Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Jornalismo, essa metamorfose ambulante

Nos países “do universo anglo-americano” a distinção entre “professions” e “occupations” sempre foi “muito clara e assumida”, nos países europeus, o termo “profissão” sempre teve “uma utilização mais genérica e, portanto mais indefinida. Imagem: Divulgação: Pixabay.com

Durante boa parte dos meus 53 anos de profissão referi-me ao jornalismo e aos/às jornalistas como se esses conceitos e as ideias associadas a eles fossem coisas dadas, sobre as quais restaria pouca ou nenhuma dúvida. Ou controvérsia. Mas, olhando um pouco mais de perto e mais atentamente, percebe-se que há inúmeras dúvidas e mal-entendidos. A começar pela questão levantada pelo Joaquim Fidalgo (2008, p. 11), “É o jornalismo uma profissão?”

Fidalgo lembra que enquanto nos países “do universo anglo-americano” a distinção entre “professions” e “occupations” sempre foi “muito clara e assumida”, nos países europeus (em especial França e Portugal), o termo “profissão” sempre teve “uma utilização mais genérica e, portanto mais indefinida” (FIDALGO, 2008, p. 3).

Não menos cheia de controvérsias é a discussão sobre o que fazem os/as jornalistas, o que caracteriza o/a jornalista: a sua identidade profissional. No Brasil, a possibilidade de se continuar “jornalista” mesmo exercendo funções em empresas de relações públicas (ou assessorias de imprensa) adiciona complicadores a esse debate. Já suficientemente complicado pelas alterações no mercado de trabalho causadas pela crise econômica do setor e pela revolução na produção e distribuição de informações proporcionada pela internet e pelas tecnologias digitais.

Em 1978 o jornalista Moacir Pereira convidou-me para fazer parte do grupo que elaboraria o projeto de criação do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Desconfio que o perfil do profissional que eu pensava ajudar a formar não era exatamente igual ao que os demais membros do grupo imaginavam (além dos jornalistas Moacir Pereira e Paulo Brito, participavam o professor e escritor Celestino Sachet e a professora Aurora Goulart).

Não lembro de ter participado de alguma discussão, naquele grupo e enquanto se montava a grade curricular, sobre a identidade profissional ou sobre o perfil que teria o profissional que a UFSC formaria a partir de 1979. Parecia evidente, à época, que deveríamos formar profissionais à altura dos melhores em atuação nos principais veículos de comunicação do país. Pelo menos para mim, do alto da minha arrogância de recém-formado, parecia muito claro quem é e o que faz o/a jornalista: é aquele/a que exerce funções jornalísticas numa empresa… jornalística.

Nessa visão (ingênua?), o/a jornalista, para ser considerado/a como tal dependeria da existência de uma empresa (jornal, rádio, TV, agência de notícias). E durante muito tempo isso não foi um problema: “Jornalista? Trabalhas onde?”

Quando, em 1985, os jornalistas que trabalhavam nas sucursais dos jornais do Rio e São Paulo, localizadas no Setor Comercial Sul, em Brasília, reuniam-se após o expediente num dos “pés-sujos” das proximidades para beber, comer alguma coisa e comentar os fatos do dia, parecia não restar qualquer dúvida sobre o que havia em comum naquele grupo.

Ou quando, em 1986, um grupo de jornalistas foi contratado para criar o Diário do Sul, um novo diário em Porto Alegre, também parecia muito claro, para todos, o que era, para que (e a quem) serviam e quem eram os/as jornalistas.

Um pouco mais adiante, em 1997, quando jornalistas da Gazeta Mercantil frequentavam o “bar-kombi” estacionado à frente do prédio onde funcionava a redação de São Paulo, em Santo Amaro, para “molhar a garganta” e falar mal (ou bem) das chefias, a identidade profissional era definida, basicamente, pelo crachá que cada um portava. Claro, durante muitas décadas “a cultura do local de trabalho” foi indicativa “da identidade e estatuto social dos jornalistas, da distância social e do poder social” (O’DOHERTY e WILMOTT, 2001, tradução do autor).

Em 1988, em Santa Catarina, circulavam quatro jornais com cobertura e distribuição estadual: O Estado (Florianópolis), A Notícia (Joinville), Jornal de Santa Catarina (Blumenau) e Diário Catarinense (Florianópolis). Nesse ano eu era o editor-chefe de O Estado e empregávamos pouco mais de meia centena de jornalistas. Os demais jornais tinham equipes semelhantes, no número de profissionais, porque além da sede precisavam ter pessoal em diversas sucursais, nas várias regiões do estado.

