Friday, 21 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Imprensa esportiva calou-se no caso da vacinação do Atlético Goianiense no Paraguai

Foto: Reprodução /Twitter Alejandro Domínguez

O fato. Na semana passada, quinta-feira (06/05), o time de futebol do Atlético Goianiense, de Goiânia (GO), estava em Assunção, capital do Paraguai, para disputar uma partida contra o Libertad, válida pela Copa Sul-Americana. Após a vitória por 2 a 1, todos os 44 integrantes da equipe brasileira receberam as primeiras doses da vacina SinoVac, doadas pela organizadora da competição, a Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol, como é conhecida, que tem a sua sede em Luque, uma cidade da região metropolitana de Assunção. A Conmebol recebeu 50 mil doses da vacina que pretende distribuir a times de futebol dos 10 países, incluindo o Brasil, que fazem parte da confederação. Alejandro Dominguez, o presidente da Conmebol, disse que essas vacinas são uma contribuição da organização para o bem-estar dos jogadores, árbitros e demais pessoas envolvidas com as equipes que disputam os torneios da confederação, sendo o principal deles a Copa Libertadores da América. O presidente do Atlético, Adson Batista, 50 anos, afirmou que não é culpa dele se o governo do Brasil não está oferecendo as vacinas. Dessa forma, aproveitou a oportunidade e vacinou a equipe. Como dizem os colegas da imprensa esportiva: a bola picou na área e ele chutou e fez o gol. Esse é o resumo da história. Vamos mergulhar nas entranhas do fato para mostrar ao nosso leitor os cantos escuros desse episódio.

Antes de seguir com a história, quero dar algumas explicações que julgo necessárias, principalmente aos jovens repórteres que estão na correria do dia a dia das redações. Eu tenho 70 anos de idade, 40 e poucos de carreira como repórter e um currículo bem nutrido — disponível na internet — que me autorizam a ter a honra de conversar com os meus colegas e leitores sobre esse episódio. O que vou escrever não é um texto opinativo. Vou desfilar fatos que já publicamos e relatos de situações que conheço profundamente, como é o caso do Paraguai. O brasileiro não é proibido de fazer o “turismo da vacina” e viajar para outro país, por sua conta e risco, para se vacinar. Mas não é o caso do Atlético Goianiense. O time estava lá representando o Brasil em um torneio de futebol. É como se o clube fosse um pedaço do território brasileiro. Portanto, só poderia ter tomado uma vacina que tivesse sido autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mais ainda: a Lei 14.125/2021 determina que qualquer vacina que entre no território nacional tem que ser repassada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Ou seja, o presidente do Atlético Goianiense pode ter feito um gol contra caso o governo brasileiro resolva passar o que aconteceu a limpo. Dificilmente fará isso porque o caso passou batido pela imprensa brasileira, em especial a esportiva.

Mas isso não significa que o episódio tenha passado batido entre os partidos de oposição do Paraguai. Por quê? Simples. A oposição paraguaia considera o Brasil um país imperialista e responsável por apoiar governos corruptos no seu país — há matéria na internet. Nos últimos anos tem sido comum a queima da bandeira brasileira nos protestos populares. A primeira vez que isso aconteceu foi em 2008, na cidade de Curupaiti. Eu estive lá fazendo reportagens e por todos os cantos encontrei faixas acusando os brasileiros de imperialistas. Outra bandeira foi queimada em 2019 no município de Santa Rosa del Aguaray. O atual presidente do Paraguai, Mario Abdo Benitez, é acusado pela oposição de defender os interesses brasileiros na usina hidrelétrica de Itaipu — que pertence aos dois países. E vem sendo contestado pela população pela condução do combate à pandemia causada pela Covid-19. Faltam leitos hospitalares, equipamentos nas UTIs, remédios e profissionais da área médica. Até a última sexta-feira (07/05) havia no Paraguai 296 mil pessoas que testaram positivo para o coronavírus, 7 mil mortos e apenas 143 mil doses de vacina aplicadas. Sendo que 12 mil tomaram a segunda dose, representando 0,2% dos 7 milhões de habitantes do país. Em março a população foi para a rua e pediu o impeachment do presidente Benitez. Uma das dificuldades do governo do Paraguai é conseguir negociar vacinas com a China porque o país vende produtos eletrônicos e outros fabricados em Taiwan, um pequeno país insular cujo território é reivindicado pelos chineses — há matéria na internet. A Conmebol tem sede na cidade de Luque, mas também é de propriedade de outros nove países sul-americanos.

É dentro desse contexto que os paraguaios assistiram 44 pessoas do time brasileiro Atlético Goianiense tomarem a primeira dose da vacina no seu país. O ato foi uma provocação barata diante das dificuldades sanitárias que a população local enfrenta. Conheço profundamente o Paraguai. Desde 1983 volto lá de dois em dois anos, a última vez foi em 2019. Em março, na ocasião das manifestações contra o presidente devido o alastramento da pandemia, fiz o post “Protestos no Paraguai: a imprensa esqueceu que lá vivem 1,5 milhão de brasileiros.”

Chamados, a maioria, de brasiguaios, são agricultores que migraram em busca de terras baratas e transformaram o país em um grande produtor de grãos e carnes. Sempre que acontece uma disputa política entre o governo e a oposição quem paga o pato são os brasileiros que lá vivem, principalmente os agricultores. Dominguez, o presidente da Conmebol, precisa ser entrevistado pelos colegas jornalistas. A sua iniciativa de vacinar os jogadores de futebol é polêmica se levado em conta o atual quadro da pandemia nos países da América do Sul. A imprensa esportiva do Brasil precisa falar sobre isso.

Texto publicado originalmente publicado no blog Histórias Mal Contadas.

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Carlos Wagner é jornalista.