Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Mídia, crise e instituições

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. Você sabe o que significa empastelar? O verbo caiu em desuso, mas no passado o empastelamento de jornais era muito comum. Quando alguém queria calar um jornal, convocava um bando de desocupados para invadir as oficinas e espalhar as caixas de tipos pelo chão. O jornal ficava dias, semanas, às vezes meses, fora de circulação. Na quinta-feira passada, em Marília, interior de São Paulo, o Diário de Marília e duas rádios da mesma empresa foram empastelados num incêndio criminoso. Está na moda culpar a mídia por todos os males e ninguém se dá conta de que certas cruzadas contra a imprensa às vezes descambam em empastelamentos.


O país está horrorizado com a bárbara chacina ocorrida no último sábado na Zona Leste de São Paulo, que tirou a vida de cinco pessoas de uma família de origem japonesa. Acontece que a grande imprensa paulistana até hoje recusa-se a levar esta violência para as suas primeiras páginas, deixou-a nas páginas internas dos cadernos locais. Não queriam chocar os seus delicados leitores. No Rio, o compromisso de noticiar tudo o que acontece com o destaque merecido não favorece a imagem da ex-Cidade Maravilhosa mas, em compensação, revela um jornalismo veraz e responsável.


As redações dos telejornais estão revoltadas com as facilidades obtidas pela Rede Globo para registrar com exclusividade a prisão de Flávio Maluf, filho do ex-prefeito. A revolta é legítima, mas o autor do furo, o repórter Cesar Tralli, aproveitou a oportunidade e cumpriu com a sua obrigação. Quem errou foi a Polícia Federal, que atropelou o sagrado princípio da isonomia e premiou apenas a Rede Globo.


Os protagonistas da crise política são trocados todas as semanas há quatro meses consecutivos – já tivemos Jefferson, Marcos Valério, Fernanda Karina, Delúbio, Silvinho, Dirceu e tantos outros e outras. Mas há 10 dias os holofotes estão fixados numa figura que em fevereiro passado foi considerado apenas como uma figura folclórica.


Severino Cavalcanti, presidente da Câmara, passou a encarnar a própria crise desde o momento em que numa entrevista à Folha sugeriu penas brandas para os parlamentares envolvidos no mensalão. A permanência de Severino na presidência da Câmara depende da comprovação das denúncias de Veja e Época de que beneficiava-se de um mensalinho pago pelo dono dos restaurantes da Câmara. Mas na verdade o mensalinho de Severino é apenas o pretexto para neutralizar a única instância capaz de transformar esta sucessão de escândalos em pizza.


Severino caiu de pára-quedas no meio da crise e de repente percebe-se que ele é a própria encarnação da crise. A imprensa e a oposição não pensam em outra coisa senão em cassá-lo, o governo não pensa em outra coisa a não ser em mantê-lo.