Tuesday, 28 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Caiu o mito do jornalismo grátis

O jornalista Bill Keller liderou a construção do mais discutido modelo de negócios para a mídia no ano: o chamado “muro de cobrança” do jornal The New York Times. Inaugurado em março, o paywall do diário envolveu todas as plataformas e abriu um novo caminho para a velha discussão sobre cobrar ou não pelo conteúdo. O pulo do gato do NYT foi montar um sistema flexível, que busca conciliar o modelo de assinaturas, originado do jornal impresso, com a corrida por audiência na web.

Cada internauta pode ler gratuitamente 20 textos do NYT por mês. A partir daí, o jornal oferece pacotes para leitores que querem ver o jornal sem restrições – o sistema contempla tablets e celulares. A assinatura começa em US$ 15 mensais (R$ 26). O modelo, porém, tem “furos” propositais. A home page não é contada entre os 20 cliques gratuitos. Links colocados em redes sociais também não. Em seu mais recente balanço, divulgado no mês passado, o jornal disse ter 324 mil assinantes digitais. “Está funcionando tão bem quanto esperávamos ou melhor”, afirma Keller. Em setembro, após a implantação do novo modelo, ele deixou, a pedido, o cargo de editor-executivo do NYT e retomou sua função anterior, de colunista do jornal.

“Jornalismo local, ninguém está fazendo gratuitamente”

A era da informação totalmente gratuita acabou?

Bill Keller– Não sei se é o final de uma era, mas é certamente o fim de um mito. Os profetas da internet argumentavam que tudo era gratuito e que as pessoas não pagariam por nada, que a informação em todos os seus formatos seria livre. Mas então apareceu o iTunes e viu-se que as pessoas ainda queriam pagar por música. Desapareceu toda essa noção, que é um eco dos anos 60, de que tudo deveria ser gratuito, que o comércio é de certa maneira ilícito. É natural que as notícias sigam [esse caminho]. Isso não significa que as pessoas vão pagar por todo tipo de coisa.

Jornalismo de serviço público exige muito tempo e investigação. É preciso ter advogados do seu lado. Jornalismo que exige ir a lugares longínquos e perigosos não estará disponível gratuitamente. Jornalismo muito local, aquele tipo realmente importante de jornalismo sobre o que está acontecendo na sua vizinhança, ou na capital do seu Estado, esse tipo de coisa ninguém está fazendo gratuitamente.

Em uma famosa palestra em 2007, o sr. chamou a internet de elemento de ruptura da imprensa. As coisas mudaram em que sentido desde então?

B.K.– A internet mudou quase tudo na maneira como colhemos informação, como disseminamos informação e como pagamos pela informação. Ela causou ruptura de uma maneira que é ameaçadora, mas também de algumas maneiras muito boas. Nós agora usamos a internet não apenas para transmitir notícias, mas também para colher informação. Um exemplo óbvio é o da Primavera Árabe. Se só tivéssemos as mídias sociais, não seria suficiente. Mas as mídias sociais foram muito importantes em dar uma percepção do que estava acontecendo nas ruas. Algumas vezes você não tem como chegar até a rua, ir até o país.

A maneira como apresentamos a informação hoje é totalmente diferente da de dez anos atrás. É mais rápido, mais gráfico, com vídeo e áudio quando achamos que eles acrescentarão algo. Todo mundo fica focado na circulação impressa, mas nós agora temos 40 milhões de usuários únicos. Estamos chegando a mais pessoas.

Já é possível dizer que esse modelo do NYT é um sucesso?

B.K.– Quando me perguntam isso, lembro daquela cena de George W. Bush no porta-aviões com a bandeira atrás: “Missão cumprida”. É preciso ser muito cuidadoso antes de cantar vitória. Estamos fazendo isso há menos de um ano. Até agora, e enfatizo o “até agora”, está funcionando tão bem quanto esperávamos ou melhor.

Quanto a audiência do site caiu após o paywall?

B.K.– Caiu um pouco, mas muito menos do que esperávamos. Em parte, isso aconteceu porque não construímos uma parede “dura”. Há muito que você pode fazer livremente. Não sei se funcionaria para outros veículos, mas para nós acho que o segredo foi esse: não erguemos uma parede e dissemos: “Pague agora ou vá embora.” Continuamos convidando as pessoas a entrar sem pagar.

Por que vocês confiam que as pessoas não vão usar as regras do paywall contra o paywall? Por exemplo: linkando todos os colunistas do jornal no Facebook.

