Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

A partidarização oculta os problemas reais

A imprensa ainda é um instrumento confiável para a interpretação da realidade nacional? Há quem considere que não, ou pelo menos quem situe a imprensa, neste momento, numa transição da qual ela poderá surgir num papel secundário entre os meios de observação dos fatos. Não apenas pela evolução acelerada das tecnologias que anunciam a transferência crescente do poder de escolha para o conjunto da cidadania a que chamamos público, mas principalmente por sua atitude conservadora, a imprensa corre o risco de ser colocada em segundo plano entre as instituições que validam no seio da consciência coletiva o significado dos acontecimentos.

Muito se tem demonstrado, neste Observatório, sobre exemplos pontuais, na imprensa brasileira, de menosprezo à verdade, ou, mais regularmente, de parcialismo diante da complexidade dos fatos noticiados, especialmente dos fatos políticos e econômicos. O viés, as premissas e certos condicionamentos anteriores ao trabalho de reportagem e edição parecem viciar como cartas marcadas o resultado que a imprensa oferece à apreciação pública.

Mas é concretamente numa atitude típica de correligionarismo que se caracteriza mais claramente essa opção preferencial da imprensa por um papel menor do que suas vocações históricas. Correligionarismo é o nome do comportamento delimitado pelo conjunto de interesses no interior de grupos de poder, que se consolidou no período do Terror, durante a fase popular da Revolução Francesa, e se transformou em praga da política pelos séculos afora. Foi o correligionarismo, expressão inspirada na disciplina das legiões romanas, que melhor definiu os movimentos coletivos que marcaram o século passado, dos protestos estudantis na França em 1968 à ‘revolução cultural’ do maoísmo na China.

Fora ou acima

O correligionário é sempre um tarefeiro, um quadro que se coloca abaixo dos escalões estratégicos, sempre no nível operacional das ações. Sua participação é importante na efetivação das táticas, dando volume e pragmatismo às idéias e estratégias, mas raramente influencia as decisões importantes da organização. Nos sistemas centralizados, é o que se chama regularmente de massa de manobra.

A imprensa brasileira parece ter feito a opção de se posicionar como executora de tarefas muito pontuais nesta quadra da nossa História, na qual um escândalo de grandes proporções revela as imperfeições do nosso sistema de representação política e ao mesmo tempo esconde as deficiências estruturais da nossa República. Ao se negar a aprofundar o debate sobre essa questão, que nos permitiria entender e criar condições para o aperfeiçoamento das instituições, a imprensa mantém a opinião pública distante do verdadeiro objeto a que nos remete a crise política.

Esse comportamento parece indicar que a estratégia executada nas ações táticas da imprensa – ao personalizar excessivamente o noticiário sobre o escândalo, ao mesmo tempo em que se abstém de relativizar os papéis dos variados protagonistas – está sendo elaborada fora ou acima da imprensa, em uma esfera de poder cuja identidade escapa ao cidadão comum. É possível, como se tem demonstrado neste Observatório, afirmar que existe um viés claro em todo o noticiário sobre o escândalo e suas variáveis, mas não é fácil identificar suas origens.

Sem juízo claro

A personalização excessiva e a falta de ponderação entre as manifestações e atos dos protagonistas exibidos pela imprensa ficaram mais uma vez evidentes no episódio da cassação do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que ‘morreu atirando’ e mereceu em todos os principais jornais do país um destaque proporcionalmente exagerado, considerando-se que se tratava, já àquela altura, de um personagem que tinha pouco ou nada a perder, cujas palavras significavam, a rigor, pouco ou nada no entendimento do contexto do escândalo.

Como iniciou, Jefferson concluiu sua participação no evento histórico, em seu papel de parlador histriônico, mais afeito à manipulação de emocionalismos diante de câmeras e microfones do que à elucidação da verdade. Como no início, a imprensa lhe deu absoluto crédito e a honra das manchetes, mesmo quando seus pares já haviam decidido que não havia em seu comportamento honorabilidade suficiente para que seguisse pertencendo ao Congresso Nacional. Seus pares deram a ele a etiqueta que buscou em toda sua carreira política, mas a imprensa lhe concedeu um enterro político com honras, porque, evidentemente, recitou do começo ao fim dessa tragicomédia as falas que interessavam à mídia publicar e ‘repercutir’.

Claramente partidarizada, mesmo que não se possa aplicar a ela o rótulo de uma agremiação específica, a imprensa chega ao ponto em que os acusados vão a julgamento sem que se tenha oferecido à opinião pública elementos para fazer um juízo claro sobre as culpabilidades. Exceto no caso do quase ex-presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, que parece ter sido apanhado no exercício da mais reles chantagem, ficamos, às vésperas do grande júri do Congresso, sem uma noção clara das responsabilidades relativas no caso do uso de dinheiro não declarado, se para conquista de votos nas eleições de 2002 ou para influenciar decisões do Parlamento.

Jogo deliberado

Não bastou a afirmação repetida de que existiu a prática do pagamento regular pela opinião de parlamentares para que a opinião pública ficasse convencida do alcance, da regularidade e da profundidade da corrupção. Também não nos tem sido permitido, até aqui, conhecer as práticas semelhantes já noticiadas em outros períodos, para que pudéssemos entender o alcance dos vícios da nossa política, e assim tentarmos melhorar as instituições.

Durante todas estas semanas, manteve-se o debate no círculo da moralidade ou na ambição das reformas definitivas, e a questão ficou circunscrita ao intangível ou lançada para a esfera exterior das grandes tarefas institucionais – como se o problema da corrupção só pudesse ser resolvido por um anjo da moral ou por uma nova Constituinte. ‘Se o escândalo tivesse sido tratado como o que é realmente, ou seja, um problema jurídico, já teríamos entendido seu alcance, resgatado eventos similares de outras épocas e criado instrumentos eficientes para evitar sua repetição’, observou Menelick de Carvalho Neto, professor de Direito Constitucional e doutor em Filosofia do Direito, durante debate no mês passado por ocasião do 170º aniversário da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Como ficamos entre o trato moral e as reformas grandiosas, vamos a lugar nenhum e os delinqüentes de sempre apenas ficam mais espertos para futuras rapinagens.

Difícil aceitar que a imprensa jogue deliberadamente um jogo de esconde-esconde com a opinião pública, mas não é complicado entender que, depois de haver enfrentado uma crise de quase uma década, durante a qual perdeu muitos colaboradores e foi obrigada a firmar compromissos com credores, ela possa ter se tornado mais vulnerável à tentação de se manter alinhada a grupos de poder cujas premissas, afinal, não teria dificuldade para assimilar. Problema mesmo é constatar que a imprensa abdicou de participar da formulação de grandes estratégias sociais e políticas para se resignar ao papel secundário de correligionária na tarefa de fazer muito barulho para não revelar o essencial.

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Jornalista