O jornal O Estado fechou em 2009, depois de definhar por algum tempo, com circulação reduzida, transformado em semanário e, ao final, com apenas um jornalista na redação. A Rede Brasil Sul (RBS, com sede em Porto Alegre), que publicava o Diário Catarinense, adquiriu o Jornal de Santa Catarina em 1992 e A Notícia em 2006. Em 2016 a RBS vendeu a operação de mídia que possuía em Santa Catarina e o grupo NSC, que adquiriu os jornais, encerrou as edições impressas em 2019.

Em 2010, alguns ex-funcionários do jornal O Estado, de Florianópolis, SC resolveram reunir os colegas num restaurante, para confraternizar e lembrar do que tinham em comum (o trabalho no jornal), a adesão e a repercussão foi enorme. Resultou em vários encontros anuais, com um grande baile e a edição coletiva de dois livros em 2015, ano em que o jornal completaria 100 anos.

Um dos livros, “Loucos e memoráveis anos: o centenário do jornal O Estado”, organizado por Laudelino José Sardá e Mário Medaglia publicou 64 artigos, escritos por jornalistas que atuaram no jornal, ao longo de 422 páginas (em formato A4). Naquela avalanche de memórias sobre a atividade exercida pelos empregados não se encontra a menor dúvida sobre a identidade profissional do/a jornalista, e é possível colecionar muitos indícios sobre qual seria o perfil desse/a profssional. O outro livro, “O Estado, 100 capas”, é resultado da pesquisa e seleção da centena de capas mais importantes ou representativas do jornal em várias épocas, feita por 13 jornalistas, todos ex-funcionários do jornal cuja memória homenageavam. Os critérios e o resultado da edição também revelam o que, na época e para aquele grupo, era o “bom jornalismo”.

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2009, de extinguir a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo ou de qualquer registro para exercer a profissão, complementou a crise, adicionando cores novas ao quadro, por si só grave, que as mudanças tecnológicas e de financiamento do jornalismo pintavam.

Essa situação teve, como principal efeito, a redução drástica das equipes. Ainda que vários jornais locais ou regionais, em Santa Catarina, mantenham as edições impressas mesmo depois de terem colocado em funcionamento portais de notícias na rede, o número de profissionais em cada veículo é pequeno em relação aos últimos anos do século passado. E dos profissionais se exige, cada vez mais, habilidades multimídia e multitarefa.

Quando conto, aos jovens, que nos jornais de SC no século passado a equipe de reportagem era composta pelo repórter de texto, o repórter fotográfico e pelo motorista do carro do jornal, pegavam a pauta no começo da tarde e voltavam algumas horas depois, custam a acreditar. Porque muitos/as hoje dirigem o carro, fotografam, gravam, anotam, escrevem o post para o portal, fazem boletim para rádio, TV e alimentam Instagram e Facebook. O dia inteiro.

JORNALISTA, ESSE DESCONHECIDO

Um estudo nacional sobre o perfil dos jornalistas foi realizado há dois anos: um survey online (enquete em rede), de participação espontânea, via internet, cuja coleta de dados foi feita entre 15 de agosto e 1º de outubro de 2021. Mais de 7 mil jornalistas atenderam à convocação e os dados compõem o relatório nacional publicado em 2022 (LIMA e.a, 2022).

Na sequência, estão sendo produzidos os relatórios com os perfis dos jornalistas das regiões brasileiras e de vários estados onde o número de respondentes foi estatisticamente relevante. Um dos estados em que o recorte local dos dados da pesquisa nacional está sendo estudado é Santa Catarina, onde 465 jornalistas responderam às perguntas.

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E ali se revela que as jornalistas são mais numerosas (57%) que os jornalistas (42%). A maioria se diz branca (86%) e tem entre 23 e 40 anos (57%). Mesmo não sendo mais obrigatório, 77% têm o registro profissional de jornalista e 96% dos/as que têm curso superior cursaram Jornalismo ou Comunicação com habilitação em Jornalismo.

