Sunday, 21 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

As sandálias da humildade

A Folha de S. Paulo inaugura com uma edição festiva, no domingo (23/5), uma nova fase. A reforma, segundo promete o diretor de Redação Otavio Frias Filho, é mais do que mudanças no desenho e na tipologia: é uma tentativa ambiciosa de reverter as perdas de leitores que a imprensa vem enfrentando na última década.


Os novos cadernos e seções prometem oferecer ao leitor uma organização de temas mais coerente com a complexidade do mundo contemporâneo – a primeira editoria, intitulada ‘Poder’, tenta enxergar a política de um ponto de vista mais amplo, propondo abordar o exercício do poder como material jornalístico.


Essa proposta pode ajudar o jornal a escapar da armadilha do partidarismo e avançar para além da costumeira reprodução de declarações de protagonistas da cena política, na medida que permite ao leitor avaliar, no mesmo conjunto, as escolhas desses protagonistas diante de uma variedade maior de questões do que a mera disputa partidária.


Fôlego necessário


A editoria ‘Mundo’, que antecede a seção de ‘Ciência’, traz uma aposta do jornal na temática que sempre foi um ponto forte do seu maior concorrente, o Estado de S.Paulo, e em sua primeira edição abre uma janela mais ampla do que a que costumava oferecer aos leitores.


O caderno ‘Mercado’, que substitui ‘Dinheiro’, promete um olhar também mais aberto sobre as questões econômicas, mas ainda é preciso tempo para se observar se o jornal terá fôlego para manter o esforço de reportagem que marca a primeira edição da mudança.


Já na edição de segunda-feira (24/5) observa-se uma entrevista sobre a economia da Alemanha deslocada no primeiro caderno, fora da seção específica e vinculada à área de ‘Ciência’.


Mudança notável


Em sua apresentação do novo projeto, o diretor Otavio Frias Filho lembra que jornalistas costumam ser céticos e que, de tempos em tempos, o assim chamado negativismo da imprensa costuma se voltar contra ela mesma.


A afirmação soa como uma autocrítica de alguma forma surpreendente. Desde que decidiu agredir para valer a concorrência, há pouco mais de vinte anos, a Folha tenta se apresentar como um jornal iconoclasta, o que lhe valeu eventualmente a imagem de arrogante.


Um Otavio Filho mais otimista, declarando que ‘é preciso ter a humildade de aprender’, é talvez a mudança mais notável na nova fase da Folha de S.Paulo.