vegetal.

Quanta babaquice! Chico Anysio, o rei do humor no Brasil, imortalizou vários personagens que hoje seriam proibidos, ou como está na moda dizer, “ofensivos”: o baiano, preguiçoso, homossexual e pai-de-santo, Painho; o velho judeu sovina, Popó; o grande político safado, Justo Veríssimo; o jovem idiota e burguês paulistano, Jovem; o alcoólatra que casou com uma mulher horrorosa, Nazareno. O gay não-assumido, Aroldo, o hetero; o Preto Véio malandro, Véio Zuza, dentre tantos outros personagens que fizeram o Brasil rir durante mais de três décadas, usando estereótipos.

Piada cada vez mais sem graça

Meus amigos, perdoem a sinceridade, mas num país em que um advogado afirma que o seu cliente, um assassino confesso e libertado pela justiça, não irá dar o nome do seu comparsa por “ética profissional”, querer levar os humoristas para o banco dos réus é praticamente uma piada de humor negro, melhor dizendo, humor obscuro.

Os estereótipos estão aí, enraizados há décadas nas piadas brasileiras. Querer censurar o riso será um tiro no pé. Um genial comediante disse uma vez: “Tenho a impressão de que os homens estão a perder o dom de rir.” Se ele estivesse no Brasil de hoje, poderia até ser preso, por colocar para trabalhar uma menor em um dos seus filmes. Ou então, por incentivar a homossexualidade, vestindo uma menina com roupas de menino, sendo acusado pela bancada evangélica do Senado. O Brasil é mesmo o país da piada pronta, mas está ficando, cada vez mais, sem graça.