Tuesday, 05 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Na favela e no asfalto: qual o lead da notícia?

Como todo jornalista sabe, o lead é aquele parágrafo, normalmente localizado no início do texto, que concentra as “principais informações” da matéria. Em outras palavras, é o que, no modelo atual de jornalismo, permite identificar o que é a notícia em si. Seguindo os rastros desse conjunto de técnicas ditas objetivas que aprendemos a cumprir como critério do bom jornalismo, o jornal O Globo de 18 de julho, que traz matérias sobre duas manifestações realizadas no Rio de Janeiro na véspera, é muito esclarecedor.

Comecemos por fazer justiça: a cobertura do Globo nem tem sido tão ruim assim. Comparando com o que temos visto na televisão e diante do que poderíamos esperar, temos sido até positivamente surpreendidos. A matéria de Gustavo Goulart e Leticia Fernandes, que trata da manifestação realizada em frente à casa do governador Sergio Cabral, no Leblon, condena as ações de “vandalismo”, mas as limita ao grupo Black Bloc – o que é impreciso e pouco justificado, mas, por ora, deixemos esse aspecto de lado. Além disso, noticiou o ataque ao prédio da Rede Globo – que foi uma ação deliberada de grupos de manifestantes e que, independentemente do que possa haver de condenável em qualquer ação de violência, simboliza um grito de “basta” à manipulação grosseira dos fatos que esse grupo tem promovido nos jornais nacionais da vida – como um fato sem importância, quase um acaso: “Enquanto os jovens se dispersavam, um grupo danificou a portaria de um prédio administrativo da Rede Globo”, diz o texto. Da mesma forma, esqueceu de dizer que, entre as pautas repetidas de tantas outras manifestações, as milhares de pessoas ali reunidas pediam claramente o impeachment do governador.

Protesto na favela perturba o asfalto

No mais, há que se elogiar: a matéria informa o apoio de motoristas que passavam pelo local à passeata, mostra com dados objetivos o tom predominantemente pacífico da manifestação e apresenta entrevistas que destacam a importância dessa movimentação popular no Brasil. E dá um bom exemplo de objetividade ao informar que, depois de manifestantes começarem a jogar pedra na polícia, os PMs esperaram “cerca de dois minutos resistindo” para, em seguida, “reagir” com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Vista isoladamente, descolada de todo o aparato ideológico que o conjunto da mídia e o próprio Globo têm montado para recuperar a “ordem” que tanto lhe interessa, trata-se de uma boa mostra de jornalismo informativo. Isso porque deixa para o leitor a tarefa de julgar se dois minutos é um tempo razoável para uma polícia equipada com escudo, máscara e colete “resistir” a um “ataque” de pedras feito por “um grupo”, antes de “reagir” – sim, os jornais acham normal que a polícia carioca “reaja” – indiscriminadamente contra a população que ela deveria defender.

Mas o que mais merece atenção nessa edição do jornal aparece oito páginas depois. Em outra editoria – na Rio, e não na seção de país, onde foi publicada a reportagem que acabamos de comentar –, a repórter Carolina de Oliveira Castro assina uma matéria sobre outro protesto, realizado na mesma cidade, na mesma hora. Só que esse, feito por moradores da Rocinha, conhecida favela carioca, denunciando o desaparecimento de um morador, pai de seis filhos, que foi levado sem motivo por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da favela. Desde então, a família não tinha notícias do seu paradeiro.

Manifestação lá, manifestação cá: mas protesto na favela só ganha holofote como perturbação do sossego dos que moram no asfalto. E, infelizmente, a jornalista do Globo, informada pelo mesmo senso comum preconceituoso que o jornal em que ela trabalha ajuda a promover, não fugiu à regra.

Mais que um lado

Vejamos o lead para identificarmos o que, nesse caso, foi considerado notícia: “Uma manifestação realizada ontem na autoestrada Lagoa-Barra por moradores da Rocinha parou o trânsito de bairros como Lagoa, Gávea e São Conrado, dificultando a volta para casa de quem mora na Barra da Tijuca e arredores”. Essa é a primeira frase, mas o parágrafo continua, com diversas informações sobre o que aconteceu no trânsito durante aquele período. No segundo, continuam as informações “de serviço”. Apenas no final do terceiro parágrafo a matéria informa o “motivo do protesto”. A partir daí, um pequeno texto e duas falas contextualizam o problema, apresentando, como bem manda o bom jornalismo, os elementos “laterais”, menos centrais, que justificam o transtorno no trânsito – esta, sim, a notícia, denunciada não apenas no lead como no fecho da matéria, que, coerentemente, volta a tratar do trânsito, com informações atualizadas do Centro de Operações.

Para quem associa ideologia à manipulação direta, para quem pensa que ideológicas são as matérias opinativas e panfletárias, esse texto é uma verdadeira aula: muito mais do que meras ideias, portanto calcada nas relações sociais concretas, ideologia, no sentido que lhe atribuíram Marx e Engels, é um processo que, entre outros elementos, promove a naturalização e a inversão do real. A inversão do lead e da notícia que o Globo deu sobre o protesto de moradores da Rocinha é apenas um exemplo, entre tantos que podemos encontrar todos os dias nas páginas dos jornais e na TV. Mas essa matéria é também exemplar do mecanismo ideológico de naturalização, que nos impele a aceitar, sem estranhamento, as relações da forma como estão dadas, por mais violentas que elas sejam. É o caso da informação, fornecida por essa matéria do Globo, de que “PMs armados com fuzis tentavam liberar a via”. Jogada no meio do texto, como apêndice da referência à situação do trânsito, ela passa quase despercebida. É uma pena que a repórter, ao mesmo tempo protagonista e vítima da cegueira que os grandes jornais retroalimentam, não tenha se perguntado por que, para manifestantes da Rocinha, as armas são fuzis e as balas não são de borracha; que não tenha perguntado o que justifica o uso de arma letal para controlar uma manifestação. Mas isso não era mesmo de se esperar: como o lead da matéria mostra, neste país, neste estado, nesta cidade – enfim, nesta sociedade –, favelado é o problema, não o personagem. A seu favor, no entanto, a repórter sempre poderá argumentar que apenas reproduz aquilo que, na vida real, todos nós já sabemos: a favela não é um lado a ser ouvido.

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Cátia Guimarães é jornalista da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz e doutoranda em Serviço Social