Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Hoje tem espetáculo? Tem sim senhor!

Tudo tem (ou deveria ter) limite – até mesmo a ignorância. Por mais que esta pareça crescer, desenfreadamente, por estas terras, páginas etc. As notícias, vindas de todas as mídias, decepcionam: superficiais, parciais, contraditórias. Na internet, publicam coisas surpreendentes; nada, entretanto, supera os comentários dos próprios ‘internautas’. ‘Não leve a sério’, pode dizer alguém – o pior é saber que é o simples reflexo do povo de meu país: que pena! A fórmula ‘pão e circo’ definitivamente não caiu com Roma, antes tivessem os turcos a tomado também – ainda que, a esta altura, nem era o dito império o mesmo, nem funcionavam mais estas máximas simplistas.

Aqui, pelo contrário, está em pleno vigor. Todos querem sangue, espetáculo e munição para disparar em todas as direções. Tudo bem, ninguém precisa conhecer lei nem história, mas não precisa exagerar. Vocês queriam ver prisões, pancadaria na televisão, conversas gravadas em câmeras escondidas? Por que me espanto, se é isso mesmo que produz a catarse que move a maioria? E, graças a Deus, é ela quem manda. Se é essa mesma maioria que vê o Jornal Nacional, lê a Veja, assiste a América e se acha muito intelectual rindo das ‘meninas do Jô’ – espetáculo à parte. É a mesma maioria que elege, eleição após eleição todos os donos do ‘poder’ – essa ‘coisa’ esquisita e tão distante. ‘Sai desse corpo que não me pertence’ – gritou o enésimo cidadão depois de votar, como se não fosse ele a força disso tudo. E lá vem a Globo, com a bola no nariz… ‘Coisa chata, hoje não foi ninguém preso!’

Estrelas melancólicas

Essa ordem de coisas que vocês – quase todos – querem ver estampada é bem a linha burra onde querem mantê-los, desde Cabral… ‘It´s the same old theme, since nineteen-sixteen’ cantam os irlandeses do Cranberries, despertando a ‘ira’ de uns e outros com Zombie. Ótimo título, é isso aí, zumbis marionetes correndo ao sabor dos blogs de última hora – engolindo notícia-pronta-massificada mais rápido do que comem as promoções dos fast-foods – e dos repórteres alvoroçados, mais interessados em produzir os estardalhaços aos quais ‘eles’ querem ‘nos’ ver habituados, para que continuemos sempre achando que política é sempre assim: ‘Nada presta, deixa isso pra lá!’

‘Tenham serenidade’ – disse eu, antes de ser devorado por 8.592 famintos. Antes de sair repassando o correio das más notícias, pensem em separar uma coisa da outra. Os mesmos que choravam com a morte de Tancredo acreditaram na caçada aos marajás, ficaram magoados com os ‘carros-carroça’, pintaram a cara pelo ‘impeachment’ – e gostaram de descobrir a palavra, colocaram o tucano para voar, acreditaram que a reeleição foi comprada, criticaram as privatizações, vestiram a camisa vermelha e saíram com a estrela por aí… e no mais recente – mas nunca o último – movimento repetem ‘mensalão… mensalão…’.

São os mesmos 60 e tantos por cento, as mesmíssimas pessoas sempre dispostas a embarcar na última encenação da peça que estrelam, melancolicamente, sem saber.

Pedras em todos

Há muito sofrimento guardado para conseguir um regime democrático responsável, conquista de gente que não acreditou em tudo que lhe disseram, conquista de gente que vê seu candidato às vezes ganhar, às vezes perder… E agora, no primeiro sinal de cansaço querem jogar tudo fora e sair dando carreira: ‘Pega ele aí, dá uma surra que aprende’. A claque de ignorantes é a mesma de sempre, e pela ‘história afora eu vou tão sozinho’, mas sempre com certo medo e respeito, porque as maiorias são arrogantes mesmo, intolerantes e conservadoras, ao ponto de extirpar, sem a menor timidez, tudo aquilo que escolheram e já não lhes serve mais (alguém viu Edward, mãos de tesoura aí?).

E falam de lei, CPI, caixa 2, misturam junto um monte de nomes e condenam rapidamente, como todo bom Tribunal de Exceção. Respirem um pouco entre um ‘plim’ e outro! Calma! Além dos folhetins sensacionalistas, que tal ler algo diferente? É trabalho para séculos… Sem educação nunca sairemos de onde estamos, e viveremos a doce fantasia de democracia nestes momentos coletivos irracionais.

E acham que o governo é sempre ruim, não tem acordo. Não defendo nenhum partido, nem vocês, ‘camaradas’ da imprensa. Afinal, com a mesma desenvoltura atirariam pedras em todos eles, da esquerda irresponsável à direita retrógrada: ‘Ninguém presta mesmo!’, seguem pensando. Só lamento pelo Brasil, porque o brasileiro é o que ele tem de melhor, e ‘olha só o brasileiro aí, gente!’… Lá vem o carnaval, vamos ver as Valérias sambando, as máscaras dos Valérios, e aí tudo fica bem: ‘Ah, tomara que Hans Donner faça um vinheta bem bonita!’

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Advogado (UFPB), com especialização em Direito Eleitoral, servidor federal efetivo de carreira do TRE-PB há 10 anos, atualmente na assessoria jurídica do tribunal