Ainda que a pesquisa tenha sido feita depois do fechamento de jornais de circulação estadual, 52% afirmam terem vínculo empregatício regido pela CLT. Cerca de um quarto dos respondentes (24%) tem renda bruta mensal entre R$ 2.201,00 e R$ 3.300,00. Praticamente a metade (49%) atua na mídia, 41% em atividades fora da mídia (como assessoria de imprensa ou comunicação) e 10% são docentes.

Sem surpresa, 62% trabalha em mídia online. Embora a maioria (40%) tenha a função de repórter, quando a pergunta é sobre “quais atividades você desenvolve nem um dia normal de trabalho”, aparecem, além da reportagem, edição, pauta/produção, gestão/produção de conteúdo para redes sociais e outras atividades.

Dos que trabalham fora da mídia, a maioria (41%) atua em assessorias de imprensa. E aí também, num dia normal de trabalho, além do atendimento, fazem produção de conteúdo, gestão de conteúdo, monitoramento de redes sociais, reportagem e edição.

A carga horária da maioria (34%) é entre 7 e 8 horas. De 9 a 10 horas trabalham 25% dos respondentes em Santa Catarina. Embora em menor número, não deixa de ser assustador saber que 11% trabalham entre 11 e 12 horas e 3% chegam a 13 horas ou mais.

O estresse no trabalho atinge 58% dos respondentes. A maioria (66%) diz que é comum trabalhar mais do que o contratado, fazer horas-extras. E 56% não acha que seus esforços no trabalho sejam devidamente reconhecidos. Para 38% o número de pessoas na equipe é insuficiente para realizar as atividades. Mesmo assim, 46% pretendem continuar na mesma organização onde estão e nas mesmas funções ou pleitear uma promoção.

Ao final do questionário, uma pergunta tentava avaliar a percepção dos respondentes sobre os valores necessários para se trabalhar com ética. Havia, como opções, “extremamente importante”, “muito importante”, “mais ou menos importante”, “pouco importante” e “sem importância. Resumi, num gráfico, os percentuais das respostas “extremamente importante”: chama a atenção que a imparcialidade, a objetividade e o equilíbrio sejam os valores que, embora ainda considerados importantes, não estejam no mesmo nível de “extremamente importantes”, como a verdade, a credibilidade e a liberdade.

 

“Poucas profissões sofreram tantas metamorfoses, nos últimos vinte anos, quanto a dos jornalistas brasileiros. Transformações estruturais do capitalismo combinaram-se à política de expansão do ensino superior, à redemocratização do país e a mudanças na regulamentação profissional e produziram um ambiente em que se reconfiguraram por inteiro as possibilidades de atuação dos jornalistas. Como resultados, as dimensões da categoria se expandiram exponencialmente, diversificaram-se as áreas de atuação desses profissionais e alteraram-se competências e habilidades deles demandadas” (MICK e LIMA, 2013, p. 15).

 

 

 

Essa constatação, feita no relatório da primeira pesquisa sobre o Perfil do jornalista brasileiro, de 2012, foi comprovada e reiterada na enquete de 2021. Assim como se “reconfiguram por inteiro as possibilidades de atuação dos jornalistas”, se reconfiguram a todo momento as dificuldades para a atuação dos jornalistas. Uma visão otimista seria a de que se trata de uma transição que, em algum momento, levará a alguma estabilidade. Sobre a visão pessimista é melhor nem falar, porque pode ser que algum/a jovem estudante de Jornalismo esteja lendo e não queremos desanimá-los/as.

REFERÊNCIAS

FIDALGO, J. O jornalista em construção. Porto: Porto Editora, 2008.

LIMA S., MICK J. et al. Perfil do jornalista brasileiro 2021: características sociodemográfica políticas, de saúde e do trabalho. Florianópolis. Quorum Comunicações, 2022

MICK, J.; LIMA, S. Perfil do jornalista brasileiro: Características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012. Florianópolis: Insular, 2013.

O’DOHERTY D., WILMOTT H. Debating labour process: The issue of subjectivity and the relevance of poststructuralism. Sociology 35(2): 457–476. 2001.

SARDÁ L. e MEDAGLIA M. (org.) Loucos e memoráveis anos: o centenário do jornal O Estado (1915-2015). Palhoça. Ed. Unisul. 2015

VICENZI C., VALENTE C., CHRISTIANS D. (org.). O Estado: 100 capas. Palhoça. Ed. Unisul, 2015

 

Reportagem publicada originalmente em objETHOS

 

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Cesar Valente é jornalista, mestrando em Jornalismo e pesquisador do objETHOS