Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Crise de percepção e o papel da imprensa

Os problemas que o Brasil enfrenta no momento atual estão sendo descritos de forma extraordinariamente simplista pela imprensa, demonstrando uma crise de percepção talvez generalizada na própria sociedade. Atribuem-se os males da corrupção, do despreparo da equipe de governo, a visão imediatista dos políticos e até os sucessos da equipe econômica a causas imediatas e/ou culturais.

Do ângulo imediatista, é como se para cada acontecimento houvesse apenas uma causa e, eliminada essa causa, o acontecimento também seria erradicado. Do ângulo cultural, a visão que é passada parece ser determinista: sempre foi assim, é parte da natureza do ser humano buscar vantagens pessoais de curto prazo. Dessa forma, não há o que fazer. A diferença em relação ao passado recente é que nos dias de hoje há liberdade para noticiar. Mas que tudo vai continuar na mesma, não tem jeito.

A forma como a corrupção vem sendo tratada é bem ilustrativa desses pontos. De um lado ela é vista como produto do processo de financiamento das campanhas políticas. Os jogos de poder envolvendo empresas privadas, estatais, autarquias e até órgãos da administração pública direta fazem com que todos queiram cortejar políticos profissionais com vistas a obtenção de vantagens futuras. De outro lado, a corrupção é tratada como um desvio moral ou ético que contamina todos os que ascendem ao poder.

Não importam os discursos passados, quando a pessoa chega ao poder entrega-se a suas benesses, cuidando quase que exclusivamente de garantir seu bem-estar e de seus próximos. E, muitas vezes, maravilhando-se com as possibilidades que passa a ter e as subserviências que lhe são oferecidas. Este comportamento é genético ou adquirido? É determinado pela cultura ou é fruto de escolhas individuais? Ou ambas as coisas? E, acima de tudo, pode haver outras causas além destas?

Matérias superficiais

Na imprensa, em geral, apresentam-se os comportamentos das pessoas e não se perguntam as causas profundas deles. Ampliando nosso ângulo de visão, olhando para a educação e formação a que todos somos submetidos no dia-a-dia em quaisquer interações sociais, poderemos identificar muitas dessas causas profundas na gritante falta de senso ético em que estamos enredados. Por exemplo, o que as crianças, desde a pré-escola até a universidade, ouvem de seus professores e observam no comportamento deles? E o que ouvem e presenciam de seus pais? E o que percebem nas lojas, nas ruas, nos parques?

Quando jovens, começam a trabalhar e o que vivenciam nas organizações, privadas ou públicas? Como são ‘doutrinadas’ nos ambientes de trabalho? Como são recompensadas ou punidas? O que devem fazer para serem promovidas, inclusive para posições gerenciais nas quais tomarão decisões que poderão afetar as vidas de milhares de pessoas?

Quando se engajam na vida pública, o que devem fazer para conseguirem ser candidatas a algum cargo? Em que tipo de barganha devem se envolver? Que contrapartida devem oferecer?

Se entram para a academia, que concessões devem fazer ao poder instituído a fim de serem reconhecidas, valorizadas e terem seus trabalhos publicados? Se decidem pela carreira judiciária, a que devem se sujeitar para realizar um trabalho minimamente honesto? E a que apelos luxuriosos deverão resistir se quiserem ficar em paz com suas consciências?

Perguntas como essas parece que não são feitas pelos jornalistas. As matérias superficiais são produto desta falta de análise mais ampla.

Automação, educação e violência

Um outro exemplo de pouca profundidade está na maior parte das matérias que tratam dos sucessos da economia brasileira. Em geral, este sucesso é retratado como decorrência de uma política fiscal rigorosa aliada à atuação severa na fiscalização tributária, que tem proporcionado recordes de arrecadação. Isto tem possibilitado crescentes superávits fiscais e comerciais, permitindo a redução da dívida pública externa (mas não a interna), com perspectivas de redução mais significativas das taxas de juros em futuro ainda incerto. E as causas mais distantes no tempo?

Quase nada tem sido escrito sobre as decorrências da abertura comercial do início dos anos 1990 (talvez por ter sido ela promovida por uma personagem execrada na vida pública). Da mesma forma, não se destacam os investimentos em pesquisa agropecuária que vêm sendo feitos há mais de uma década e que possibilitaram que o país se tornasse referência mundial em muitos campos. Ou à definição de normas reguladoras, inclusive com a criação das agências, o que estimulou os investimentos nacionais e internacionais em infra-estrutura e pesquisa tecnológica. Nem mesmo o excepcional momento da conjuntura econômica mundial, fortemente demandante, que possibilita recordes de exportação mesmo com a moeda nacional sobrevalorizada.

Assim como as causas mais profundas não são analisadas, menos ainda as conseqüências a médio e longo prazos dessas ‘conquistas’. Não se lêem análises sobre os desdobramentos do processo de automação crescente, um dos esteios da redução de custos e ganhos de produtividade.

A automação, de um lado, demanda mão-de-obra muito mais qualificada do que os processos produtivos manuais. O que está sendo feito no campo da educação para atender a esta demanda? De outro lado, automação também significa menos pessoas empregadas. O que está sendo feito pelos que ficam sem trabalho? E se este contingente aumentar ainda mais, quem consumirá os produtos e serviços ‘automatizados’? Qual será a relação entre a automação, a falta de oportunidades educacionais e o crescimento da violência?

Cidadãos conscientes

No âmbito dos superávits comerciais, também há pontos importantes a serem analisados. Quais estão sendo as conseqüências dos sucessos na exportação de commodities? O crescente protecionismo de vários países, que vão do recrudescimento das políticas de subsídios aos seus produtores até a suspensão de importações ao mínimo sinal de problemas, como o caso recente da febre aftosa. O que o país está fazendo nessa direção? A propósito, para que o país se tornasse maior exportador de carne e de soja, quais têm sido as conseqüências em termos de desmatamento? Com isso tem repercutido no mundo? Que desdobramentos isso trará para o próprio Brasil (erosão do solo, perda de produtividade, instabilidades climáticas), inclusive na perda de imagem positiva em mercados sensíveis aos problemas relativos ao meio ambiente?

Isso não tem aparecido nas matérias jornalísticas com a freqüência desejável e de forma a despertar o grande público para estas questões.

Alguns comentaristas criticam a falta de engajamento da população em manifestações mais vigorosas a favor de mudanças substanciais na política. Mas até que ponto a própria imprensa não está desestimulando tais manifestações através de seu olhar míope? De outra parte, até que ponto a busca de entendimento mais completo do que está acontecendo poderá incentivar as pessoas a buscarem uma atuação mais ativa como cidadãos verdadeiros, gente que se envolve com os destinos da ‘cidade’, do Estado?

Ajudar a formar cidadãos conscientes pode ser também um papel da imprensa?

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Psicólogo, sociólogo e MBA