B.K.– Não há problema. Você também pode ter música gratuita. É uma combinação de conveniência e… não sei bem como chamar isso… Um sentido de que as pessoas querem apoiar o que fazemos. As pessoas pagam porque é conveniente e porque acham que vale a pena.

O sr. sabe quantos desses 324 mil assinantes pagam mais do que o pacote de US$ 0,99 [preço promocional para as quatro primeiras semanas]?

B.K.– Eu não tenho os números exatos, e se tivesse não teria permissão para lhe dizer. Mas um percentual extremamente alto das pessoas está mudando para o plano completo.

Mas o sr. diria que é a maioria mesmo?

B.K.– Sim, a maioria.

O sr. espera que o número de assinantes digitais do NYT ultrapasse o de assinantes do jornal impresso em cinco anos, por exemplo?

B.K.– Meu palpite seria que sim. Em cinco anos, teremos jornal impresso porque existe uma espécie de núcleo de audiência fiel. Um jornal impresso é uma coisa legal. Você pode levá-lo a qualquer lugar, mas se você o perde não é tão horrível quanto perder seu iPad. Em cinco anos ainda haverá uma operação saudável do NYT impresso. Mas acho que provavelmente em algum ponto desse período o número de assinantes digitais vai ultrapassar o do impresso.

Há alguns anos o sr. fez uma espécie de auto-experiência antropológica, cortando seu contato com a edição impressa do NYT por algumas semanas e lendo apenas as versões digitais. O que aprendeu?

B.K.– Que há muitas maneiras diferentes de consumir informação. Amo o impresso, mas consumo os dois. Para mim, parar de usar um deles é como dizer “eu não vou mais ao cinema, apenas ao teatro”. Leio o jornal pela manhã, levo no metrô, às vezes para ler alguma reportagem que não consegui no café da manhã. Mas depois de 20 minutos no escritório, estou online vendo que novidades aconteceram, lendo outros sites, frequentemente lendo comentários. Adoro saber o que os leitores estão dizendo sobre o que leem – às vezes, isso é mais interessante do que o próprio jornal.

O sr. já disse que, se alguém quiser confiar no Google, deveria ‘dar um Google’ no próprio nome. O Google é sinônimo de mau jornalismo?

B.K.– Tenho muito respeito pelo Google. Uso 50 vezes por dia. Uso muito a Wikipédia porque é muito conveniente: quando você faz uma busca, é frequentemente a primeira coisa que aparece. Mas não acho nenhum dos dois mais confiável do que um bom repórter fazendo seu trabalho.

A Apple é realmente uma ameaça às empresas de mídia?

B.K.– Nós olhamos para a Apple, para o Google, para a Amazon como amigos e inimigos. São tanto aliados quando concorrentes. Concorrentes não tanto por substituição do nosso trabalho jornalístico, mas porque disputam a atenção dos leitores e as receitas. A Apple criou o iPad, que representou um boom para o jornalismo e para os consumidores do jornalismo. Mas a Apple também quer controlar o que se paga na web, pegar seus 30%.

Como as mídias sociais competem com os jornais?

B.K.– Não substituem o jornalismo sério. Você não vai para o Twitter para ler uma reportagem investigativa sobre corrupção no seu governo municipal. Ou uma explicação sobre o que está acontecendo na economia europeia. O Twitter pode linkar você, mas não substitui o lugar onde isso foi produzido.

Quão efetivos os jornais podem ser contra os sites que reproduzem conteúdo de maneira não autorizada?

B.K.– Eles não substituem o fato de que é preciso mandar repórteres aos lugares. Uma coisa é creditar alguém e linkar seu artigo para que os leitores possam ir para seu website e outra coisa copiar, roubar, dizer: “Você não tem que ir para o site deles, aqui está o que ele disse.” Se isso é legal ou não, eu deixo para os advogados. Mas no sentido moral, isso é furto.

O sr. já disse que os jornais estarão aí por muito tempo, ainda que sejam um chip implantado no córtex. Vocês estão trabalhando nisso?

B.K.– Não, mas não ficaria surpreso se alguém estivesse. Nós não temos um departamento de neurociência no NYT – ainda.

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Raio-x Bill Keller

Idade – 62 anos

Cargo – Colunista do NYT

Histórico – Foi editor-executivo do jornal de 2003 a 2011, além de ter sido secretário de Redação, editor de internacional e correspondente em Joanesburgo e em Moscou

Livro – Autor de The Tree Shaker: The Story of Nelson Mandela, sobre o líder sul-africano

Família – É casado e tem três filhos

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[Roberto Dias é editor de Novas Plataformas da Folha de S.Paulo]